Na sequência dos trágicos acontecimentos que recentemente assolaram o Chile, as datas e o local de fruição do prémio da Promoção “Euromilhões - A Sorte Protege os Audazes” foram alterados. Desta forma, o prémio, que, inicialmente, consistia numa viagem ao Chile para participação numa das etapas da 3ª viagem de circum-navegação do navio-escola Sagres, no percurso “Talcahuano-Valparaiso”, foi alterado para uma viagem de 11 dias ao Peru e Equador*, incluindo, naturalmente, a navegação a bordo do Navio-escola Sagres ao longo da Costa do Pacífico, agora no percurso “Callao (Peru) – Guayaquil (Equador).
Em consequência, o prazo para concorrer à promoção foi igualmente alterado:
até 30 de Março ainda pode concorrer!
Para o fazer, já sabe: basta adquirir um bilhete do Euromilhões com um mínimo de 5 apostas + Joker nos pontos de venda habituais Jogos Santa Casa, juntar o talão de caixa comprovativo da compra ao cupão devidamente preenchido e habilita-se, assim, a esta Excêntrica viagem.
Por uma questão de agenda, Miguel Lacerda não embarcará na Sagres, no período entre 20 de Março e 15 de Abril, como estava previsto.
*
29 de Abril – estadia de 1 (uma) noite em Lisboa;
30 de Abril – transporte do hotel para o Aeroporto de Lisboa e partida com destino a Callao (Lima - Peru);
30 de Abril e 1 de Maio – estadia de 2 noites nesta cidade;
2 de Maio – embarque no Navio Escola Sagres, no Porto de Callao, para participação numa etapa do percurso do evento “3ª Viagem de circum-navegação do Navio Escola Sagres” a bordo do referido Navio, com chegada prevista a Guayaquil (Equador) no dia 07 de Maio de 2010;
07 de Maio – chegada do Navio Escola Sagres ao Porto de Guayaquil (Equador) e estadia de 1 (uma) noite nesta cidade;
08 de Maio – saída do Aeroporto de Guayaquil (Equador) com destino a Lisboa;
09 de Maio - chegada ao aeroporto de Lisboa (não inclui estadia nem transportes no dia de chegada).
Estas datas poderão, por motivo de força maior, ser sujeitas a qualquer modificação.
sexta-feira, 19 de março de 2010
terça-feira, 16 de março de 2010
Recife, 12 de Fevereiro
Dia 25, o último dia.
São 19h50, véspera do Carnaval. Já é noite e a minha viagem está perto do fim. Apanho um táxi para o aeroporto. A deslocação demora mais do que seria normal. Por esta altura, calcula-se, mais de dois milhões de foliões estão rua, dirigindo-se para o centro da cidade. Dentro do táxi passa uma canção cujo refrão é, aqui e ali, gritado lá fora:
- Oi pessoal, oi moçada, aí vem o galo da madrugada!
O galo, um galo gigante que, ao entrar na cidade na próxima madrugada, dará início a uma festa que já começou há dias, que verdadeiramente começa na sua preparação.
São 16h10. É uma tarde de um Verão rigoroso, igual a tantas outras. A sombra do hotel e as dos outros prédios da marginal de Jaboatão dos Guararapes está no mar. E irá crescendo à medida que a tarde for avançando de encontro a essa sombra maior, a noite. Passo em revista alguns dos apontamentos dos últimos dias para este caderno de viagem. Sinto-me verdadeiramente agradecido. Fui recebido por todos, do comandante Proença Mendes ao capitão (alcunha pela qual é tratado o marinheiro mais novo) acima de toda e qualquer expectativa. Primeiro, com deferência e depois, muito rapidamente depois, com um genuíno carinho.
São 6h30. O sol já nasceu. Acordo cedo para evitar o trânsito ou qualquer contratempo que me possa fazer perder a partida da Sagres. Estou praticamente sem dormir. O hotel onde passei esta noite fica a 50 minutos de distância da Sagres, a andar bem. Quando chego a bordo, sou conduzido à camarinha onde o comandante e o imediato se despedem de mim, depois de, muito gentilmente, me oferecerem um presente do navio. Um por um, despeço-me de todos os elementos da guarnição. Tento, espero, não me esquecer de ninguém. Os pilotos brasileiros chegam a bordo para ajudarem o navio a sair do porto da cidade e a banda da Escola de Aprendizes Marinheiros de Pernambuco começa a tocar. A Sagres parte. Vai-se afastando. Deixo de conseguir reconhecer os rostos dos meus camaradas. Mordo os lábios para não chorar. Até sempre, camaradas.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Recife, 11 de Fevereiro.
Dia 24.
Parecem miúdos. Cansados, de calções e com as t-shirts sobre os ombros ou à volta do pescoço, regressam à Sagres em pequenos grupos, dois a dois, três a três, à conversa. Há um que traz uma bola debaixo do braço. Acabou o Sporting-Benfica, combinado ainda no mar. O clássico entre os rivais da Segunda Circular foi jogado no campo da capitania. Também no Recife, o primeiro milho foi dos pardais. Literalmente. E assim se passou uma manhã. À tarde, vou a Olinda na companhia do Bruno, do Eusébio e do Sousa Luís. Olinda é uma pequena e muito bonita cidade. Joaquim Cardoso, poeta e dramaturgo, que aqui teve a sua última residência, fixou-a assim: “Olinda / das perspectivas estranhas / dos imprevistos horizontes / das ladeiras / dos conventos e do mar / Olho as palmeiras do velho seminário / o horto dos jesuítas / E neste mar distante e verde, neste mar / numeroso e longo / ainda vejo as Caravelas”. Aqui, a visão sobrepõe-se a todos os outros sentidos. Ou, nas palavras do poeta pernambucano Carlos Pena Filho: “Olinda é só para os olhos / Não se apalpa, é só desejo / Ninguém diz: é lá que eu moro / Diz somente: é lá que eu vejo”. A sua beleza não ilude. É um conjunto arquitectónico único, envolto no verde da vegetação que cobre as encostas, debruçadas sobre um mar também verde e que está aos seus pés. Olinda ou Ó linda, como lhe chamou quem, pela primeira vez, viu aquele verde (da mesma forma que, numa versão popular, Queluz deve o nome a uns caçadores que, ao regressarem já de noite a Lisboa e avistando uma luz, perguntaram: “Que luz é aquela?” Que luz, Queluz.). A cidade, declarada Património da Humanidade pela Unesco em 1982, já está mascarada apesar de, oficialmente (?!?), o Carnaval só começar daqui por dois dias. E perde o receio do ridículo e da chacota, que no Carnaval caem exactamente em quem quer ou se deixa ficar sério. Por esta altura, tudo fica suspenso, as misérias, as dores e os problemas. A rotina dá lugar a um impulso, um transe, essa pulsão que empurra toda a gente, rua abaixo, rua acima, atrás do bloco carnavalesco do seu bairro, ao som do fevro. Basta ouvir, basta sentir o seu ritmo, deixá-lo entrar na cabeça para a esvaziar, permitir que tome conta dos sentidos, um a um, que contagie os membros dormentes do corpo até chegar ao pé. Aqui, dizem, é o Carnaval mais multicultural, mais democrático do mundo. Um Carnaval que não cabe nem se confina em sambódromos. Um Carnaval feito na rua, que é de toda a gente, que não é para ver, que é para pular e brincar. Até porque, como diz a canção do Chico Buarque, “não existe pecado do lado de baixo do Equador”. No fim da tarde, regressamos à Sagres e a um outro ritmo que também não pára, até porque a partida está prevista para amanhã de manhã. No navio, houve quem aproveitasse a tarde para falar para casa através do skipe, e juntaram-se novas caras à guarnição: marinheiros portugueses, que só agora puderam vir, cadetes brasileiros e o oficial por eles responsável, que vão fazer a próxima tirada. O camião cisterna com o combustível chegou, finalmente.
- É habitual só chegar em cima da partida. É truque. Pensam que ficamos tão à rasca que já não o podemos recusar mesmo que não seja de boa qualidade – diz o Oliveira e conclui – ‘Tão tão enganados!
Nessa noite, todos os oficiais menos o Oliveira, que está de serviço, vão jantar a uma esplanada em Boa Viagem. Será o meu último na sua companhia. Daqui por umas horas, o Comandante vai entrar em directo para uma rádio portuguesa.
- O que estamos a fazer aqui e à volta do mundo só existe se o dermos a conhecer a Lisboa – atira-nos o truísmo, não conseguindo esconder a vaidade que sente nos seus homens e na missão.
Vou passar a noite a um hotel na outra ponta da cidade, que o “doutor” partilha já o seu camarote com o oficial brasileiro. Um hotel de pilotos e hospedeiras. Pouso as malas e, acto reflexo, ligo a televisão. Clinton teve uma complicação cardíaca, Mandela celebrou o 20º aniversário da sua libertação e Arruda, governador do distrito federal, foi levado para uma delegacia. Eis os headlines da Nordeste, a cadeia da Globo para a região, e o princípio da bebedeira de informação que vou apanhar noite dentro. O mundo não parou nestas semanas que estivemos no mar. Continuou a rodar sobre si próprio, continua igual a si próprio. Apesar de o “Público” ter sido diariamente descarregado para o WISE, não o li uma única vez por opção, como aliás não toquei na meia dúzia de livros de que me muni para a viagem. Um retiro é um retiro é um retiro. Noite fora e à medida que o mundo me vai chegando pela televisão, procuro, ingenuamente, como se fosse possível, refazer-me de todas as emoções. Lembro-me do Oliveira a contar as manobras arriscadas - no limite - mas desenhadas na perfeição que a Sagres fez em Nova Iorque e pelas quais arrancou a maior saudação entre os mais consagrados navios da sua categoria.
- Os marinheiros estavam todos de branco alinhados nos braços dos mastros e ao apito – e grita como lá estivesse ainda - pipióiiii!, do mestre respondem com “vivo”, e não viva, pá, porque “vivo” é audível a uma distância maior. E acenam para terra.
Lembro-me o Castro e da sua canção preferida, Saudadito Marinero, que passa os dias a trautear. Vêm-me à cabeça os rostos do Rui Pedro, do Bruno, do Hugo, do Gaspar, do Leão, do Luís Lopes, dos Eusébios, do cabo e do tenente. Na vida, pouca coisa se compara a fazer camaradas, a fazer amigos.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Recife, 10 de Fevereiro.
Dia 23.
Hoje é um dia importante, o mais importante e solene da nossa estadia no Brasil. Hoje, apesar do grupo que já saiu para ir fazer novos e repetidos exercícios de homem ao mar em Porto de Galinhas, muito mais gente vai ficar de serviço a bordo. Ao almoço, o comandante e o imediato, aos quais se juntarão o embaixador de Portugal (que veio de Brasília) e o cônsul português na cidade, irão retribuir o acolhimento dado ao navio-escola nacional pelas autoridades locais. Prefeito, capitão do porto da cidade, provedor do Hospital Português, entre outros dignitários locais, estão quase a chegar. Quando o carro da prefeitura estaciona em frente à Sagres, saem do seu interior dois indivíduos, um de fato e gravata e outro de ténis e t-shirt e, por um breve momento, instala-se a dúvida: qual é o prefeito, qual é o seu segurança? Certo, não foi o segurança que veio de ténis. Os cozinheiros e restantes taifas passaram a manhã a preparar o almoço, que está a ser servido na camarinha, o que foi feito sem uma ponta de stress, com uma normalidade que me põe os nervos em franja. Ainda de manhã, houve uma operação de mergulho. Depois do seu habitual jogging matinal, que já chega aos 70 minutos de duração, um dos fuzileiros, equipado para o efeito, mergulhou junto à hélice. Foi verificar se os parafusos que fixam a hélice ao navio precisavam de massa de betão hidráulico.
- Só uma hélice bem fixa produz ao girar na água aquele efeito de cone que é fundamental para uma melhor hidrodinâmica – explica-me o imediato.
A seguir ao almoço, continua-se a preparação da recepção que terá lugar logo à noite. A primeira das recepções que faz da Sagres uma embaixada itinerante, e cujos convites partiram há dias para todas as representações diplomáticas, órgãos de comunicação social, destacados membros da comunidade de negócios, autoridades militares e civis e demais forças vivas da cidade, em nome do comandante e do embaixador. O tombadilho começa por ser baldeado para depois ser coberto com um toldo. Os amarelos são novamente areados e todos os cabos acertados. As balsas de salvamento são aproveitadas como suporte das mesas onde serão servidas as entradas. E imediatamente em frente à ponte, é montado um bar. Enquanto decorre toda a preparação da recepção, oito marinheiros, que foram destacados para o navio muito em cima da data da sua partida, vão ser vacinados contra a febre amarela e meningite no Hospital Português, através dos bons ofícios do seu provedor. E um pequeno grupo de oficiais sai do navio para uma tarde de compras no shopping. Havaianas de presente para a família, pilhas, protectores solares e outras compras de última hora para mais uma tirada. O Oliveira e o Gaspar vão comprar uma Nossa Senhora de Fátima para colocar junto à máquina da Sagres. E o Bruno aproveita para cortar o cabelo. Quando regressamos, ficamos a saber que houve um anormalmente elevado número de visitas ao navio, o que, por certo, se ficou a dever à reportagem sobre a Sagres que ontem passou na televisão local. 4253 em apenas quatro horas, não é um número elevado. É um número impossível. O counter, aventa-se, deve-se ter avariado. Trocava, de bom grado, a tarde que passei com a do cabo Eusébio. Diz-me que o que gosta é de sair daqui, escolher um boteco, sentar-se e conversar. Ou apenas ficar a ouvir. E foi o que hoje, finalmente, conseguiu fazer.
- Aprender alguma coisa com quem sabe mais do que eu ou que, pelo menos, sabe coisas que eu não sei, pá, isto é o que de melhor posso levar desta viagem – diz, encostando-se à balaustrada com uma sagres na mão. – Apanhámos um português, radicado no Brasil há anos, que é daquelas pessoas com conversa boa, ‘tás a ver? Com assunto, que por mais que fale, nós não-nos cansamos de o ouvir.
A Sagres está agora engalanada. Os marinheiros, de branco, são agora bar tenders, prontos para começar a receber os convidados. Uma recepção é isso mesmo, uma recepção. Uns quantos discursos, primeiro o comandante seguido do embaixador. Outras tantas conversas de circunstância. As bandejas com os aperitivos, as pessoas e as conversas circulam e procuram-se umas às outras.
- Está tudo bem, não está? – pergunta-me o cabo Alves buscando aprovação e com uma preocupação genuína na voz. - É que os olhos também comem – acrescenta.
Depois do brinde com Vinho do Porto, bandejas com pastéis de Belém feitos a bordo, começam a passear por entre nós. O Evandro tira um da primeira bandeja que passa e, mal o acaba, procura com o olhar outra bandeja. Segue-a e quando finalmente consegue tirar o segundo pastel, justifica-se com um ar de bom malandro.
- A este preço! – e ri-se.
No fim da noite, apesar do reduzido número de convidados presentes, fica uma certeza. A forma como sabemos receber pode encher-nos de orgulho.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Recife, 09 de Fevereiro.
Dia 22.
Calções de banho e bermudas. Camisas de alças e t-shirts. T-shirts da Gucci, de Fortaleza, de Porto Seguro e do Hard-Rock Café de uma qualquer outra cidade europeia, t-shirts da selecção ou simplesmente lisas. Apenas um ou dois ténis que pontuam no meio de imensos chinelos e havaianas de todas as cores e feitios. Outra farda, farda de praia, que despidas as outras, agora são eles mesmos. Sem disfarce. Metade da guarnição espera o mini-bus que a vai levar a Porto de Galinhas, enquanto a outra está ocupada com nova faina de material. Os oficiais irão lá ter a seguir ao almoço num carro alugado. Fomos pela marginal da Boa Viagem, marginal de Jabotão dos Guaranapes, até sermos forçados a perder o mar de vista. Uma hora e um quarto para perfazer os, praticamente, 70 e poucos quilómetros de um contínuo urbano. A Boa Viagem é, com a sua marginal de 7 km, a antítese dos bairros antigos que visitámos ontem. Não é mais do que um corredor, uma parede, um muro caótico de arranha-céus, cuja sombra, da parte da tarde, vai crescendo no mar. São de uma fealdade indizível – sobressai apenas um ou outro edifício elegante, jóias do modernismo - e acabam abruptamente três ruas atrás do mar, no preciso local onde começa uma favela a perder de vista. Se cada parte da cidade nos diz tudo sobre a sua época da sua construção, o parque automóvel é um retrato do presente. A abundância de VW pãos de forma e fuscas, a que nós chamamos carochas com ternura, com que nos cruzamos, atesta o mau do estado das estradas. Um zero quilómetros, um carro novo, é um convite ao assalto.
- Com o Lula e o seu programa fome zero a violência tem vindo a diminuir - todos dizem – para acrescentar de seguida – até aumentar outra vez.
A generalidade dos carros tem vidros ligeiramente fumados, por causa do sol, claro, mas também para fazer pensar aos bandidos na possibilidade de haver bandidos lá dentro. 70 km depois, o suficiente para ver muita pobreza e miséria, chegamos a Porto de Galinhas. 70 km depois, algumas lojas da cadeia “Achaqui” e muitos outdoors 8x3 que repetem a mesma mensagem: Obrigado Governador, obrigado Prefeito pelo novo e maravilhoso (sublinho, maravilhoso) hospital. Desconfiamos que os cartazes não terão sido pagos pelos cidadãos agradecidos e maravilhados. Porto de Galinhas, eleita a melhor praia do país pelo enésimo ano consecutivo, é uma desilusão mas só para quem sabe como não são as praias mais conhecidas do Brasil. Faz lembrar Búzios, faz temer por Tancoso junto a Arraial da Ajuda, na Baía, paraísos virgens que não aguentam a praga do turismo de massas. Com a maré-cheia, não vemos os recifes e as lagoas, não vemos Porto de Galinhas dos postais. Sobra uma frente corrida de cadeiras de plástico, que só a temperatura da água faz esquecer. À excepção de biquínis, pode-se comprar quase tudo. Óculos de sol e queijo frito, cangas e água de coco, toalhas de praia e ostras, protectores solares e maçarocas de milho. Saímos cedo da praia. O sol põe-se ao contrário, fazendo-nos sombra. De regresso à Sagres, ficamos a saber que o primeiro dia de vistas não foi famoso. Apenas 48 visitantes. À noite, novo rodízio. O Pinto Ferreira e o Eusébio, inamovíveis na sua dieta, decidem fazê-la apenas a bordo. O Rui Pedro, ocupado com a osmose e alguns outros com os seus afazeres, ainda não conseguiram descer à cidade.
Recife, 08 de Fevereiro.
Dia 21.
Quando acordamos, já o sol vai alto. Não porque tenhamos acordado tarde, mas porque aqui amanhece e anoitece cedo para se evitar mais horas de calor. Em terra, há rotinas novas. Não há alvorada e às 8h00 da manhã, em vez da formatura, há o içar da bandeira, que só será arriada ao pôr-do-sol. Acaba a tirania do quarto e assim o oficial de quarto (e respectiva guarnição) passa a oficial de dia. A entrada ou saída dos oficiais da Sagres tem um breve cerimonial. Quem está de serviço à prancha bate a continência - e apresenta armas - que os oficiais devolvem, perfilados se estiverem em grupo, já a bordo, à entrada ou em terra, à saída, e que não os dispensa de, a meio da prancha, baixarem a cabeça na direcção da bandeira nacional, à ré. O comandante e o imediato têm, para além de tudo isto, direito a apito, mais longo para o primeiro. E, claro, com novas rotinas vêm novas praxes. Quem, por esquecimento, passar a prancha a fumar ou comer, já sabe. O comandante e o imediato saíram. Apito longo, apito curto. Foram apresentar cumprimentos às autoridades. Almoçaram na Capitania a convite do comandante militar do Nordeste e do capitão do porto da cidade. A manhã foi aproveitada para continuar a resolver os problemas surgidos no decurso da travessia do Atlântico. Desde ontem que se anda a tratar da osmose, que aqui é reversa e não inversa, se fazem contactos com o fornecedor dos radares, e que a equipa do costado está em acção. Empoleirados em escadas de cabos, que fazem o papel de andaime, vários marinheiros começam por retirar as várias e sobrepostas camadas de tinta para chegar à ferrugem, escondida em vários pontos do casco do navio, trabalho que só pode ser feito nos portos. O Pinto Ferreira negoceia o preço dos mini-bus que irão levar metade da guarnição amanhã e a outra metade depois de amanhã, ao sítio que ninguém quer perder, Porto de Galinhas. Quem não está de serviço e uma vez que complete o seu trabalho, aproveita para pôr os seus assuntos pessoais em ordem. O Bruno, sentado na secretária do camarote, descarrega um artigo do New England Journal of Medicine sobre cardiologia, a especialidade de que é interno. À tarde, o comandante, o imediato e eu saímos para nos perdermos no bairro que, não por acaso, tem o mesmo nome da cidade, o Bairro do Recife, e no Bairro de Santo António, contíguo ao primeiro. O primeiro é o bairro mais antigo do Recife e os dois bairros juntos constituem a parte antiga da quinta cidade brasileira. O Recife desenvolveu-se de nordeste –por causa de uma outra cidade, Olinda, património natural e cultural da humanidade, e decisiva na formação da jovem nação – para sudeste, sempre de frente para o Atlântico. É uma cidade de água. É formada por ilhas e seus diques, cortada por rios e seus canais, unida por pontes e banhada por um mar, que com a protecção dos recifes, chega tranquilo. A Veneza brasileira, como os Pernambucanos, fiéis à sua capital e sem medo do exagero, dizem ser. A água, único ponto de toque com a cidade dos Doges ou com Amesterdão, sempre foi decisiva na prosperidade da que em tempos idos foi a maior metrópole de toda a América Latina. Vamos passar a tarde a deambular pelo Bairro do Recife, um mercado a céu aberto que se estende através das pontes Maurício de Nassau e 12 de Setembro até Santo António. Na arquitectura revemos Portugal - os bairros estão polvilhados de igrejas portuguesas - mas as corres garridas que pintam os edifícios dão razão a Agostinho da Silva quando dizia que um brasileiro é um português à solta. Há no ar uma profusão de cheiros temperados pela humidade, de cores fortes e pregões gritados às portas das lojas que se diluem à passagem da multidão e dos vendedores ambulantes que, puxando os seus carros repletos de mercadorias, nos oferecem de tudo um pouco. Vendem-se objectos impossíveis, de encontrar e de descrever. Em frente a uma chapelaria, recusamos o caju de um vendedor e aceitamos a fruta-pinha de outro, fruta que, como o nome indica, por fora parece uma pinha e tem, no interior, gomos muito saborosos. No país dos shoppings e dos mega-shoppings – o Recife é servido por cinco – o comércio tradicional tem uma vitalidade incrível. A noite cai cedo, apanha-nos a beber cerveja num tasco de rua, e com ela vêm as luzes dos candeeiros públicos, das lojas, dos reclames, das decorações do Carnaval que se montam por todo lado e dos faróis de um tráfego, que é agora mais intenso. Encontramo-nos na Sagres com os restantes oficiais e com o Evandro, oficial de ligação da Marinha Brasileira, e jantamos juntos em Olinda. A noite vai acabar tarde e em grande na outra ponta da cidade do Recife, em Boa Viagem. Boa Viagem e boa noite.
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