quarta-feira, 3 de março de 2010

Recife, 10 de Fevereiro.



Dia 23.
Hoje é um dia importante, o mais importante e solene da nossa estadia no Brasil. Hoje, apesar do grupo que já saiu para ir fazer novos e repetidos exercícios de homem ao mar em Porto de Galinhas, muito mais gente vai ficar de serviço a bordo. Ao almoço, o comandante e o imediato, aos quais se juntarão o embaixador de Portugal (que veio de Brasília) e o cônsul português na cidade, irão retribuir o acolhimento dado ao navio-escola nacional pelas autoridades locais. Prefeito, capitão do porto da cidade, provedor do Hospital Português, entre outros dignitários locais, estão quase a chegar. Quando o carro da prefeitura estaciona em frente à Sagres, saem do seu interior dois indivíduos, um de fato e gravata e outro de ténis e t-shirt e, por um breve momento, instala-se a dúvida: qual é o prefeito, qual é o seu segurança? Certo, não foi o segurança que veio de ténis. Os cozinheiros e restantes taifas passaram a manhã a preparar o almoço, que está a ser servido na camarinha, o que foi feito sem uma ponta de stress, com uma normalidade que me põe os nervos em franja. Ainda de manhã, houve uma operação de mergulho. Depois do seu habitual jogging matinal, que já chega aos 70 minutos de duração, um dos fuzileiros, equipado para o efeito, mergulhou junto à hélice. Foi verificar se os parafusos que fixam a hélice ao navio precisavam de massa de betão hidráulico.
- Só uma hélice bem fixa produz ao girar na água aquele efeito de cone que é fundamental para uma melhor hidrodinâmica – explica-me o imediato.
A seguir ao almoço, continua-se a preparação da recepção que terá lugar logo à noite. A primeira das recepções que faz da Sagres uma embaixada itinerante, e cujos convites partiram há dias para todas as representações diplomáticas, órgãos de comunicação social, destacados membros da comunidade de negócios, autoridades militares e civis e demais forças vivas da cidade, em nome do comandante e do embaixador. O tombadilho começa por ser baldeado para depois ser coberto com um toldo. Os amarelos são novamente areados e todos os cabos acertados. As balsas de salvamento são aproveitadas como suporte das mesas onde serão servidas as entradas. E imediatamente em frente à ponte, é montado um bar. Enquanto decorre toda a preparação da recepção, oito marinheiros, que foram destacados para o navio muito em cima da data da sua partida, vão ser vacinados contra a febre amarela e meningite no Hospital Português, através dos bons ofícios do seu provedor. E um pequeno grupo de oficiais sai do navio para uma tarde de compras no shopping. Havaianas de presente para a família, pilhas, protectores solares e outras compras de última hora para mais uma tirada. O Oliveira e o Gaspar vão comprar uma Nossa Senhora de Fátima para colocar junto à máquina da Sagres. E o Bruno aproveita para cortar o cabelo. Quando regressamos, ficamos a saber que houve um anormalmente elevado número de visitas ao navio, o que, por certo, se ficou a dever à reportagem sobre a Sagres que ontem passou na televisão local. 4253 em apenas quatro horas, não é um número elevado. É um número impossível. O counter, aventa-se, deve-se ter avariado. Trocava, de bom grado, a tarde que passei com a do cabo Eusébio. Diz-me que o que gosta é de sair daqui, escolher um boteco, sentar-se e conversar. Ou apenas ficar a ouvir. E foi o que hoje, finalmente, conseguiu fazer.
- Aprender alguma coisa com quem sabe mais do que eu ou que, pelo menos, sabe coisas que eu não sei, pá, isto é o que de melhor posso levar desta viagem – diz, encostando-se à balaustrada com uma sagres na mão. – Apanhámos um português, radicado no Brasil há anos, que é daquelas pessoas com conversa boa, ‘tás a ver? Com assunto, que por mais que fale, nós não-nos cansamos de o ouvir.
A Sagres está agora engalanada. Os marinheiros, de branco, são agora bar tenders, prontos para começar a receber os convidados. Uma recepção é isso mesmo, uma recepção. Uns quantos discursos, primeiro o comandante seguido do embaixador. Outras tantas conversas de circunstância. As bandejas com os aperitivos, as pessoas e as conversas circulam e procuram-se umas às outras.
- Está tudo bem, não está? – pergunta-me o cabo Alves buscando aprovação e com uma preocupação genuína na voz. - É que os olhos também comem – acrescenta.
Depois do brinde com Vinho do Porto, bandejas com pastéis de Belém feitos a bordo, começam a passear por entre nós. O Evandro tira um da primeira bandeja que passa e, mal o acaba, procura com o olhar outra bandeja. Segue-a e quando finalmente consegue tirar o segundo pastel, justifica-se com um ar de bom malandro.
- A este preço! – e ri-se.
No fim da noite, apesar do reduzido número de convidados presentes, fica uma certeza. A forma como sabemos receber pode encher-nos de orgulho.

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