Dia 24.
Parecem miúdos. Cansados, de calções e com as t-shirts sobre os ombros ou à volta do pescoço, regressam à Sagres em pequenos grupos, dois a dois, três a três, à conversa. Há um que traz uma bola debaixo do braço. Acabou o Sporting-Benfica, combinado ainda no mar. O clássico entre os rivais da Segunda Circular foi jogado no campo da capitania. Também no Recife, o primeiro milho foi dos pardais. Literalmente. E assim se passou uma manhã. À tarde, vou a Olinda na companhia do Bruno, do Eusébio e do Sousa Luís. Olinda é uma pequena e muito bonita cidade. Joaquim Cardoso, poeta e dramaturgo, que aqui teve a sua última residência, fixou-a assim: “Olinda / das perspectivas estranhas / dos imprevistos horizontes / das ladeiras / dos conventos e do mar / Olho as palmeiras do velho seminário / o horto dos jesuítas / E neste mar distante e verde, neste mar / numeroso e longo / ainda vejo as Caravelas”. Aqui, a visão sobrepõe-se a todos os outros sentidos. Ou, nas palavras do poeta pernambucano Carlos Pena Filho: “Olinda é só para os olhos / Não se apalpa, é só desejo / Ninguém diz: é lá que eu moro / Diz somente: é lá que eu vejo”. A sua beleza não ilude. É um conjunto arquitectónico único, envolto no verde da vegetação que cobre as encostas, debruçadas sobre um mar também verde e que está aos seus pés. Olinda ou Ó linda, como lhe chamou quem, pela primeira vez, viu aquele verde (da mesma forma que, numa versão popular, Queluz deve o nome a uns caçadores que, ao regressarem já de noite a Lisboa e avistando uma luz, perguntaram: “Que luz é aquela?” Que luz, Queluz.). A cidade, declarada Património da Humanidade pela Unesco em 1982, já está mascarada apesar de, oficialmente (?!?), o Carnaval só começar daqui por dois dias. E perde o receio do ridículo e da chacota, que no Carnaval caem exactamente em quem quer ou se deixa ficar sério. Por esta altura, tudo fica suspenso, as misérias, as dores e os problemas. A rotina dá lugar a um impulso, um transe, essa pulsão que empurra toda a gente, rua abaixo, rua acima, atrás do bloco carnavalesco do seu bairro, ao som do fevro. Basta ouvir, basta sentir o seu ritmo, deixá-lo entrar na cabeça para a esvaziar, permitir que tome conta dos sentidos, um a um, que contagie os membros dormentes do corpo até chegar ao pé. Aqui, dizem, é o Carnaval mais multicultural, mais democrático do mundo. Um Carnaval que não cabe nem se confina em sambódromos. Um Carnaval feito na rua, que é de toda a gente, que não é para ver, que é para pular e brincar. Até porque, como diz a canção do Chico Buarque, “não existe pecado do lado de baixo do Equador”. No fim da tarde, regressamos à Sagres e a um outro ritmo que também não pára, até porque a partida está prevista para amanhã de manhã. No navio, houve quem aproveitasse a tarde para falar para casa através do skipe, e juntaram-se novas caras à guarnição: marinheiros portugueses, que só agora puderam vir, cadetes brasileiros e o oficial por eles responsável, que vão fazer a próxima tirada. O camião cisterna com o combustível chegou, finalmente.
- É habitual só chegar em cima da partida. É truque. Pensam que ficamos tão à rasca que já não o podemos recusar mesmo que não seja de boa qualidade – diz o Oliveira e conclui – ‘Tão tão enganados!
Nessa noite, todos os oficiais menos o Oliveira, que está de serviço, vão jantar a uma esplanada em Boa Viagem. Será o meu último na sua companhia. Daqui por umas horas, o Comandante vai entrar em directo para uma rádio portuguesa.
- O que estamos a fazer aqui e à volta do mundo só existe se o dermos a conhecer a Lisboa – atira-nos o truísmo, não conseguindo esconder a vaidade que sente nos seus homens e na missão.
Vou passar a noite a um hotel na outra ponta da cidade, que o “doutor” partilha já o seu camarote com o oficial brasileiro. Um hotel de pilotos e hospedeiras. Pouso as malas e, acto reflexo, ligo a televisão. Clinton teve uma complicação cardíaca, Mandela celebrou o 20º aniversário da sua libertação e Arruda, governador do distrito federal, foi levado para uma delegacia. Eis os headlines da Nordeste, a cadeia da Globo para a região, e o princípio da bebedeira de informação que vou apanhar noite dentro. O mundo não parou nestas semanas que estivemos no mar. Continuou a rodar sobre si próprio, continua igual a si próprio. Apesar de o “Público” ter sido diariamente descarregado para o WISE, não o li uma única vez por opção, como aliás não toquei na meia dúzia de livros de que me muni para a viagem. Um retiro é um retiro é um retiro. Noite fora e à medida que o mundo me vai chegando pela televisão, procuro, ingenuamente, como se fosse possível, refazer-me de todas as emoções. Lembro-me do Oliveira a contar as manobras arriscadas - no limite - mas desenhadas na perfeição que a Sagres fez em Nova Iorque e pelas quais arrancou a maior saudação entre os mais consagrados navios da sua categoria.
- Os marinheiros estavam todos de branco alinhados nos braços dos mastros e ao apito – e grita como lá estivesse ainda - pipióiiii!, do mestre respondem com “vivo”, e não viva, pá, porque “vivo” é audível a uma distância maior. E acenam para terra.
Lembro-me o Castro e da sua canção preferida, Saudadito Marinero, que passa os dias a trautear. Vêm-me à cabeça os rostos do Rui Pedro, do Bruno, do Hugo, do Gaspar, do Leão, do Luís Lopes, dos Eusébios, do cabo e do tenente. Na vida, pouca coisa se compara a fazer camaradas, a fazer amigos.

Sigo com muito interesse a viagem da Sagres e o os teus jornais diarios, e como vivi muitos anos em Queluz fiquei agora a saber a origem do seu nome.Estou de acordo contigo quando dizes"na vida,pouca coisa se compara a fazer camaradas, a fazer amigos.
ResponderEliminarAnabela
Gosto muito deste blog, mas com muita pena minha não tem sido actualizado.
ResponderEliminarUm abraço e espero ter mais noticias da Sagres brevemente.