segunda-feira, 1 de março de 2010

Recife, 09 de Fevereiro.





Dia 22.
Calções de banho e bermudas. Camisas de alças e t-shirts. T-shirts da Gucci, de Fortaleza, de Porto Seguro e do Hard-Rock Café de uma qualquer outra cidade europeia, t-shirts da selecção ou simplesmente lisas. Apenas um ou dois ténis que pontuam no meio de imensos chinelos e havaianas de todas as cores e feitios. Outra farda, farda de praia, que despidas as outras, agora são eles mesmos. Sem disfarce. Metade da guarnição espera o mini-bus que a vai levar a Porto de Galinhas, enquanto a outra está ocupada com nova faina de material. Os oficiais irão lá ter a seguir ao almoço num carro alugado. Fomos pela marginal da Boa Viagem, marginal de Jabotão dos Guaranapes, até sermos forçados a perder o mar de vista. Uma hora e um quarto para perfazer os, praticamente, 70 e poucos quilómetros de um contínuo urbano. A Boa Viagem é, com a sua marginal de 7 km, a antítese dos bairros antigos que visitámos ontem. Não é mais do que um corredor, uma parede, um muro caótico de arranha-céus, cuja sombra, da parte da tarde, vai crescendo no mar. São de uma fealdade indizível – sobressai apenas um ou outro edifício elegante, jóias do modernismo - e acabam abruptamente três ruas atrás do mar, no preciso local onde começa uma favela a perder de vista. Se cada parte da cidade nos diz tudo sobre a sua época da sua construção, o parque automóvel é um retrato do presente. A abundância de VW pãos de forma e fuscas, a que nós chamamos carochas com ternura, com que nos cruzamos, atesta o mau do estado das estradas. Um zero quilómetros, um carro novo, é um convite ao assalto.
- Com o Lula e o seu programa fome zero a violência tem vindo a diminuir - todos dizem – para acrescentar de seguida – até aumentar outra vez.
A generalidade dos carros tem vidros ligeiramente fumados, por causa do sol, claro, mas também para fazer pensar aos bandidos na possibilidade de haver bandidos lá dentro. 70 km depois, o suficiente para ver muita pobreza e miséria, chegamos a Porto de Galinhas. 70 km depois, algumas lojas da cadeia “Achaqui” e muitos outdoors 8x3 que repetem a mesma mensagem: Obrigado Governador, obrigado Prefeito pelo novo e maravilhoso (sublinho, maravilhoso) hospital. Desconfiamos que os cartazes não terão sido pagos pelos cidadãos agradecidos e maravilhados. Porto de Galinhas, eleita a melhor praia do país pelo enésimo ano consecutivo, é uma desilusão mas só para quem sabe como não são as praias mais conhecidas do Brasil. Faz lembrar Búzios, faz temer por Tancoso junto a Arraial da Ajuda, na Baía, paraísos virgens que não aguentam a praga do turismo de massas. Com a maré-cheia, não vemos os recifes e as lagoas, não vemos Porto de Galinhas dos postais. Sobra uma frente corrida de cadeiras de plástico, que só a temperatura da água faz esquecer. À excepção de biquínis, pode-se comprar quase tudo. Óculos de sol e queijo frito, cangas e água de coco, toalhas de praia e ostras, protectores solares e maçarocas de milho. Saímos cedo da praia. O sol põe-se ao contrário, fazendo-nos sombra. De regresso à Sagres, ficamos a saber que o primeiro dia de vistas não foi famoso. Apenas 48 visitantes. À noite, novo rodízio. O Pinto Ferreira e o Eusébio, inamovíveis na sua dieta, decidem fazê-la apenas a bordo. O Rui Pedro, ocupado com a osmose e alguns outros com os seus afazeres, ainda não conseguiram descer à cidade.

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