Dia 21.
Quando acordamos, já o sol vai alto. Não porque tenhamos acordado tarde, mas porque aqui amanhece e anoitece cedo para se evitar mais horas de calor. Em terra, há rotinas novas. Não há alvorada e às 8h00 da manhã, em vez da formatura, há o içar da bandeira, que só será arriada ao pôr-do-sol. Acaba a tirania do quarto e assim o oficial de quarto (e respectiva guarnição) passa a oficial de dia. A entrada ou saída dos oficiais da Sagres tem um breve cerimonial. Quem está de serviço à prancha bate a continência - e apresenta armas - que os oficiais devolvem, perfilados se estiverem em grupo, já a bordo, à entrada ou em terra, à saída, e que não os dispensa de, a meio da prancha, baixarem a cabeça na direcção da bandeira nacional, à ré. O comandante e o imediato têm, para além de tudo isto, direito a apito, mais longo para o primeiro. E, claro, com novas rotinas vêm novas praxes. Quem, por esquecimento, passar a prancha a fumar ou comer, já sabe. O comandante e o imediato saíram. Apito longo, apito curto. Foram apresentar cumprimentos às autoridades. Almoçaram na Capitania a convite do comandante militar do Nordeste e do capitão do porto da cidade. A manhã foi aproveitada para continuar a resolver os problemas surgidos no decurso da travessia do Atlântico. Desde ontem que se anda a tratar da osmose, que aqui é reversa e não inversa, se fazem contactos com o fornecedor dos radares, e que a equipa do costado está em acção. Empoleirados em escadas de cabos, que fazem o papel de andaime, vários marinheiros começam por retirar as várias e sobrepostas camadas de tinta para chegar à ferrugem, escondida em vários pontos do casco do navio, trabalho que só pode ser feito nos portos. O Pinto Ferreira negoceia o preço dos mini-bus que irão levar metade da guarnição amanhã e a outra metade depois de amanhã, ao sítio que ninguém quer perder, Porto de Galinhas. Quem não está de serviço e uma vez que complete o seu trabalho, aproveita para pôr os seus assuntos pessoais em ordem. O Bruno, sentado na secretária do camarote, descarrega um artigo do New England Journal of Medicine sobre cardiologia, a especialidade de que é interno. À tarde, o comandante, o imediato e eu saímos para nos perdermos no bairro que, não por acaso, tem o mesmo nome da cidade, o Bairro do Recife, e no Bairro de Santo António, contíguo ao primeiro. O primeiro é o bairro mais antigo do Recife e os dois bairros juntos constituem a parte antiga da quinta cidade brasileira. O Recife desenvolveu-se de nordeste –por causa de uma outra cidade, Olinda, património natural e cultural da humanidade, e decisiva na formação da jovem nação – para sudeste, sempre de frente para o Atlântico. É uma cidade de água. É formada por ilhas e seus diques, cortada por rios e seus canais, unida por pontes e banhada por um mar, que com a protecção dos recifes, chega tranquilo. A Veneza brasileira, como os Pernambucanos, fiéis à sua capital e sem medo do exagero, dizem ser. A água, único ponto de toque com a cidade dos Doges ou com Amesterdão, sempre foi decisiva na prosperidade da que em tempos idos foi a maior metrópole de toda a América Latina. Vamos passar a tarde a deambular pelo Bairro do Recife, um mercado a céu aberto que se estende através das pontes Maurício de Nassau e 12 de Setembro até Santo António. Na arquitectura revemos Portugal - os bairros estão polvilhados de igrejas portuguesas - mas as corres garridas que pintam os edifícios dão razão a Agostinho da Silva quando dizia que um brasileiro é um português à solta. Há no ar uma profusão de cheiros temperados pela humidade, de cores fortes e pregões gritados às portas das lojas que se diluem à passagem da multidão e dos vendedores ambulantes que, puxando os seus carros repletos de mercadorias, nos oferecem de tudo um pouco. Vendem-se objectos impossíveis, de encontrar e de descrever. Em frente a uma chapelaria, recusamos o caju de um vendedor e aceitamos a fruta-pinha de outro, fruta que, como o nome indica, por fora parece uma pinha e tem, no interior, gomos muito saborosos. No país dos shoppings e dos mega-shoppings – o Recife é servido por cinco – o comércio tradicional tem uma vitalidade incrível. A noite cai cedo, apanha-nos a beber cerveja num tasco de rua, e com ela vêm as luzes dos candeeiros públicos, das lojas, dos reclames, das decorações do Carnaval que se montam por todo lado e dos faróis de um tráfego, que é agora mais intenso. Encontramo-nos na Sagres com os restantes oficiais e com o Evandro, oficial de ligação da Marinha Brasileira, e jantamos juntos em Olinda. A noite vai acabar tarde e em grande na outra ponta da cidade do Recife, em Boa Viagem. Boa Viagem e boa noite.

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