sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

24 de Janeiro de 2010.



27º 55’.2N 016º 21.6W, dia 06, 23h45.

Alvorada surda. O convés está deserto. Um navio fantasma. Também aqui a bordo da Sagres é Domingo, lembram-me mais tarde. O Oliveira vai perguntando a todos, em momentos diferentes, se já fomos à missa. Passa a manhã nisto. Almoçamos com a televisão ligada. Houve mais uma criança salva dos destroços, no Haiti. Fala-se de religião. Conta-se a história de um oficial mais antigo, evangélico, que tinha por hábito num outro navio passar uma gravação da missa da sua igreja quando estava de quarto à ponte. Rimos com vontade. No passado havia um capelão nas viagens da Sagres. Discute-se a homossexualidade nas Forças Armadas e, em especial, na Marinha. Fala-se abertamente e sem preconceitos. Referem-se experiências de outras Marinhas, e em particular, a dos Estados Unidos. Sinal dos tempos. A Marinha não pode ser uma ilha e vai reflectindo a sociedade, ainda que com algum atraso. Apesar do convívio descontraído às refeições, só muito raramente se conversa para o lado. Quando se fala, olha-se para a mesa. Quase não se repara, mas faz diferença – os mais novos praticamente só falam quando lhes é feita alguma pergunta. Afirmativo. À tarde, Faina Geral de Mastros. É a primeira do engenheiro Gaspar, enquanto oficial de quarto. O sol brilha nos seus óculos. Abre um sorriso. Vai olhando para cima, para os mastros. Os outros oficiais estão imediatamente atrás dele. Começa por bracear o grande e o traquete, isto é, mudar a direcção das vergas (ou braços) dos mastros grande e do que está à proa. Dirá mais tarde que a sua voz fica estranha no altifalante que encostava à boca para dar as ordens, que as suas pernas iam ganhando firmeza à medida que as velas iam sendo içadas, uma a uma, à força de braços. Até à hora do jantar, cruzamo-nos com dois veleiros de médio porte e um cargueiro. Este último, ao longe, lembra um castelo com a ponte levantada. Já na câmara dos oficiais, a flâmula azul é regada a champanhe pela primeira vez. Triangular, relativamente pequena e muito comprida, esta bandeira azul será içada amanhã na adriça de sinais da mezena, a bombordo. Recompensa o oficial que fez a barca percorrer mais milhas à vela durante um quarto de serviço na ponte, no caso o Sousa Luís. Coisas que, vou-me apercebendo, passam completamente ao lado da guarnição. Começamos a jantar e vamos vendo a bola na televisão, aos bochechos. Quando adornamos, a imagem pára no ecrã. Toda a gente fica contente. A custo, Sporting e Benfica ganham. Nos sofás, prolonga-se a discussão que começou à mesa, já sob a forma de aposta. Diz-se “trasfega” ou “transfega”? Apesar de dois dicionários de língua portuguesa e de três dicionários de termos náuticos que o Oliveira vai buscar em seu socorro, parece já claro que deve uma garrafa de aguardente “Chancela” ao Dias Pinheiro. Findo o jantar, joga-se wii. Primeiro bowling e depois golfe, que seduz o imediato Fonte Domingues a jogar pela primeira vez. Reforço, a última refeição do dia. Como sozinho. O almoço e jantar são de presença obrigatória, a não ser que se esteja de quarto, e há alguma cerimónia. Comandante ao centro da mesa, o convidado à sua direita e o imediato à sua frente.
- Senhor Comandante, estamos todos (servidos) – diz baixinho o imediato.
- Bom apetite – responde o comandante.
O pequeno-almoço, lanche e reforço são mais informais. Penso que, entre os oficiais, sou o único que faz as cinco refeições por dia. Vou ganhar uns quilos.

23 de Janeiro de 2010.



31º 08’.1N 016º 39.7W, dia 05, 23h55.

A Madeira ficou para trás, já não há regresso. As grandes tiradas, como esta que agora começa, “é que é o pior”. Se contada a partir de Lisboa, vai ser , uma das maiores da viagem em milhas percorridas. Acordamos a cem milhas das Canárias, sem vento. A máquina está a funcionar há já algumas horas.
- O vento foi-se embora sem pedir autorização ao imediato, foi vento de pouca dura – não resiste o Oliveira. A alvorada ainda não foi dada e já os fuzileiros treinam no convés. As Selvagens estão onde nasce o sol. Um farol, uma casa onde vivem dois vigilantes da reserva natural. E um marco de correio. A isto se resume a presença portuguesa no rochedo. É o suficiente para aumentar consideravelmente o mar português, de onde só agora começamos a sair. Toda a guarnição está no convés, à excepção dos TFD, os taifas despenseiros, o Carvalhosa, despenseiro do comandante, o Belo, responsável pela câmara dos oficiais, o Duarte e o Mendes, que se ocupam da copa de apoio à câmara. Lá fora, o silêncio, é a hora da formatura. Cá dentro, hard-rock que vem da copa. Subo à ponte. O guarda-marinha Dias Pinheiro é o oficial de quarto. Fumo um cigarro na sua companhia. Fico a saber que o seu pai foi comandante da “barca”, como ele faz questão de dizer, ao mesmo tempo que um tio foi comandante do Creoula. Tem ainda um irmão na Marinha.
- A minha irmã também teve ideia de vir para a Marinha, mas na altura as mulheres não embarcavam, desistiu.
O gosto pelo mar passou de geração, mas não é por isso que o apelido “Dias Pinheiro” não me é estranho. Pergunto-lhe se não tem um tio que trabalha em publicidade.
- Afirmativo - Há vários dias na sua companhia e ainda não lhe ouvi um sim ou um não. Afirmativo, negativo. O guarda-marinha tem apenas 23 anos.
À tarde, foi dado o aliviar do uniforme. Aparecem os primeiros calções azuis da farda no convés e é distribuído a cada membro da guarnição um par de sapatos de vela azuis. Às 16h00 começa o primeiro jogo de futeconvés. Oficiais contra a equipa vencedora do último torneio. Uma bola de meias – várias, na verdade, porque muitas saem borda fora. “A equipa que for responsável pela queda da bola de jogo ao mar será punida com um livre no local mais perto onde se desenrolou a acção que provocou a perda de bola”, pode-se ler nas regras distribuídas por todos em papel. E entra outra em campo. A bola não é muito maior do que uma de ténis e não pode ser levantada acima do joelho, como no futebol de salão. As áreas das balizas são marcadas a giz no tabuado. Os jogadores de campo não se podem agarrar a nada. Hilariante. Quarenta minutos e algumas nódoas negras depois, o jogo acaba empatado a um golo. Na segunda parte, faço o gosto ao pé. Antes do jantar, e enquanto os fuzileiros treinam boxe, o Dias Pinheiro faz a sua primeira corrida no convés à volta do mastro grande. Às 20h00 avistamos Tenerife a estibordo e a Gran Canária a bombordo. Passamos entre as duas depois de se ter pedido autorização à entrada das lanes, as estradas do mar, tecnicamente designadas como EST- Esquemas de Separação de Tráfego. O Bruno mostra-me o seu pedido de autorização de mudança de talhe – para deixar crescer barba e bigode – assinado pelo imediato Fontes Domingues. Durante o jantar, o sargento Alves dos Fuzileiros, baptizado a bordo como “Termonuclear” por querer resolver à bomba os problemas do mundo, manda entregar na câmara dos oficiais uma garrafa de Jameson 12 anos. Faz anos e cumpre uma tradição. Antes de se deitar, o comandante vai à ponte escrever as suas orientações para a navegação da noite.

22 de Janeiro de 2010.



35º 019’.4N 013º 04’.5W, dia 04, 23h57.

Às 11h00 de dia 21, avistamos Porto Santo (será que já caiaram os muros à volta das casas?) E hora e meia depois, a Ilha da Madeira. A sete milhas de distância, as luzes do Funchal são rios de lava que descem para o mar. Já temos rede. Por todo o convés vemos as pequenas luzes dos telemóveis. Ligo novamente para casa. Passo a noite acordado na ponte. O vento que corre já não é frio. Faço companhia ao Eusébio que está de quarto. Gostava de abrir uma livraria em Sintra. Cigarros. A cidade acorda com uma humidade que lhe tira a cor. Vou dormir. A Sagres vai ficar a pairar ao largo por umas horas. Quando acordo, às 11h30, já os jornalistas e o Comando de Zona Marítima, que vieram a bordo, tinham partido. A reparação do olhal ficou completa, o que enche a guarnição de orgulho, porque a parte mais difícil do trabalho foi feita a bordo. E o Vinho da Madeira já foi embarcado. Está na proa e vai acompanhar o Moscatel nesta viagem a caminho de se tornarem Vinho da Roda, o primeiro, e torna-viagem, o segundo, ganhando ambos propriedades únicas que resultam deste invulgar amadurecimento a bordo, para só então serem comercializados. Almoço. Falamos sobre o H1N1, sobre o que foi feito para prevenir a guarnição e sobre o número residual de marinheiros a bordo que se recusou a tomar a vacina.
- Guarnição, está previsto apitar a faina geral de mastros às 14h50, repito…
A voz do oficial de quarto ecoa nos altifalantes. O seu som metálico não disfarça a felicidade que o engenheiro Oliveira sente. Ao quarto dia de mar, o Sagres vai finalmente levantar pano. A Madeira ficou para trás. A bombordo, as Desertas. Parecem ter sido desenhadas com uma mão trémula sobre o fio do horizonte e vão presenciar toda a manobra. Começam os apitos, que só vão parar uma hora e dez minutos mais tarde.
- O meu recorde é de exactamente 22 minutos – diz o comandante.
Sobe-se pela escada de rede, a enxárcia. Em baixo, puxam-se os cabos.
- Ai vai um! Ai vai um! Ai vai um! Larga, larga!
O navio começa a adornar para bombordo, fazendo uma vénia às Desertas. No convés, os cabos serpenteiam o tabuado, um labirinto que rapidamente é desfeito e arrumado.
- Já estamos a andar mais rápido do que com a máquina – solta o Oliveira para o comandante. As velas enfunam ao vento. É o seu presente de anos. Jantar de aniversário. Uniforme nº 3, aliviado, isto é, sem casaco. Camisas brancas, gravata preta com o respectivo alfinete. O engenheiro Oliveira está visivelmente contente. Brinca com quase tudo, menos com o orgulho que sente em ser oficial da Marinha, comemorar o aniversário entre camaradas e, muito importante, a bordo do Sagres. É-lhe oferecido um livro da Sagres, que todos assinam, e aberta uma Royal Salut. São feitos tantos brindes quanto o número de presentes, do mais novo ao mais “antigo”. Invariavelmente, todos terminam com um:
- Ao Tenente Oliveira, à Barca e a Portugal.

21 de Janeiro de 2010.



33º 01’.4N 016º 09’.3W, dia 03, 23h50.

A última coisa que fiz na véspera foi marcar o despertador do telemóvel para as 6h50. Estou no beliche de cima, dormi com o telemóvel ao lado. Acordo dez minutos antes da alvorada, desafinada. As casas de banho ficam literalmente a dois passos do camarote que partilho com o Bruno, o doutor. Há duas, uma está livre e a outra está ainda cheia de material que é preciso arrumar. Quando saio do duche, cruzo-me com o tenente Sousa Luís. Mesmo a esta hora, todo ele é aprumo. Costas direitas, barba aparada, risco ao lado, subido. Três vezes distinguido com a Cruz Naval. Segue-se o pequeno-almoço, que é servido às 7h30. Ao contrário do almoço e do jantar, é uma refeição informal. Quem está, está. Há um novo toque de clarim, mais curto. São 8h30, hora da formatura. Todos saem para o convés. Alinham-se a bombordo, sotavento, os homens nos seus macacões azuis, todos de cabeça coberta. O cabo de quarto avisa o sargento de quarto de que a formatura está pronta. É mandado o firme sentido com a autorização do oficial subalterno mais antigo, que é, por inerência, o comandante de companhia, o Sousa Luís. Todos em sentido aguardam a chegada do imediato. Alguns homens olham o chão. Os oficiais saúdam o imediato. Este dá as ordens para o dia: coser pano, acertar cabos, pinturas várias e “amarelos”, o puxar o lustro aos instrumentos na ponte. Quando acaba, troca novo cumprimento com os oficiais, enquanto cada chefe de serviço distribui as ordens pelos seus homens. Tão rapidamente como se formou, a nuvem azul dispersa-se no convés. A Sagres é uma pequena cidade de província. Os oficiais fazem o papel do padre, do juiz e do médico. A guarnição faz pela vida. É um navio de primeiro escalão, o que significa que a quase totalidade dos trabalhos de manutenção é feita pela guarnição, tanto em terra como no mar. Há aqui tarefas que não se fazem em mais nenhum dos navios da Marinha de Guerra Portuguesa. Não é um navio cinzento, é um navio-escola.
- Há aqui gente para fazer de tudo um pouco - diz-me o Sargento Pedro. Pedro é apelido. Vem-me à cabeça um anúncio antigo, que me lembro de ver em miúdo. Aquele em que, numa cidade de brincar, tudo era feito com as páginas das Páginas Amarelas. A manhã é assim ocupada a fazer pequenos trabalhos de reparação. Depois, e como todos os dias, faz-se a baldeação. O amarelo dos baldes pontua o azul monótono dos fardamentos de serviço. O tabuado do convés fica mais escuro. Às 11h30, ouvimos no altifalante que vai haver um exercício de tiro dos fuzileiros. Há uma pequena guarnição de fuzileiros a bordo, dois dos quais da DAE, das forças especiais, que suscitam a curiosidade da guarnição e um ou outro comentário velado entre oficiais. É proibido o acesso à ré. Os alvos, balões coloridos, são lançados ao mar. Ouvem-se os disparos. Almoço. Refere-se o exercício de tiro, já sem ironia. Discute-se a capacidade de atracção da Marinha vs Força Aérea. À mesa, o engenheiro Oliveira brinca à esquerda e à direita. Sabe fazê-lo, ganhou o seu espaço. Volta a falar no futeconvés. O jantar repete o almoço nos temas e no protagonista. A rotina está a chegar. No fim do jantar, ligo para casa pelo Iridium. À meia-noite é servido champanhe na câmara dos oficiais. O Oliveira faz 31 anos.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Margem interior, um.

Hoje, tive uma recaída. Reincidi no seu uso. Fui dos últimos a abandoná-los, tenho disso perfeita consciência, até porque alguns amigos faziam questão em mo lembrar recorrentemente: “que era uma coisa de betos”, “que era uma coisa anacrónica”. Dizia-lhes que sim, várias vezes por dia, indiferente. Houve um primeiro afastamento quando comecei a trabalhar, mas sempre que podia, ao fim do dia ou de semana, regressava a eles. Quanto mais usados, melhor. Até que, um dia, acabaram por sair da minha vida. Não foi fácil, nada fácil. Davam com tudo, davam para tudo. Às tantas, já nem se pensa. Usa-se e ponto. Era uma coisa mecânica, o que dá um enorme conforto. A verdade é que não precisei de comprá-los para os trazer comigo nesta viagem, ainda tinha uns escondidos lá em casa. Colaram-se aos pés da minha geração. Viam-se muitos na Nauticampo, a Nauticampo da corrida desenfreada pelos autocolantes, de stand em stand. E daqueles chapéus de papel com pala, que eram oferecidos em plano, com estrias na nuca e que uma vez postos deixavam passar o cabelo. Estávamos em meados dos anos 80, antes do Cavaquismo e das Cetelemes. Podias não comprar a tenda, a mochila ou a prancha e muito menos o barco. Mas tinhas uns. E os autocolantes. Houve uma altura em que toda a gente os tinha. Era um tempo em que tudo era mais simples: éramos todos da mesma tribo e o bullying era apenas porrada que o “canina” dava no gordo. Desconfio que a maior parte nunca pisou o convés de um barco. Saíam da antiga FIL directamente para a calçada. Era um tempo em que os betos de Lisboa imitavam, com uns anos de atraso, a elite da costa este dos Estados Unidos, em que parecia que a Católica se tinha juntado à Ivy League, em que a “Linha” era um sucedâneo de Cape Cod. Era um tempo em que, política e socialmente, estávamos a sair do armário, pela segunda vez em poucos anos, e metade do país chorava ainda Sá Carneiro, como a América inteira tinha chorado Kennedy. Os meus são – sempre foram – de cabedal castanho, com pesponto em linha castanha e sola rasa castanha. E claro, com os atacadores a darem a volta ao calcanhar e a trespassarem ilhoses de latão. Era o tempo dos sapatos de vela.

20 de Janeiro de 2010.



35º 20’.1N 013º 03’.3W, dia 02, 23h50.

Acordo cedo. Banho quente. Pão quente feito a bordo e café, no pequeno-almoço que é servido na câmara dos oficiais. Hoje é o primeiro dia da viagem. Sente-se que as cabeças ainda estão em terra. Só há uma forma de reduzir viagens longas como esta. Ao número total de dias que vão estar fora, os marinheiros começam por retirar o dia da partida, depois o da chegada e, por fim, os que são passados em terra. E o dia em que estamos também não conta. Dizem-me que os dias mais duros são os da partida e da chegada. Quanto ao primeiro, todos percebemos.
- Duro, duro, é chegar depois de estar muito tempo fora, saber que a família está ali e ter de continuar a trabalhar – explica o tenente Eusébio.
- As pessoas pensam que é chegar e sair, mas não é.
Depois sorri e afasta-se. Hoje houve uma alvorada surda, uma contradição nos termos, e não houve formatura. Foram dias pesados os que antecederam a partida. Executam-se pequenas tarefas. A enorme bandeira de Portugal é arriada e substituída por outra mais pequena. Quando é estendida para ser dobrada, ocupa metade do poço. Retiram-se as balizas de futeconvés para serem pintadas amanhã. E para lembrar a quem de direito que, quanto mais cedo se começar a jogar, melhor. A Sagres é especial. Por um lado, há mais trabalho, é preciso mais músculo, tudo é feito à mão. Mas há sempre mais um pronto para ajudar, pronto para repartir a força ao puxar um cabo.
- Um é força inteira, dois é meia força a cada um – diz-me um cabo simpático cujo nome ainda não consegui apanhar.
Por outro lado, este é um navio aberto, onde se vive e convive mais no exterior, o que faz toda a diferença, diz quem sabe. Ao almoço, estuda-se qual a melhor solução para reparar o olhal. A televisão está sintonizada na Fashion TV. À mesa, o tenente Oliveira, engenheiro, leva a conversa para o futeconvés, a ver o que dá. A seguir ao almoço há um torneio de ténis de mesa na wii, ainda na câmara dos oficiais. O mar tem vindo a crescer. As ondas são agora de três metros e meio e apanham a Sagres de través. Não há vento e a temperatura está amena. Até agora, não enjoei, apesar de não ser fácil estar muito tempo com os olhos fixos no monitor do computador. E curei a constipação que trazia de Lisboa. O Bruno, o doutor, diz-me que não há nada de especial a assinalar em termos de enfermaria. Uma ou outra distensão em quem anda a puxar cabos, mas não convém começar a prescrever anti-inflamatórios ao segundo dia de viagem. Um ou outro enjoo, um deles de alguém que tentou trocar à última hora, por não lhe ser conveniente vir, mas que não conseguiu e está aqui claramente contrariado. À noite, abro um pacote que a minha irmã me deu na véspera da partida, pedindo-me para só o abrir em alto-mar. Duas palavras simpáticas e duas embalagens de Droste. Decido comer dois por dia. E penso que seria simpático amanhã pedir na copa para servirem um dos pacotes com o café do almoço.

19 de Janeiro de 2010.



37º 42’.5N 010º 06’W, dia 01, 23h30.

Cheguei cedo à Sagres. Deixo os sacos no camarote que vou partilhar com o médico, sujeito novo e reservado a quem, vou perceber mais tarde, toda tripulação, incluindo os oficiais, trata por “doutor”. Regresso de imediato ao cais para as despedidas. À nossa volta, há algumas lágrimas. Um choro mudo, quieto. Vão ser onze meses e meio. A maior parte destes homens (só há homens a bordo) vai comemorar o seu aniversário embarcado e não poderá fazer mais do que ligar para terra nos dias de anos das mulheres, filhos e família depois de terem comprado uns minutos de comunicações de telefone satélite. Uns poucos, sem contar com os oficiais, encontrar-se-ão com as mulheres em algum porto. Chega o comandante. Entra a bordo com pompa. Sigo a minha família com o olhar à medida que se afasta em direcção ao carro que a levará a um dia igual aos outros, sempre a dizer adeus. Os jornalistas começam a chegar. No breve briefing que se faz na câmara dos oficiais, o PR da Marinha refere a importância da campanha de publicidade “A sorte protege os audazes” da Santa Casa, por ter despertado o interesse do grande público na viagem. Por sua vez, o Comandante da Sagres explica sumariamente a missão: formar cadetes e levar mais longe a imagem de Portugal. São dois homens habituados a lidar com a comunicação social. Não há perguntas. A maré está baixa. O Sagres está prestes a partir. A pequena multidão no cais de Alcântara agita-se. A bordo, as calças da farda são batidas pelo vento. Ao despedirem-se dos seus, toda a gente acena a toda a gente. Na manobra de saída, feita com a ajuda de dois rebocadores, o olhal da verga sécia de estibordo da ré da Sagres prende na defesa do cais e parte. “Faz parte, é para isso que cá estamos”, dirá o comandante mais tarde. Primeiro contratempo. O Sagres desce de Alcântara a Belém, onde os jornalistas saem nas lanchas da Marinha em direcção a terra. Começa a viagem. Ao passar pela Marina de Oeiras, o navio apita. Foi a forma que o comandante encontrou para se despedir da mulher que aí almoça e a quem acena com o seu boné branco, num gesto largo a desenhar meia circunferência no ar – depois de lhe ter falado por telemóvel para se assegurar que se viam. As fardas nº 3b vão sendo progressivamente substituídas pelos fatos de embarque, uns macacões azul-escuros. Almoço. Apesar do tratamento respeitoso que o posto ou função requer, a conversa flui descontraída. As mulheres dos militares são iguais às dos civis. Nas suas características e, subentende-se, nas qualidades também. Ainda assim, não consigo de deixar de pensar como eles se comportariam se não estivessem a representar o papel que a hierarquia lhes atribui. Referem-se os putos novos, os que têm mais piada, os mais safos. Recolho ao camarote para uma sesta higiénica, finda a qual volto ao tombadilho. A máquina, o motor, está no máximo. Nove nós. Aproximadamente 15 km/hora, apesar de um segundo contratempo entretanto resolvido: depois de alguns dias de rio, a máquina deixou entrar mexilhões na refrigeração. Às seis da tarde (volto, depois de bastantes anos, a colocar um relógio no pulso) ainda vemos terra. Dois montículos no fio do horizonte: os cabos da Roca e Espichel, respectivamente a bombordo e a estibordo. Jantamos frango com esparguete e, mais tarde, não resisto a deitar canela sobre a pêra. Tentamos ver nos telejornais notícias sobre a nossa partida, sem sorte. Saio para o poço para fumar um cigarro. Quando levanto os olhos para o céu estrelado é o céu que balança e não o barco. Fumo outro cigarro, agora com o Almeida e o Faustino. Só passados uns minutos de conversa é que nos apresentamos e apertamos as mãos. Bebo um café oferecido pelo Almeida na messe de praças. Volto ao tombadilho. Mais dois cigarros. O céu vai ficar a baloiçar. Recolho ao camarote.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Lisboa, 18 de Janeiro de 2010.

Campo de Ourique, 00h10. Algumas linhas sobre a viagem antes da viagem. Nunca antes tinha estado a bordo da Sagres. A Sagres era o navio cujas visitas ao público antes das viagens davam reportagens de alguns minutos nos telejornais. E que, de vez em quando, recebia governantes, presidentes, primeiros-ministros e ministros com a pasta da Defesa, que também apareciam na televisão, um ou outro pecando talvez por excesso na indumentária náutica utilizada. Lembro-me de Mário Soares e do seu à-vontade natural, aquele tu-cá-tu-lá desconcertante. De Guterres a (não desistir de) baixar a melena levantada pelo vento. De Jorge Sampaio e do seu olhar atento e melancólico, seguindo as explicações do comandante. E de Paulo Portas com um blusão uns números acima. Quando na sexta-feira passada subi pela primeira vez a bordo, nunca antes tinha pensado o que é estar longe de casa, meses sem ver a família e os amigos. E também nunca tinha pensado antes, em qualquer coisa que, por duas vezes, me disseram nestas duas semanas que antecederam a partida: “Um mês? Já vais fazer amigos”. O resto foram conversas de circunstância. “Até à Madeira vais apanhar cacetada”, os que percebem alguma coisa disto. “Quanto tempo é que a Marta (a minha mulher) demorou a dizer-te que sim, que se organizava com as miúdas, sem ti, um mês?”, os mais íntimos. “Tu enjoas?”, todos. Parto com todas as expectativas e com duas únicas preocupações. Primeira, não ser “um corpo (muito) estranho” Um civil entre militares, um estorvo entre marinheiros. Como me disse o Contra-Almirante Tavares Almeida: “Você tem que aprender depressa, integrar-se, até porque será sempre a pessoa que terá um pé no convés e outro em Lisboa, para onde vai enviando informação”. Segunda, encontrar uma voz para a informação que vou enviando, e que esta corresponda à generosidade dos Jogos Santa Casa, à abertura da Marinha e ao interesse de quem me vá seguindo. Nestas últimas horas antes da partida, faltou tempo mas sobrou carinho. Pela roupa quente e entusiasmo, obrigado Sofia. Pelo equipamento e pela paciência, obrigado Lourenço. Pelo layout e revisão, obrigado João e Maria João. Por desde a primeira hora ter acreditado, obrigado, Susana. Pelos livros e pelo “sim”, obrigado Marta. Por tudo, obrigado a todos. O mérito é todo vosso, os erros apenas meus.

Haiti. Deixo imediatamente em baixo a lista e os respectivos contactos de algumas das organizações que já estão no terreno – e da nossa AMI -, para as quais pode chegar fazer o seu donativo.

AMI
NIB: 0007 001 500 400 000 00672
Multibanco: Entidade 20909 Referência 909 909 909 em Pagamento de Serviços

YELE HAITI EARTHQUAKE FUND

DOCTORS WITHOUT BORDERS

UNICEF

GOOGLE CRISIS RESPONSE for donations to UNICEF & CARE programs

BILL CLINTON FOUNDATION

STILLER STRONGER