31º 08’.1N 016º 39.7W, dia 05, 23h55.
A Madeira ficou para trás, já não há regresso. As grandes tiradas, como esta que agora começa, “é que é o pior”. Se contada a partir de Lisboa, vai ser , uma das maiores da viagem em milhas percorridas. Acordamos a cem milhas das Canárias, sem vento. A máquina está a funcionar há já algumas horas.
- O vento foi-se embora sem pedir autorização ao imediato, foi vento de pouca dura – não resiste o Oliveira. A alvorada ainda não foi dada e já os fuzileiros treinam no convés. As Selvagens estão onde nasce o sol. Um farol, uma casa onde vivem dois vigilantes da reserva natural. E um marco de correio. A isto se resume a presença portuguesa no rochedo. É o suficiente para aumentar consideravelmente o mar português, de onde só agora começamos a sair. Toda a guarnição está no convés, à excepção dos TFD, os taifas despenseiros, o Carvalhosa, despenseiro do comandante, o Belo, responsável pela câmara dos oficiais, o Duarte e o Mendes, que se ocupam da copa de apoio à câmara. Lá fora, o silêncio, é a hora da formatura. Cá dentro, hard-rock que vem da copa. Subo à ponte. O guarda-marinha Dias Pinheiro é o oficial de quarto. Fumo um cigarro na sua companhia. Fico a saber que o seu pai foi comandante da “barca”, como ele faz questão de dizer, ao mesmo tempo que um tio foi comandante do Creoula. Tem ainda um irmão na Marinha.
- A minha irmã também teve ideia de vir para a Marinha, mas na altura as mulheres não embarcavam, desistiu.
O gosto pelo mar passou de geração, mas não é por isso que o apelido “Dias Pinheiro” não me é estranho. Pergunto-lhe se não tem um tio que trabalha em publicidade.
- Afirmativo - Há vários dias na sua companhia e ainda não lhe ouvi um sim ou um não. Afirmativo, negativo. O guarda-marinha tem apenas 23 anos.
À tarde, foi dado o aliviar do uniforme. Aparecem os primeiros calções azuis da farda no convés e é distribuído a cada membro da guarnição um par de sapatos de vela azuis. Às 16h00 começa o primeiro jogo de futeconvés. Oficiais contra a equipa vencedora do último torneio. Uma bola de meias – várias, na verdade, porque muitas saem borda fora. “A equipa que for responsável pela queda da bola de jogo ao mar será punida com um livre no local mais perto onde se desenrolou a acção que provocou a perda de bola”, pode-se ler nas regras distribuídas por todos em papel. E entra outra em campo. A bola não é muito maior do que uma de ténis e não pode ser levantada acima do joelho, como no futebol de salão. As áreas das balizas são marcadas a giz no tabuado. Os jogadores de campo não se podem agarrar a nada. Hilariante. Quarenta minutos e algumas nódoas negras depois, o jogo acaba empatado a um golo. Na segunda parte, faço o gosto ao pé. Antes do jantar, e enquanto os fuzileiros treinam boxe, o Dias Pinheiro faz a sua primeira corrida no convés à volta do mastro grande. Às 20h00 avistamos Tenerife a estibordo e a Gran Canária a bombordo. Passamos entre as duas depois de se ter pedido autorização à entrada das lanes, as estradas do mar, tecnicamente designadas como EST- Esquemas de Separação de Tráfego. O Bruno mostra-me o seu pedido de autorização de mudança de talhe – para deixar crescer barba e bigode – assinado pelo imediato Fontes Domingues. Durante o jantar, o sargento Alves dos Fuzileiros, baptizado a bordo como “Termonuclear” por querer resolver à bomba os problemas do mundo, manda entregar na câmara dos oficiais uma garrafa de Jameson 12 anos. Faz anos e cumpre uma tradição. Antes de se deitar, o comandante vai à ponte escrever as suas orientações para a navegação da noite.

Nous suivons avec beaucoup d'interet ton journal de bord.
ResponderEliminarLa mer sourit aux audacieux et forge une experience inoubliable.
Beautiful foto de V.Dantas! :)
ResponderEliminarObrigado!
Boa Viagem!
Abraço apertado para o Trigueiro Dantas (a puxar cabo na 2ª fot ;) ) e muita força... até ao regresso. Vou acompanhando! :) Bjo.
ResponderEliminarmaria
Continua com essa força que tanto te caracteriza V. Dantas. Nós aconpanhamos-te fielmente deste lado cheios de saudade mas felizes por sabermos que estás onde queres estar! ;-)
ResponderEliminarBjo.
Célia