33º 01’.4N 016º 09’.3W, dia 03, 23h50.
A última coisa que fiz na véspera foi marcar o despertador do telemóvel para as 6h50. Estou no beliche de cima, dormi com o telemóvel ao lado. Acordo dez minutos antes da alvorada, desafinada. As casas de banho ficam literalmente a dois passos do camarote que partilho com o Bruno, o doutor. Há duas, uma está livre e a outra está ainda cheia de material que é preciso arrumar. Quando saio do duche, cruzo-me com o tenente Sousa Luís. Mesmo a esta hora, todo ele é aprumo. Costas direitas, barba aparada, risco ao lado, subido. Três vezes distinguido com a Cruz Naval. Segue-se o pequeno-almoço, que é servido às 7h30. Ao contrário do almoço e do jantar, é uma refeição informal. Quem está, está. Há um novo toque de clarim, mais curto. São 8h30, hora da formatura. Todos saem para o convés. Alinham-se a bombordo, sotavento, os homens nos seus macacões azuis, todos de cabeça coberta. O cabo de quarto avisa o sargento de quarto de que a formatura está pronta. É mandado o firme sentido com a autorização do oficial subalterno mais antigo, que é, por inerência, o comandante de companhia, o Sousa Luís. Todos em sentido aguardam a chegada do imediato. Alguns homens olham o chão. Os oficiais saúdam o imediato. Este dá as ordens para o dia: coser pano, acertar cabos, pinturas várias e “amarelos”, o puxar o lustro aos instrumentos na ponte. Quando acaba, troca novo cumprimento com os oficiais, enquanto cada chefe de serviço distribui as ordens pelos seus homens. Tão rapidamente como se formou, a nuvem azul dispersa-se no convés. A Sagres é uma pequena cidade de província. Os oficiais fazem o papel do padre, do juiz e do médico. A guarnição faz pela vida. É um navio de primeiro escalão, o que significa que a quase totalidade dos trabalhos de manutenção é feita pela guarnição, tanto em terra como no mar. Há aqui tarefas que não se fazem em mais nenhum dos navios da Marinha de Guerra Portuguesa. Não é um navio cinzento, é um navio-escola.
- Há aqui gente para fazer de tudo um pouco - diz-me o Sargento Pedro. Pedro é apelido. Vem-me à cabeça um anúncio antigo, que me lembro de ver em miúdo. Aquele em que, numa cidade de brincar, tudo era feito com as páginas das Páginas Amarelas. A manhã é assim ocupada a fazer pequenos trabalhos de reparação. Depois, e como todos os dias, faz-se a baldeação. O amarelo dos baldes pontua o azul monótono dos fardamentos de serviço. O tabuado do convés fica mais escuro. Às 11h30, ouvimos no altifalante que vai haver um exercício de tiro dos fuzileiros. Há uma pequena guarnição de fuzileiros a bordo, dois dos quais da DAE, das forças especiais, que suscitam a curiosidade da guarnição e um ou outro comentário velado entre oficiais. É proibido o acesso à ré. Os alvos, balões coloridos, são lançados ao mar. Ouvem-se os disparos. Almoço. Refere-se o exercício de tiro, já sem ironia. Discute-se a capacidade de atracção da Marinha vs Força Aérea. À mesa, o engenheiro Oliveira brinca à esquerda e à direita. Sabe fazê-lo, ganhou o seu espaço. Volta a falar no futeconvés. O jantar repete o almoço nos temas e no protagonista. A rotina está a chegar. No fim do jantar, ligo para casa pelo Iridium. À meia-noite é servido champanhe na câmara dos oficiais. O Oliveira faz 31 anos.

Gostei da tua frase
ResponderEliminar"Não é um navio cinzento, é um navio-escola."
E visualizei o contraste entre o amarelo e o azul, mais o colorido dos balões. Mas entendi a ideia da falta de monotonia e da contribuição constante de todos para uma causa comum.
Parabéns ao Oliveira (atrasados, claro, mas mais vale tarde do que nunca).
Beijos
(de uma terra que não está à vista)