35º 019’.4N 013º 04’.5W, dia 04, 23h57.
Às 11h00 de dia 21, avistamos Porto Santo (será que já caiaram os muros à volta das casas?) E hora e meia depois, a Ilha da Madeira. A sete milhas de distância, as luzes do Funchal são rios de lava que descem para o mar. Já temos rede. Por todo o convés vemos as pequenas luzes dos telemóveis. Ligo novamente para casa. Passo a noite acordado na ponte. O vento que corre já não é frio. Faço companhia ao Eusébio que está de quarto. Gostava de abrir uma livraria em Sintra. Cigarros. A cidade acorda com uma humidade que lhe tira a cor. Vou dormir. A Sagres vai ficar a pairar ao largo por umas horas. Quando acordo, às 11h30, já os jornalistas e o Comando de Zona Marítima, que vieram a bordo, tinham partido. A reparação do olhal ficou completa, o que enche a guarnição de orgulho, porque a parte mais difícil do trabalho foi feita a bordo. E o Vinho da Madeira já foi embarcado. Está na proa e vai acompanhar o Moscatel nesta viagem a caminho de se tornarem Vinho da Roda, o primeiro, e torna-viagem, o segundo, ganhando ambos propriedades únicas que resultam deste invulgar amadurecimento a bordo, para só então serem comercializados. Almoço. Falamos sobre o H1N1, sobre o que foi feito para prevenir a guarnição e sobre o número residual de marinheiros a bordo que se recusou a tomar a vacina.
- Guarnição, está previsto apitar a faina geral de mastros às 14h50, repito…
A voz do oficial de quarto ecoa nos altifalantes. O seu som metálico não disfarça a felicidade que o engenheiro Oliveira sente. Ao quarto dia de mar, o Sagres vai finalmente levantar pano. A Madeira ficou para trás. A bombordo, as Desertas. Parecem ter sido desenhadas com uma mão trémula sobre o fio do horizonte e vão presenciar toda a manobra. Começam os apitos, que só vão parar uma hora e dez minutos mais tarde.
- O meu recorde é de exactamente 22 minutos – diz o comandante.
Sobe-se pela escada de rede, a enxárcia. Em baixo, puxam-se os cabos.
- Ai vai um! Ai vai um! Ai vai um! Larga, larga!
O navio começa a adornar para bombordo, fazendo uma vénia às Desertas. No convés, os cabos serpenteiam o tabuado, um labirinto que rapidamente é desfeito e arrumado.
- Já estamos a andar mais rápido do que com a máquina – solta o Oliveira para o comandante. As velas enfunam ao vento. É o seu presente de anos. Jantar de aniversário. Uniforme nº 3, aliviado, isto é, sem casaco. Camisas brancas, gravata preta com o respectivo alfinete. O engenheiro Oliveira está visivelmente contente. Brinca com quase tudo, menos com o orgulho que sente em ser oficial da Marinha, comemorar o aniversário entre camaradas e, muito importante, a bordo do Sagres. É-lhe oferecido um livro da Sagres, que todos assinam, e aberta uma Royal Salut. São feitos tantos brindes quanto o número de presentes, do mais novo ao mais “antigo”. Invariavelmente, todos terminam com um:
- Ao Tenente Oliveira, à Barca e a Portugal.

Ficou-me a ideia desses vinhos que, por viajarem convosco (lol), vão ganhar propriedades únicas.
ResponderEliminarOlha que fiquei com vontade de um dia provar...
Cuidadinho com as garrafas, portanto! ;-)