sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

20 de Janeiro de 2010.



35º 20’.1N 013º 03’.3W, dia 02, 23h50.

Acordo cedo. Banho quente. Pão quente feito a bordo e café, no pequeno-almoço que é servido na câmara dos oficiais. Hoje é o primeiro dia da viagem. Sente-se que as cabeças ainda estão em terra. Só há uma forma de reduzir viagens longas como esta. Ao número total de dias que vão estar fora, os marinheiros começam por retirar o dia da partida, depois o da chegada e, por fim, os que são passados em terra. E o dia em que estamos também não conta. Dizem-me que os dias mais duros são os da partida e da chegada. Quanto ao primeiro, todos percebemos.
- Duro, duro, é chegar depois de estar muito tempo fora, saber que a família está ali e ter de continuar a trabalhar – explica o tenente Eusébio.
- As pessoas pensam que é chegar e sair, mas não é.
Depois sorri e afasta-se. Hoje houve uma alvorada surda, uma contradição nos termos, e não houve formatura. Foram dias pesados os que antecederam a partida. Executam-se pequenas tarefas. A enorme bandeira de Portugal é arriada e substituída por outra mais pequena. Quando é estendida para ser dobrada, ocupa metade do poço. Retiram-se as balizas de futeconvés para serem pintadas amanhã. E para lembrar a quem de direito que, quanto mais cedo se começar a jogar, melhor. A Sagres é especial. Por um lado, há mais trabalho, é preciso mais músculo, tudo é feito à mão. Mas há sempre mais um pronto para ajudar, pronto para repartir a força ao puxar um cabo.
- Um é força inteira, dois é meia força a cada um – diz-me um cabo simpático cujo nome ainda não consegui apanhar.
Por outro lado, este é um navio aberto, onde se vive e convive mais no exterior, o que faz toda a diferença, diz quem sabe. Ao almoço, estuda-se qual a melhor solução para reparar o olhal. A televisão está sintonizada na Fashion TV. À mesa, o tenente Oliveira, engenheiro, leva a conversa para o futeconvés, a ver o que dá. A seguir ao almoço há um torneio de ténis de mesa na wii, ainda na câmara dos oficiais. O mar tem vindo a crescer. As ondas são agora de três metros e meio e apanham a Sagres de través. Não há vento e a temperatura está amena. Até agora, não enjoei, apesar de não ser fácil estar muito tempo com os olhos fixos no monitor do computador. E curei a constipação que trazia de Lisboa. O Bruno, o doutor, diz-me que não há nada de especial a assinalar em termos de enfermaria. Uma ou outra distensão em quem anda a puxar cabos, mas não convém começar a prescrever anti-inflamatórios ao segundo dia de viagem. Um ou outro enjoo, um deles de alguém que tentou trocar à última hora, por não lhe ser conveniente vir, mas que não conseguiu e está aqui claramente contrariado. À noite, abro um pacote que a minha irmã me deu na véspera da partida, pedindo-me para só o abrir em alto-mar. Duas palavras simpáticas e duas embalagens de Droste. Decido comer dois por dia. E penso que seria simpático amanhã pedir na copa para servirem um dos pacotes com o café do almoço.

4 comentários:

  1. A relatares assim, Nuno, estamos perante um "Caderno de Viagem" que promete. Parabéns.
    Vê lá é isso dos cigarros: um atrás do outro até te podem fazer mal! º_º

    Cumprimentos a esse pessoal

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  2. Num navio especial, um civil especial, que se lembra de partilhar os seus drostes. Nem eu esperaria outra coisa de ti, Nuno, pois sei que tu sabes que é essa partilha que aumenta a força de todos e a de cada um.

    Boa navegação

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  3. "Os gestos audazes atraem a sorte!"
    (Tormes de Vigo)

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