37º 42’.5N 010º 06’W, dia 01, 23h30.
Cheguei cedo à Sagres. Deixo os sacos no camarote que vou partilhar com o médico, sujeito novo e reservado a quem, vou perceber mais tarde, toda tripulação, incluindo os oficiais, trata por “doutor”. Regresso de imediato ao cais para as despedidas. À nossa volta, há algumas lágrimas. Um choro mudo, quieto. Vão ser onze meses e meio. A maior parte destes homens (só há homens a bordo) vai comemorar o seu aniversário embarcado e não poderá fazer mais do que ligar para terra nos dias de anos das mulheres, filhos e família depois de terem comprado uns minutos de comunicações de telefone satélite. Uns poucos, sem contar com os oficiais, encontrar-se-ão com as mulheres em algum porto. Chega o comandante. Entra a bordo com pompa. Sigo a minha família com o olhar à medida que se afasta em direcção ao carro que a levará a um dia igual aos outros, sempre a dizer adeus. Os jornalistas começam a chegar. No breve briefing que se faz na câmara dos oficiais, o PR da Marinha refere a importância da campanha de publicidade “A sorte protege os audazes” da Santa Casa, por ter despertado o interesse do grande público na viagem. Por sua vez, o Comandante da Sagres explica sumariamente a missão: formar cadetes e levar mais longe a imagem de Portugal. São dois homens habituados a lidar com a comunicação social. Não há perguntas. A maré está baixa. O Sagres está prestes a partir. A pequena multidão no cais de Alcântara agita-se. A bordo, as calças da farda são batidas pelo vento. Ao despedirem-se dos seus, toda a gente acena a toda a gente. Na manobra de saída, feita com a ajuda de dois rebocadores, o olhal da verga sécia de estibordo da ré da Sagres prende na defesa do cais e parte. “Faz parte, é para isso que cá estamos”, dirá o comandante mais tarde. Primeiro contratempo. O Sagres desce de Alcântara a Belém, onde os jornalistas saem nas lanchas da Marinha em direcção a terra. Começa a viagem. Ao passar pela Marina de Oeiras, o navio apita. Foi a forma que o comandante encontrou para se despedir da mulher que aí almoça e a quem acena com o seu boné branco, num gesto largo a desenhar meia circunferência no ar – depois de lhe ter falado por telemóvel para se assegurar que se viam. As fardas nº 3b vão sendo progressivamente substituídas pelos fatos de embarque, uns macacões azul-escuros. Almoço. Apesar do tratamento respeitoso que o posto ou função requer, a conversa flui descontraída. As mulheres dos militares são iguais às dos civis. Nas suas características e, subentende-se, nas qualidades também. Ainda assim, não consigo de deixar de pensar como eles se comportariam se não estivessem a representar o papel que a hierarquia lhes atribui. Referem-se os putos novos, os que têm mais piada, os mais safos. Recolho ao camarote para uma sesta higiénica, finda a qual volto ao tombadilho. A máquina, o motor, está no máximo. Nove nós. Aproximadamente 15 km/hora, apesar de um segundo contratempo entretanto resolvido: depois de alguns dias de rio, a máquina deixou entrar mexilhões na refrigeração. Às seis da tarde (volto, depois de bastantes anos, a colocar um relógio no pulso) ainda vemos terra. Dois montículos no fio do horizonte: os cabos da Roca e Espichel, respectivamente a bombordo e a estibordo. Jantamos frango com esparguete e, mais tarde, não resisto a deitar canela sobre a pêra. Tentamos ver nos telejornais notícias sobre a nossa partida, sem sorte. Saio para o poço para fumar um cigarro. Quando levanto os olhos para o céu estrelado é o céu que balança e não o barco. Fumo outro cigarro, agora com o Almeida e o Faustino. Só passados uns minutos de conversa é que nos apresentamos e apertamos as mãos. Bebo um café oferecido pelo Almeida na messe de praças. Volto ao tombadilho. Mais dois cigarros. O céu vai ficar a baloiçar. Recolho ao camarote.

5 estrelas! Nascidas do teu texto, para juntar às que baloiçam do céu para vos embalarem.
ResponderEliminarBons sonhos!
3.ª foto:
ResponderEliminar«A gente da cidade aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes.»
(Os Lusíadas, IV, 88, 1-4)