27º 55’.2N 016º 21.6W, dia 06, 23h45.
Alvorada surda. O convés está deserto. Um navio fantasma. Também aqui a bordo da Sagres é Domingo, lembram-me mais tarde. O Oliveira vai perguntando a todos, em momentos diferentes, se já fomos à missa. Passa a manhã nisto. Almoçamos com a televisão ligada. Houve mais uma criança salva dos destroços, no Haiti. Fala-se de religião. Conta-se a história de um oficial mais antigo, evangélico, que tinha por hábito num outro navio passar uma gravação da missa da sua igreja quando estava de quarto à ponte. Rimos com vontade. No passado havia um capelão nas viagens da Sagres. Discute-se a homossexualidade nas Forças Armadas e, em especial, na Marinha. Fala-se abertamente e sem preconceitos. Referem-se experiências de outras Marinhas, e em particular, a dos Estados Unidos. Sinal dos tempos. A Marinha não pode ser uma ilha e vai reflectindo a sociedade, ainda que com algum atraso. Apesar do convívio descontraído às refeições, só muito raramente se conversa para o lado. Quando se fala, olha-se para a mesa. Quase não se repara, mas faz diferença – os mais novos praticamente só falam quando lhes é feita alguma pergunta. Afirmativo. À tarde, Faina Geral de Mastros. É a primeira do engenheiro Gaspar, enquanto oficial de quarto. O sol brilha nos seus óculos. Abre um sorriso. Vai olhando para cima, para os mastros. Os outros oficiais estão imediatamente atrás dele. Começa por bracear o grande e o traquete, isto é, mudar a direcção das vergas (ou braços) dos mastros grande e do que está à proa. Dirá mais tarde que a sua voz fica estranha no altifalante que encostava à boca para dar as ordens, que as suas pernas iam ganhando firmeza à medida que as velas iam sendo içadas, uma a uma, à força de braços. Até à hora do jantar, cruzamo-nos com dois veleiros de médio porte e um cargueiro. Este último, ao longe, lembra um castelo com a ponte levantada. Já na câmara dos oficiais, a flâmula azul é regada a champanhe pela primeira vez. Triangular, relativamente pequena e muito comprida, esta bandeira azul será içada amanhã na adriça de sinais da mezena, a bombordo. Recompensa o oficial que fez a barca percorrer mais milhas à vela durante um quarto de serviço na ponte, no caso o Sousa Luís. Coisas que, vou-me apercebendo, passam completamente ao lado da guarnição. Começamos a jantar e vamos vendo a bola na televisão, aos bochechos. Quando adornamos, a imagem pára no ecrã. Toda a gente fica contente. A custo, Sporting e Benfica ganham. Nos sofás, prolonga-se a discussão que começou à mesa, já sob a forma de aposta. Diz-se “trasfega” ou “transfega”? Apesar de dois dicionários de língua portuguesa e de três dicionários de termos náuticos que o Oliveira vai buscar em seu socorro, parece já claro que deve uma garrafa de aguardente “Chancela” ao Dias Pinheiro. Findo o jantar, joga-se wii. Primeiro bowling e depois golfe, que seduz o imediato Fonte Domingues a jogar pela primeira vez. Reforço, a última refeição do dia. Como sozinho. O almoço e jantar são de presença obrigatória, a não ser que se esteja de quarto, e há alguma cerimónia. Comandante ao centro da mesa, o convidado à sua direita e o imediato à sua frente.
- Senhor Comandante, estamos todos (servidos) – diz baixinho o imediato.
- Bom apetite – responde o comandante.
O pequeno-almoço, lanche e reforço são mais informais. Penso que, entre os oficiais, sou o único que faz as cinco refeições por dia. Vou ganhar uns quilos.

Ri-me sozinha com o afirmativo-negativo do guarda-marinha. É típico dele!
ResponderEliminarAfirmativo, Maria!
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