segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

25 de Janeiro de 2010.



24º 22’.7N 018º 00.9W, dia 07, 23h50.

Ontem fui convidado pelo Rui Pedro, o mais antigo dos sargentos, para ir hoje jantar à Câmara dos Sargentos. De manhã, na formatura, há um praça com a cabeça descoberta que irá, sem demora, ser praxado. Mal esta acaba, o altifalante grita: “condição geral 17”. Toda a gente sem excepção se deve dirigir para a sua balsa salva-vidas. Estou na décima quinta balsa. Há quem refile por estar na décima terceira. Todos colocam o colete amarelo. O Comandante surge com um pequeno rádio a pilhas numa mão e um anzol na outra, mesmo tratando-se de um mero exercício. As manhãs são, como sempre, de trabalho. Hoje, entre inúmeras outras tarefas, fazem-se lanudos – um simples cabo onde são passados cabos desfiados – que é içado nas enxárcias para proteger as velas quando batem nos cabos. Um cabo pede a um grumete para ir buscar a caixa dos pentes dos lanudos, que este vai rapidamente descobrir não existir. Nova praxadela, o mar está cheio de gambozinos. Dentro da caixa dos pentes, está, afinal, S. Hilário, que não me parece necessário explicar o que é. Desço à cantina com o cabo Leão, que é lagarto. São paióis e paióis de toda a sorte de géneros alimentícios, bebidas, tabaco, material alfandegado a um preço mais económico, mas que só pode ser comprado e consumido pela guarnição a bordo e para além das 12 milhas das águas territoriais portuguesas. Até a barbearia está cheia com caixas e caixas de cartão.
- Que nesta viagem não há barbeiro na guarnição e todo o espaço é pouco – diz o Leão.
Na cantina, há também t-shirts, pólos, bonés, canivetes, fitas com os símbolos do Sagres que, para além de garantirem alguma uniformidade no vestir a bordo, são vendidos aos visitantes. A cantina abastece ainda as messes dos praças – o bar do traquete – e a dos sargentos, assim como a copa dos oficiais. Não há dinheiro a bordo. A Sagres tem uma economia própria. Todas as compras feitas por qualquer membro da guarnição são descontadas pelo cabo Leão no suplemento de embarque individual. O produto da cantina vai para a Comissão de Bem-estar. Esta, como o seu nome indica, paga a assinatura do satélite da TV Cabo para todas as messes, as novas máquinas de lavar e secar roupa dos praças, o aluguer de uma carrinha para uma visita quando se chega a um porto, pequenos confortos que em casa damos por adquiridos e ajudam a ultrapassar a dura vida de trabalho a bordo. Ao almoço, o Oliveira continua a alastrar-se, que é, como aqui se diz, continua a distribuir comentários pelos seus camaradas. À tarde, antes do início do primeiro de muitos torneios de futconvés – um por oceano –, ainda se trabalha. Às 18h50, somos avisados pelo imediato de que vamos para o Recife e não para Salvador, como estava previsto, por falta de lugar no porto daquela cidade. Vamos chegar a 7 e a Sagres voltará a partir a 12 de Fevereiro. A flâmula azul passou entretanto para o tenente Pinto Ferreira. Às 20h00 em ponto, hora combinada, dirijo-me à messe dos sargentos. Aqui não há formalidades.
- Há um mínimo de regras que nos permitem viver em conjunto, mas é tudo na boa. É diferente dali – e apontam-me para a ré, onde ficam os oficiais. – Fazemos a ponte entre aqueles e aqueles – dizem referindo-se a praças e oficiais – e às vezes não é fácil.
A messe dos sargentos faz lembrar a sala de convívio de um grupo desportivo. Tecto baixo, uma televisão sempre ligada, por baixo, uma aparelhagem, as paredes carregam crestas, pratos e galhardetes, ofertas e souvenirs dos vários países com fortes comunidades portuguesas pelos quais o navio tem passado, de Nova Jersey ao Rio de Janeiro. A guarnição tem dezasseis sargentos a que se juntaram nesta viagem, por razões de segurança, dois dos fuzileiros. Jantamos um bife com esparguete e batata frita. A ementa é a mesma que está a ser servida a esta hora a praças e oficiais – a “aqueles e aqueles”. Aqui, não há uma mesa mas várias, com cinco lugares cada. Aqui, basta a barca adornar levemente para as duas vigias da messe ficarem abaixo da linha d’água. Os sargentos são mais velhos que os praças. E, com uma ou outra excepção, os primeiros-sargentos são também mais velhos que os oficiais. Há muitos que, aos quarenta e poucos anos, já atingiram o topo de carreira. Aqui, não se fala em devoção ou brio mas em profissionalismo. Falamos da viagem. Fala-se já da ânsia de chegar.
- É muito tempo, quem tem filhos pequenos, com três ou quatro anos, é complicado, já vai vê-los com mais um, estás a ver? E depois quando chegamos, andamos à vontade duas ou três semanas, à toa, somos estranhos na nossa casa.
Fala-se da família com o coração apertado. E depois, do nada, sai uma “boca” e outra, e todos rimos. Ninguém perde uma oportunidade para rir. É o melhor remédio. No fim do jantar, passamos ao whisky, enquanto vemos um DVD de um concerto ao vivo da Jennifer Lopes. Baixam-se as luzes. Há uma bola de espelhos com um projector a um canto e uma luz strobe no canto oposto. E sai outra “boca” e mais um copo. A messe é agora um bar da periferia. Animado é pouco. Só falta o fumo. Subimos ao poço para fumar um cigarro, que lá em baixo – ou em qualquer outra parte interior do navio – não é permitido. Antes de regressarmos à messe para um último copo, mostram-me a sua camarata. Não é o big brother da TVI, do Zé Maria e do Marco e não é, obviamente também, o big brother original, do Orwell. Mas há uma coisa em comum: não há intimidade. Estes homens choram juntos, riem juntos. Atravesso o poço para me deitar, atravesso uma linha que não se vê. Há muitas Sagres.

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