terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

30 de Janeiro de 2010.



10º 16’.2N 024º 37.2W, dia 12, 23h55.

O sino que está na ponte diz-nos quanto falta para o fim do quarto. Um toque simples à primeira meia hora do quarto. Um conjunto de dois toques simples à primeira hora. O tempo demora-se. Dois conjuntos de toques com uma breve pausa no meio à segunda hora até à quarta e última hora de cada quarto. Não abandonar os camaradas é também rendê-los à hora certa, por muito que se tenha bebido na noite anterior.
– Exercício, exercício, exercício, homem ao mar a estibordo – fala o altifalante.
A meio da manhã há um novo exercício de homem ao mar.
– Tempo de sobrevivência: 15 horas – ouve-se uns minutos depois.
A água está quente. O calor veio para ficar. Felizmente, o ar condicionado já está a funcionar em pleno. Os radares, não. Almoço na câmara. O Oliveira conta que ontem, enquanto estava de quarto na ponte, teve de entrar em contacto com um cargueiro que aparecia para logo desaparecer na consola do ecrã do radar.
– Era um russo e já devia estar entornado, mas resolveu-se.
Fala-se na dependência em relação à tecnologia, que há não muitos anos atrás tudo se fazia com metade dos instrumentos, que quanto mais evoluímos, mais desaprendemos.
À tarde, na ponte, um marinheiro que enverniza as balaustradas chama a atenção para uma enorme tartaruga que passa a poucos metros do navio. Hoje, há um novo jantar de apresentação de um oficial à câmara. É a vez do Dias Pinheiro, do Miguel. O jantar é servido no tombadilho. Tapas, frutos secos, tâmaras com bacon, rissóis, croquetes e pastéis de bacalhau e gin tónico, seguidos de uma tábua de queijos e enchidos, de um cocktail de camarão e de um pudim Abade de Priscos, tudo regado com um Alvarinho Branco de 2008. Acabado o jantar, os oficiais circulam novamente com a sua farda branca pelo navio e entre a guarnição. Agora, que a maior parte anda de tronco nu, o contraste dificilmente podia ser maior. Vou beber um café à messe dos praças, mais conhecido como “O Bar do Traquete”, que assim se chama por estar imediatamente por baixo do mastro com o mesmo nome, junto à proa. O Bar do Traquete é ao mesmo tempo, e em função das horas do dia ou da noite, um refeitório, uma sala de convívio, um salão de jogos ou uma discoteca. Tem mesas e bancos corridos, fixos ao chão. A esta hora, há em cima das mesas dezenas de PC portáteis. Os jogos são jogados em rede, uns com os outros. Toda a gente veio prevenida com terabytes de filmes e séries. Por toda a guarnição já só se fala de uma coisa – a vinda a bordo de Neptuno, o Rei dos Mares.

2 comentários:

  1. Nuno, quando te leio por aqui, torna-se fácil imaginar-me aí, cumprindo uma rotina disciplinada de afazeres e lazeres.
    O que contas, a passar-se assim, estará decerto a entusiasmar futuros membros da guarnição, bem como futuros visitantes da "barca".
    Bons ventos vos continuem a acompanhar.

    Beijos para todos
    e um especial, para ti

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  2. Nuno, não me digas que abandonas a "barca" sem nos contares mais episódios de fazer inveja... Mas, se assim for, desejo que continuem a navegação com sucesso e que tu regresses a casa cheio de histórias deliciosas.

    Hoje, beijos de Portugal, para todos

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