13º 25’.1N 022º 58.4W, dia 11, 23h50.
Está um mar de azeite. Há dois dias que não temos vento. É a máquina que nos leva. O Rui Pedro acaba o seu quarto. Esteve lá em baixo desde as 4h00. Sai da casa da máquina e atravessa lentamente o poço. Não tem pressa, não tem para onde ir. Tem os ombros caídos, sinal de cansaço. O dia acaba de nascer. Fica por ali a apanhar os primeiros raios de sol enquanto espera pela formatura. Vista da ponte, a formatura é uma mancha azul apenas quebrada por uns quantos panamás brancos, que acompanha o balanço do mar. Começam os trabalhos do dia. Faz muito calor. Quase todos estão em tronco nu, fazendo descobrir as muitas tatuagens que a Marinha não permite que se vejam, quando se está uniformizado. Os calções azuis andam propositadamente descaídos, dando a ver os boxers Os sapatos de vela, utilizados como sandálias, mostram os calcanhares que os calcam. Há muitas fitinhas nos tornozelos. Ainda antes do almoço, há um novo exercício de homem ao mar. Os tempos de resposta de cada fase ainda não batem com o que está nos livros. A caixa dos pirotécnicos e a rádio-baliza são fixas na balaustrada da ponte junto à escada de acesso ao poço. Esta última emite um sinal com a posição do navio em caso de naufrágio.
– Lagarto, lagarto, lagarto – bate o Sousa Luís na madeira enquanto me mostra como funciona.
– São três os pirotécnicos mais utilizados que estão nesta caixa metálica e em outras mais pequenas espalhadas pelo navio. Há um que faz fumo e é atirado para junto de um homem que cai ao mar, como você já viu, marcando a sua posição e os dois outros são very lights, um de luz encarnada para sinalizar que o navio está em apuros e um outro que tem um pára-quedas e ilumina à noite – explica-me o Pinto Ferreira.
A meio da tarde, ficamos a saber que o problema da osmose está parcialmente resolvido. Há uma sensação generalizada de alívio.
– Somos um país de jeitosos – brinca o Oliveira. – Somos ou não somos?
Acaba o dia mais longo do Oliveira e do Gaspar. E faz com que os jogos de futeconvés previstos para hoje à tarde se possam realizar. Segundo jogo dos oficiais e nova vitória, desta feita contra a equipa dos cabos. Vitória suada, o cabo das tormentas. A pressão exercida sobre o árbitro cada vez que ele apita a favor dos oficiais é enorme e faz-se sentir por todo o navio. Mais velhos e mais pesados, os cabos não correm, mas fazem a bola correr.
– O Diabo sabe muito não é por ser Diabo, é por ser velho – diz o Gaspar. O cabo Leão, possuidor de um grande drible, é, apesar do resultado, unanimemente considerado o homem do jogo pela forma como é saudado pelas enxárcias. Findo o jogo, ainda a osmose não está completamente resolvida e já os radares e o ar condicionado estão a dar problemas. Vou ao primeiro jantar da Associação “Os Tachadas” para o qual tinha sido convidado há dois dias. Jantamos na messe das praças. Vai-se comer um belo arroz de polvo, apanhado nas águas do Algarve por um pescador, que calha ser o pai do marinheiro Lucas, e que foi entregue na cozinha para ser preparado especialmente para a ocasião.
– Aqui não há disso, aqui a gente é tudo igual, não há cá cabo, nem grumete, nem o car… – diz-me o cabo Eusébio, que preside à associação.
O seu nome vem do enorme tacho onde “o comer” é feito. Mas “Os Tachadas” não são uma associação qualquer. Não fosse o RDM, abreviatura de Regulamento de Disciplina Militar, seriam uma confraria. Por brincadeira, para levantar o moral, redigiram um credo próprio, impraticável para quem navega a quartos. Reza assim: “Creio no álcool a 36º todo-poderoso e criador de formidáveis carraspanas, creio na aguardente, sua filha e minha esposa predilecta a qual foi concebida por obra e graça do alambique…” E os seus estatutos não deixam dúvidas. Na cláusula primeira, referente às obrigações e deveres entre camaradas”, número quatro, pode-se ler: “é expressamente proibido comer uvas”. No número oito, está escrito que: “Todos os sócios são obrigados a beber só bebidas nacionais ou estrangeiras”. Ainda antes do jantar sou feito confrade, sendo-me colocado um colar com uma rolha à volta do pescoço e é-me atribuída uma alcunha. Entre irmãos, sou agora “o Joker”, por causa do boneco com o mesmo nome do Jogo da Santa Casa que faz a viagem connosco. Não é confrade quem quer. E, mais uma vez, está tudo estatutariamente definido. É confrade quem pode. É preciso possuir ou ganhar muito rapidamente, e passo a citar, “olhos remelados, um rosto cor de camarão e nariz em forma de torneira”. Acabado o jantar, continua-se a beber. Canta-se e bebe-se. No plasma da messe passam telediscos. Toda a gente canta. Há um marinheiro que passa a mão nos olhos para evitar uma lágrima perdida. A música que passa é um variado sortido pimba. Há um teledisco impossível de esquecer. Foi integralmente filmado no “Kikas”, uma casa de alterne no Vale de Santarém. Umas raparigas, cujo branco dos vestidos é realçado pela luz, a cirandarem de um lado para o outro no interior do bar. Fora isto, há apenas mais um plano da placa que está na estrada à entrada do Vale de Santarém, que entra por corte no refrão. Saímos da messe e vamos para lá para fora, para a proa. Vamos ter com o Belo, que está de vigia. Corre um vento quente. Entra uma viola. Canta-se música portuguesa. Palma, Zeca, Xutos, música de intervenção, rock português dos 80 e jingles, músicas de reclames com as letras levemente adaptadas. O Eusébio, o grão-mestre, oferece mais uma grade.
– Viva gente! – grita o Castro. – Ba-da-mer-da-pa-ra-a-gen-te! – respondem todos.
Canta-se o hino da Sagres. “Nos somos a escola Sagres / Somos grandes marinheiros / Viajamos pelo mar / Viajamos pelo mar / Conhecemos o mundo inteiro.” Toda a gente começa uma canção. Canto a “Olhos Negros”. Mais uma grade de canções. Mágoas afogadas. Há aqui um espírito bravo e muitas histórias. A do Belo, surfista do Estoril, 24 anos, há cinco na Sagres e que já foi evacuado por duas vezes. Da primeira vez, ia o Sagres para o Brasil e logo em Sesimbra magoou-se com gravidade nas mãos ao prender um cabo. Da segunda, andava o Sagres por África e, quando estava de licença em terra, foi cuspido do interior de um carro, perto do Lobito. E ele resiste. Não abandona o navio porque não se abandonam camaradas. Vamo-nos deitar. Alguns vão dormir ali, à proa do navio, ao luar.

Olá, confrade Joker!
ResponderEliminarJá vi que tens aí para a vida, pois não se abandonam camaradas...
Gosto dessa união, saudosa de terra, mas que, quando está em terra, chora pelo mar.