6º 30’.8S 021º 22.9W, dia 20.
Estamos há muitos dias num sítio chamado Atlântico. Um deserto de água, redondo até onde a vista alcança. Inabitado pelo homem. E que teve em nós, portugueses, os seus primeiros nómadas. Um sítio de aventureiros e de solitários. Um sítio onde os sonhos dos primeiros correm a par da loucura dos segundos. São 3h15, hora de bordo, mais duas que em Lisboa e menos uma que na cidade do Recife, que nos vai acolher. Estamos a 40 milhas de distância. Não vemos terra, vemos luz. É um clarão difuso que se estende sobre o horizonte. 4h20, já conseguimos distinguir pequenas luzes pousadas no mar, longe. Está um céu bonito, estrelado. Uma aguarela e guaches sobre papel azul, de Turner. Podemos ver o Cruzeiro do Sul, Marte e Saturno. 5h30, o dia chegou. Deixámos de ver as luzes do Recife e ainda não vemos terra. Só há mar outra vez. E um imenso trânsito que, à falta de terra, nos consola. Começamos a ver os navios que passam ao nosso lado e que há umas horas eram apenas uns pequenos pontos que se deslocavam no ecrã do radar. 6h22, “terra a vista” informa o vigia. A estibordo, começam-se a desenhar o que parecem ser uns quantos edifícios altos e que mais tarde vamos descobrir tratar-se da marginal da praia da Boa Viagem . 7h00, alvorada. Os primeiros rostos surgem no convés. Ensonados, alegres. Passa por mim alguém que canta “Os loucos de Lisboa” que vou dar por mim a trautear no resto da manhã. São os loucos de Lisboa / Que nos fazem duvidar / Qu’a terra gira ao contrário / E os rios nascem no mar. 8h00, pequeno-almoço, engolido. Ligar para casa faz sentido outra vez. Há muita gente a fazê-lo. 8h15 e já há outra vez marinheiros condignamente fardados de branco, na sua maioria à proa. A Sagres, que foi ficando mais pequena ao longo dos dias, fica de repente maior. Para logo a seguir ficar mais pequena, à medida que nos aproximamos de terra. 9h e picos, sobem a bordo os dois pilotos brasileiros que nos ajudaram a entrar no porto da cidade. Aparece um primeiro rebocador e um outro logo de seguida. São enormes. Toda a manobra demora muito tempo. 9h40 e começamos a distinguir em terra as primeiras caras. 10h15, a Sagres atraca. O porto fica junto ao Recife Antigo, o primeiro dos bairros da cidade fundada em 1537 por portugueses. Somos recebidos com Fevro, a música e a cor de Pernambuco. Cinco bailarinas, cinco sorrisos lindos, que fazem voar o chapelinho colorido de umas para as outras. 11h10, oficial de ligação da Marinha Brasileira, o capitão de corveta Evandro, sobe pela prancha e entra a bordo com a sua farda branca que é feita de uma sarja mais grossa que a nossa. Começa uma longa manhã de trabalho, seguramente uma das mais duras. Almoçamos já perto das 14h30. Apenas depois de uma faina de material – entrada e saída de vários materiais e géneros -, de uma limpeza geral, lá fora, e de uma prolongada reunião com o ship chandler – o fornecedor de fornecedores -, lá dentro, na câmara. Os fuzileiros regressam a bordo com uma máscara de suor no rosto. Meia hora antes, tinham pedido autorização ao imediato para o seu jogging. 15h50, são concedidas as licenças. Finalmente. (continua)

Ainda bem que há loucos de Lisboa. E que são tão bem recebidos no Brasil. Depois de tanto tempo no mar, deve ser... deve ser...
ResponderEliminarEspero pela 'Continuação'
As fotografias dão outro colorido a estes relatos que nos fazem acompanhar a vida a bordo. Obrigada
ResponderEliminarEntrei só agora na viagem, mas vou continuar a ler, com muita atenção, este diário de bordo.
ResponderEliminarContinuação de boa viagem.
Obrigado eu, Maria e bem-vindo a bordo Rui!
ResponderEliminarboa estadia na Argentina ,bem que vejo todas as fotos e vidios a permenor ,sempre na esperança de ver o meu saudoso filho 1°marinheiro SILVA LINO ANDRE ,vou continuar a espera de o poder ver ,um grande beijao p meu filhote e que corra tudo por o melhor para todos .até breve .EMILIA.
ResponderEliminarCaros Marinheiros (e estes não de água doce), apenas hoje li o blog (o que eu tenho perdido...). Mas antes tarde que nunca!
ResponderEliminarEstou a adorar! Completamente deliciada e sem conseguir negar uma ponta (grande) de inveja, pois consigo rever muitos dos momentos relatados: as horas certas para as refeições, o companheirismo e a convivência, enfim... a vida no MAR! Onde as cordas são cabos (excepto 3:a corda do relógio, a do sino e "acorda que são horas"), as paredes são anteparas, os turnos são quartos, os quartos são camarotes e as camas são beliches...
Enfim, quero dar os Parabéns ao Nuno Silva pela escrita leve, mas que permite que nos imaginemos lá.
Que Bons Ventos vos levem até ao fim da viagem e que suaves ondas vos tragam a todos de volta, sãos e salvos!
Uma apaixonada pelo MAR...