sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

04 de Fevereiro de 2010.



02º 16’.9S 028º 18.0W, dia 17, 23h50.

Ainda é noite. Dormi sob as estrelas. Risquei, como aqui se diz, mas não foi preciso, desenhar a giz no tabuado do convés o espaço onde fui dormir, como antes se fazia. Acordo no banco do caixão de leme. É o banco corrido de madeira que fica no tombadilho junto ao leme de emergência. Não volto a dormir, com medo que as estrelas se vão embora. Penduradas no céu, frágeis, as estrelas baloiçam como um instante que logo acaba. São toda a companhia que tenho, agora que a guarnição dorme. Ao olhá-las, deixo-me levar por uma euforia que chega já temperada de serenidade. É um instante a que, por hábito, preguiça ou, não importa, por qualquer outra razão, costumamos chamar de felicidade. Sou, sempre fui, um privilegiado e se escrevo isto é para não o esquecer. Nunca consegui deixar de olhar para as estrelas. Pode ser uma forma de lhes agradecer. Não devem lá estar em cima por acaso. Lembram-me que, por mais longe que estejam as pessoas que amamos, a sua luz também lhes chega e que precisam de levantar a cabeça para as ver. Há aqui muita gente que chora e que não o esconde. Muita gente que não deixou os seus problemas em Lisboa. Liguei para casa dois dias seguidos. Foi um erro, fiquei com saudades. Aqui, nem sempre é fácil ligar para casa. Ligar para casa sem ver terra pode ser penoso. Mesmo em dias de calmaria, o mar é uma parede de vidro que separa e que se pode partir a qualquer momento. É uma parede que embriaga, que não acaba. Mas estes homens têm-se uns aos outros e às estrelas que, quando se escondem, os levam a mais um dia trabalho. Com uma bravura que não me lembro de ter visto antes.


Navegamos há já dezassete dias. Não passámos ao largo dos Penedos de S. Pedro e S. Paulo assim como do Arquipélago de Fernando Noronha para evitar os fortes aguaceiros - típicos dos climas inter-tropicais nesta altura do ano – que os instrumentos previam. O dia foi de trabalho. Ao almoço, houve gelado de morango, feito a bordo. E a noite foi de festa. Foi o jantar de despedida do Rei dos Mares. Toda a guarnição comeu junta no poço. Não faltaram iguarias. Não faltou música ao vivo, pela voz e órgão do marinheiro Magalhães que nos presenteou com o vastíssimo repertório com que costuma animar casamentos e baptizados. Não faltou animação. Uma festa popular. O poço todo iluminado. Fios de luzinhas por cima das nossas cabeças, uma verdadeira festa de aldeia. Só faltaram raparigas – não se dançou - sobrando cabelos rapados pente 3.

2 comentários:

  1. As estrelas não se vão embora, Nuno, mas enterneceu-me essa tua confissão de paixão por elas (que nos unem de facto), como se fosses um menino que as quer todas para si.
    Estou fascinada pelo ambiente que relatas. Ainda que mal comparado, faz-me lembrar os velhos tempos dos nossos escuteiros: muito trabalho, muita cumplicidade, muita diversão, saudades de casa, mas constantes reforços vindos da união do grupo.

    Um beijo
    estrelado

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  2. Querida Guida, muito obrigado por todas e cada uma das tuas palavras de incentivo. Um enorme beijinho, nuno

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