quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

28 de Janeiro de 2010.



13º 25’.1N 022º 58.4W, dia 10, 23h45.

Acordo alagado. É muito cedo. A temperatura tem vindo a subir de forma gradual. Mas a humidade chegou de uma só vez. É uma fina película de suor, a que nos cobre o corpo mesmo na ausência de movimento. Entranha-se e só depois se estranha. Vou passar a dois duches por dia. Este navio produz água. Se pensarmos, só poderia ser assim. A guarnição é composta por 147 elementos aos quais se irão juntar no Recife mais quatro que, por razões diversas, ficaram em terra. Na América do Sul, a Sagres vai ainda, no âmbito de programas de intercâmbio, receber alguns cadetes de outras Marinhas. E, por fim, em Agosto, vão chegar os nossos cadetes, aproximadamente mais 35 elementos, dos quais 11 são MIF, militares femininos. Não é uma população inferior à de muitas aldeias esquecidas do interior, onde ainda é lembrado o dia em que lá chegou o saneamento básico. Desde que saímos de Lisboa, os 147 homens que aqui vivem consomem, em média, 18 toneladas de água por dia. No Inverno e contrariamente ao que se poderia pensar, o consumo de água é maior, apenas pelo compasso de espera que no duche se faz até a água começar a correr quente. Num navio como a Sagres e numa tirada com a dimensão da travessia do Atlântico que agora fazemos, o vento é muito importante, o gasóleo pode fazer a diferença entre chegar a um porto no dia previsto ou não, mas a água doce é decisiva. Sempre assim foi. Desde sempre que a água potável é um bem de primeira necessidade a bordo e, na medida em que condiciona a autonomia dos navios, sujeita a racionamento. Antes navegava-se até haver água armazenada. Ou navegava-se de porto em porto onde fosse possível armazená-la para uma nova tirada. Hoje em dia, são raros os navios de médio e grande porte – e até mesmo alguns veleiros de recreio – que não têm equipamentos de produção de água doce. A Sagres produz água por osmose inversa. Resumidamente, passa-se assim. Quando duas substâncias, neste caso água doce e salgada, entram em contacto e entre estas existe um diferencial de substâncias dissolvidas (sal, minérios e impurezas várias), dá-se uma migração da solução com menor concentração de substâncias dissolvidas para a solução oposta, de forma a reduzir ou igualar o diferencial das respectivas concentrações. Fornecendo ao sistema uma força, gerada electricamente, que contrarie a pressão osmótica (e mediante a utilização de filtros) é possível obter o efeito contrário, fazendo da água salgada e impura água doce e potável, uma água que satisfaz os parâmetros da Organização Mundial de Saúde. A osmose inversa é, a par da destilação, um processo já usado em zonas que se debatem com falta de água crónica, como Porto Santo e Cabo Verde, por onde passámos há dias. É o que nos tem permitido até agora produzir mais água do que a muita que temos vindo a consumir. Até agora. O sistema de osmose inversa acaba de avariar. Corre-se o risco de entrar no “regime de água fechada” que consiste em abrir da torneira apenas uns minutos por dia. Os engenheiros Oliveira e Gaspar estão há já algumas horas na casa da máquina, lá em baixo, de volta do aparelho de osmose inversa. Não participam no exercício de homem ao mar, em que o padeiro Ramalho faz o salvamento do Óscar, um boneco feito com um impermeável cheio de trapos e com uma bola de futebol no lugar da cabeça que antes foi atirado ao mar, e que termina com o altifalante a dizer:
- O 1º sargento CM (seguido do nome de um conhecido dirigente desportivo) foi salvo e encontra-se bem de saúde.
Os engenheiros falham o almoço, que à quinta-feira é rancho reforçado (com doce no lugar da fruta), por tradicionalmente se proceder à revisão do aparelho dos navios. E falham ainda o exercício de tiro dos fuzileiros para o qual o sargento Alves me convidou. Começa por me explicar o funcionamento da arma. É uma G36. Assim está trancada, assim não está. Dispara tiro a tiro e de rajada. Lança granadas e tem visão nocturna. É de plástico reforçado, muito leve e não dá coice no disparo. É o seu brinquedo, o seu objecto de transição. E depois mostra-me como se faz. Um balão laranja com água é atirado por um outro fuzileiro, ele encosta o cabo da arma ao ombro e olha para mim, sorri, o balão continua a afastar-se, coça a barba no cabo, o balão está já a 150 metros, acompanha o movimento do mar, ele continua a olhar para mim e eu penso que “este gajo está-se a esticar”. Precisou de um tiro. Ele é em si mesmo uma arma, tem o curso de sniper e entre a guarnição há quem diga que gostava que fôssemos abordados por piratas ao largo da Somália só para o ver em acção. O Oliveira, o Gaspar, o primeiro-sargento Rui Pedro o cabo Eusébio, o Imperial dos Santos (grande nome, mesmo), o sargento Perfeito (outro grande nome), o Lopes, o fotógrafo, o César Martins e os dois grumetes Ferreira (espero sinceramente não me estar a esquecer de ninguém) continuam lá em baixo de volta da osmose. Até agora, nada. Já ligaram para Lisboa. Já se tinham lembrado e feito tudo o que de lá partiu como recomendação, o que constitui uma satisfação, não o escondem, mas o problema não fica resolvido. Vou até lá. A casa da máquina está no segundo dos cinco pisos do navio, imediatamente por cima do porão, onde estão os reservatórios de água e combustível. É uma descida ao inferno. Abro a porta, ponho uns protectores nos ouvidos e desço dois lances de escadas para lá chegar. É um inferno que fica abaixo da linha de água. O barulho da máquina a que os nossos ouvidos já se habituaram no convés é agora ensurdecedor e compete com o calor no desconforto que causa. Lá em baixo, ninguém fala. É impossível fazerem-se ouvir. Falam por gestos. O Oliveira abre e fecha as duas mãos três vezes. Faz uma roda no ar com o indicador e acaba afastando subitamente as duas mãos, na horizontal. Disse:
- Vamos ver o que acontece nos próximos 30 minutos, e depois, corta a ligação.
As caras estão cobertas de gotículas de suor. Transpira-se muito. O Rui Pedro está sem os protectores nos ouvidos. Já não os aguenta. De cabeças inclinadas, estão todos de volta dos filtros da osmose. O Oliveira e o Gaspar e todos os seus homens voltam a falhar o jantar. Falham o dia.

5 comentários:

  1. Espero sinceramente que o problema da agua esteja resolvido,gosto muito da maneira como descreves a vida a bordo. Boa viagem ate Recife

    ResponderEliminar
  2. Bom dia! É bom ter notícias da Sagres. A forma “descontraída” como descreve as situações faz com que a leitura do blog seja muito agradável (apesar de ser suspeita, já que tenho todo o interesse em saber o que se passa no navio por ter alguém muito especial aí). É curioso ver a vida a bordo descrita “à civil"... Embora use um leque enorme de termos “técnicos”, alguns não faço ideia do que sejam (mas as coisas têm de ser chamadas pelos nomes, não é?). Realmente falhar a produção de água doce a bordo é muito mau... e navegar a regime de água fechada deve ser péssimo! Espero que tudo se resolva! Se não, que voltem mais cedo para casa... Era bom (para mim) pois assim já não teria tantas saudades! Mas sei que o navio e a sua guarnição estão mais do que preparados para qualquer desafio que apareça e por isso desejo sinceramente bons mares e ventos -estes em particular tão importantes para a Sagres! E a 19 de Dezembro lá estarei para receber a Sagres e ver o meu menino a chegar (daqui a 316 dias - porque o dia de hoje não conta, nem o da chegada)! Um abraço (e um beijinho para o contra-mestre do Grande, Jhonny Teixeira).

    ResponderEliminar
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  4. 2ª"VOLTA ao MUNDO".Como português e como militar da Armada, esta viagem constituiu a realização de muitos sonhos antigos, um dos acontecimentos mais extraordinários da minha vida.
    Para se ser bom cidadão, deve-se tentar conhecer aquilo que dá individualidade cultural ao seu País. O património do meu País passa por todos os pontos que estivemos.
    Não foi uma viagem meramente turística, foi um enriquecimento cultural. É daqui que vem o orgulho de ser português. Foram 295 dias de ausência, milhares e milhares de visitantes estrangeiros a bordo; muitas horas de navegação favorável, algumas de contratempos.
    O veleiro da Cruz de Cristo (que faz a singularidade das suas velas) chegou carregado de histórias, de pequenos heroísmos e de tantas saudades. Levou o nome de Portugal e testemunhos da nossa cultura às comunidades mais diferentes.
    SENO MARTINS 2ºMAR-CM-200782

    ResponderEliminar
  5. Olá Liliana, ainda ando "às aranhas" com tantas palavras novas!
    Olá Seno, não posso estar mais de acordo com o que escreveu!

    ResponderEliminar