segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

26 de Janeiro de 2010.



18º 17’.3N 020º 39.1W, dia 08, 23h50.

Tomo o pequeno-almoço com o Bruno e com o Dias Pinheiro, que vai entrar de quarto às 8h00. O Bruno diz-me que não há nada de monta a registar na enfermaria, agora que a vacinação se vai completando. Ainda não são 11h00 da manhã e já o cabo Leão me está a oferecer um gin. Agradeço, vou recusar e desisto. De manhã, é tempo de trabalho. É muito trabalho. Em Lisboa, não houve tempo para se fazer muito. A esta hora, a Sagres é um estaleiro que balança. Já se está a trabalhar para a chegada ao Brasil. Todos me dizem que nenhum outro tall ship se compara à Sagres. Em esmero, primor e apuro. Não vai haver uma ponta de ferrugem que não seja picada, um cabo enrolado que não esteja à altura dos outros, “amarelo” sem o brilho puxado, não vai haver madeira sem ser envernizada. Por todo lado se pode ouvir o berbequim que vai lixando as madeiras. Antes de ser uma embaixada, a Sagres é uma oficina manual. Fazem-se mais lanudos. No tombadilho, está-se a engaiar, percintar e a forrar cabos de aço. O trabalho só se completa com a baldeação. Os fuzileiros já fazem quartos como toda a gente e estão perfeitamente integrados no resto da guarnição. Quando não estão de quarto, estão a fazer exercício físico. “Um quarto” é a unidade de tempo da vida a bordo. “Estar de quarto” significa, na prática, estar de serviço. “Um quarto” é um turno de quatro horas para oito de descanso. É um descanso relativo, porque pode incluir as refeições, a formatura, uma faina geral de mastros ou exercícios de segurança ou tudo isto. Muita coisa, portanto. Mas a razão por que se diz “quarto” é que um quarto do total de efectivos da guarnição está de serviço. Mais duro ainda é a bordada, seis horas de turno para seis de descanso, o que significa que metade da guarnição está de turno. É frequente quando está mau tempo ou se entra numa regata. Lá fora, planeamos a nossa vida ao dia, à semana, ao mês ou ao ano. Aqui, o quarto organiza a vida por eles. Almoçamos pela primeira vez na câmara dos oficiais com o sistema de fixação de pratos e copos. Ontem, ia havendo “jorda” – a expressão não é minha – tal foi o balanço. Há também uma flâmula para o oficial que provoca no seu quarto a jorda maior numa refeição na câmara. Fala-se abundantemente dos oficiais da Marinha como condutores de homens. Suspeito que a expressão e o conceito que encerra, a liderança, originariamente militar, tenha passado para o universo empresarial nos anos 80, para agora regressar em força às forças armadas, na companhia de uma outra expressão de uso corrente entre oficiais: “visão estratégica”. Já na ponte, tenho um ataque de tosse.
- Tens que largar isso, diz-me o Eusébio do tabaco.
É fácil gostarmos do Eusébio. É grande e corpulento. Lá dentro bate um coração de manteiga. Passou a tarde a estudar a poesia de Cesário Verde para ajudar o Imperial dos Santos (grande nome) no seu exame de 11º ano. Ao lanche, pergunto ao comandante se ele não se cansa dos elogios do Oliveira. O Oliveira apressa-se a dizer que, em relação ao chefe, novo elogio, todos os elogios são poucos. Hoje foram distribuídas sandálias a toda a guarnição. A toda não, o cabo Farinha calça 47 e foi autorizado a comprar fora umas parecidas, no primeiro porto. À tarde, há um merecido descanso e jogos. Faço equipa com o Oliveira no Jogo do Burro, a malha da Sagres. Seis malhas de borracha e um tabuleiro inclinado, dividido em doze quadrículas, dentro das quais números abrem a branco sob um fundo preto. Chama-se assim porque há duas quadrículas diferentes de todas as outras. Em vez de números, uma tem a figura de um cavalo e a outra a de um burro. Quando a malha cai no cavalo, perdem-se os pontos da jogada, quando a malha cai no burro, perdem-se todos os pontos conquistados até então. A outra equipa foi duas vezes ao burro. Ganhámos apenas por isso. Jantar, beliche.

7 comentários:

  1. Boa noite! Ou Bom dia, dependendo de onde estão...
    Tenho vindo a acompanhar este blog de forma a tentar conseguir mais alguns pedaços soltos de informação em relação ao que se passa. O meu namorado está a bordo, conhecido neste post como "grande, corpulento e coração de manteiga". Foi uma excelente ideia terem criado outro canal de comunicação para além do blog escrito pelo Sr. Comandante, no site da RTP. Pelo trabalho de documentação, que funciona como um descanso para os familiares ansiosos, os meus parabéns! Continuem o bom trabalho.

    Tânia Flamino

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  2. Tenho acompanhado com interesse estes relatos, que nos fazem ter outra visão da vida a bordo. Só fazia uma pequena alteração: "a" Sagres, e não "o" Sagres. Embora seja "um" navio, a Sagres é uma barca e, pelo menos na Marinha, é do género feminino.
    Continuação de bons ventos.

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  3. E o mar? Assusta? Descansa?
    Essa paisagem mutante e constante...e o mar?

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  4. A todos os militares da briosa que seguem a bordo da barca, que Poseidon vos conceda a sua graça e que Neptuno vos confira toda a sua deferência. Que Zeus vos seja benevolente, seja qual for o oceano em que naveguem não permitindo que Eurus vos incomode.
    Não será necessário frisar a honra que é navegar com as cores nacionais a adejar à popa, nem tão pouco o pundonor que é levar a cruz nascida da Ordem Soberana e Militar dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão que matizam em todo o seu esplendor o pano da "Sagres", tal como à séculos atrás diferenciavam as caravelas lusitanas pelo mundo.
    Ao Sr. Comandante, cai-lhe sobre os ombros a boa fortuna da guarnição e do navio, pesado fardo bravo Sr. e que seguramente o fará com boa ventura. Jamais se esqueça insigne Comandante, o Navio Escola é o mais distinto navio da Marinha de Guerra Portuguesa, o melhor veleiro do mundo.
    Usei o alcaixe com orgulho e como todo o marujo que navegou neste sempiterno emblema nacional que é a “Sagres”, não vos posso desejar com todo o coração e grandeza de alma uma boa jornada pois parte desse órgão torácico que me late no peito e essa que é a representação da consciência, caráter e sentimento ficou de maneira perenal por entre as anteparas da barca.
    Camaradas, espero com toda a lhaneza, que a Pátria vos volte a ver a todos intácteis e que o saudoso abraço dos vossos entes queridos vos receba como os verdadeiros embaixadores que são deste Portugal cujos montes Viriato calcorreou, fronteiras que São Nuno de Santa Maria defendeu e feitos que Luis Vaz cantou.
    “A PÁTRIA HONRAE………”

    Ex 2ºMar “L”
    Armando Moreno
    (L5)
    armo900@gmail.com

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  5. O que eu já aprendi por aqui, Nuno... Especialmente que é extremamente enriquecedor viver numa comunidade que trabalha para um só fim, onde o contributo de cada um é peça fundamental para o sucesso individual e para o colectivo, incluindo o brio em cada pequeno gesto. Não aprendi. Revivi...

    Mando beijos
    daqui de terra, para ti e para todos

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  6. O jargão da Marinha deve ser um belo desafio a vencer. Propostas de Gin às onze da manhã, deixam o pessoal em terra ainda mais a sonhar com as maravilhas da viagem...

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  7. Olá a todos. Tânia é de facto um enorme coração. Maria, está coberta de razão. Aceite as minhas desculpas e está feita a correcção. Brito, a Sagres é de facto especial. Descansa, Bloca, o mar descansa (pelo menos este que temos apanhado!). O jargão da Marinha é um belo desafio. O gin às onze, também, Sofia.

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