quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

27 de Janeiro de 2010.



16º 30’.8N 021º 22.9W, dia 09, 23h50.

O dia nasce com a Sagres a 100 milhas de Cabo Verde. Não há vento. O pano vai ser carregado de tacada, isto é, recolhido de uma só vez, o que requer muito trabalho e coordenação. E não pode ser feito sem a coragem física daqueles homens – muitos são ainda miúdos de pouco mais de vinte anos – que vão diminuindo de tamanho à medida que galgam as enxárcias e se equilibram nos braços dos mastros. De manhã, continua-se a lixar as madeiras da balaustrada e a fazer pinturas. O barulho do berbequim chega a todo o lado. Há um ou outro aviso de “pintado de fresco”. Ao almoço, os oficiais recordam os tempos da Escola Naval. “Escola”, “meu escola”, “escolinha”, “meu velho”. É assim que se referem aos camaradas do mesmo ano. É assim que o Oliveira se dirige ao Pinto Ferreira, é assim que sargentos falam com sargentos, e praças com praças. Entre oficiais de cursos de diferentes anos, podem os mais velhos optar por “dar a volta” aos mais novos. “Dar a volta” não é mais do que permitir um tratamento por tu, nunca antes de praxar condignamente o subalterno. “Dar a volta” é diferente de “dar volta”, que é o que se diz quando, depois de marear as velas se prende o cabo (e não a corda) à volta do cunho. “Malagueiro” é sinónimo de mar alteroso, e podia continuar. Aqui, fala-se uma língua própria, cuja riqueza não se resume à mera junção dos muitos termos náuticos existentes com alguns acrónimos da organização (serviços, funções,…) militar. Não. Esta é uma língua viva que é entretecida com a participação de todos e que todos os dias é levada para casa e posta em contacto com as famílias dos marinheiros, dialogando assim com o “português civil.” De forma semelhante à da expressão “ir ao maneta”, surgida aquando das Invasões Francesas – como explicou o Vasco Pulido Valente no seu livro com o mesmo título – também o “meu”, forma reduzida de “meu sargento”, “meu capitão”, “meu coronel, dá licença”, veio da guerra colonial para Lisboa. Eu, por exemplo, já não vou largar o verbo “enfegar”. “Enfega” é todo aquele que obstrui de uma forma maçadora, que mói o juízo ou a “pinha” sem aparentemente precisar de uma razão para o fazer, e “enfegar” é o verbo correspondente. Todos conhecemos pessoas que esta palavra, e só esta, descreve na totalidade. Durante a refeição, continua a picardia saudável entre os oficiais de classe marinha, os navegadores, e os auxiliares, todos os outros, em especial, o Gaspar e o Oliveira, engenheiros e o Pinto Ferreira, da administração naval, para quem os navegadores enfegam as suas carreiras. Mal comparado, porque não acontece de uma forma tão vincada, os navegadores estão para a Marinha como os pilotos estão para a Força Aérea. Às 16h00, futeconvés. Os oficiais ganham aos fuzileiros a sua primeira partida do campeonato, 5-3, da manha sobre a força. Os oficiais jogam sempre fora de casa. Pendurados nas enxárcias, de pé no castelo, por todo o lado, a guarnição desforra-se, apoiando invariável e ruidosamente a outra equipa, qualquer que ela seja. Marco um golo, casualmente (o que eu fui fazer). Novo duche. Subo ao tombadilho. Alguém chama a atenção, apontando para o mar. Vemos peixes-voadores a 30 metros do navio. O Sousa Luís brinca perguntando se em relação a um grupo destes se deve dizer:
- Cardume ou bando?
No fim do dia, há o jantar de apresentação do Sousa Luís à Câmara dos Oficiais. O Sousa Luís é novo na Sagres. Como todos os oficiais que fazem o seu primeiro embarque no navio, oferece um jantar aos que já cá estavam. No tombadilho é servido um aperitivo acompanhado de uns canapés. Todos os oficiais estão presentes, excepção feita ao Gaspar que está de quarto. Estão fardados de branco, literalmente, dos pés à cabeça. Sapato, meia alta, calção, camisa e boné, brancos. Apesar da impressão que dizem causar no sexo oposto, não é bonito de se ver. É a sua farda para climas tropicais, que em Lisboa não se usa e que, imagino, é ainda um resquício dos tempos das colónias. Brindamos e esperamos pelo raio verde, o último raio do Sol. Comecei por pensar que se tratava de uma brincadeira. Vejo-o. Quando o céu está completamente limpo, a luz emitida pelo Sol, amarela no momento imediatamente antes de desaparecer, é refractada pelo azul do mar. Da forma igual à que a água da chuva quando atravessada pela mesma luz do Sol nos faz ver o arco-íris. É um breve instante, um único raio, verde. À noite e depois de uma faina de quarto, vou para os copos com os praças. Com o Belo, com o Castro, com tantos outros. Verdadeiros heróis que, acabada a faina, estão prontos para a festa. Verdadeiros Cortos Malteses, de carne e osso.

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