Finalmente, terra. O Recife não é Salvador da Baía, cidade para onde a Sagres e os nossos espíritos se dirigiam e que falhámos, por falta de lugar no porto. A cidade do Recife não é, por maioria de razão, o Rio de Janeiro, cidade que foi, a páginas tantas, pensada como alternativa a Salvador, e que é, apesar de tudo, a mais bonita que vi em toda a minha vida. Sem sombra de dúvida. A cidade que à noite é, como se diz, um presépio. A cidade que, mesmo quando a luz do dia põe a imensa miséria dos morros a descoberto, não deixa de ser, ainda assim, a “cidade maravilhosa”. Cidade-adjectivo. Uma geografia acidentada e vegetação luxuriante que se precipitam para o mar, para o recorte único das suas baías e ilhas, que a mão do homem não consegue perturbar (nunca faltaram lugares-comuns para um sítio tão invulgar). O Recife não é o Rio e não é também a cidade que os folhetos promocionais e turísticos, de produção fotográfica irrepreensível e completamente enganadores, como viemos mais tarde a descobrir, mostram. O Recife é a cidade que nos calhou em sorte e mais vale tirar todo o proveito de toda a cor, cheiros e alegria que nos tem para dar. Terra é terra e esta, que se prepara para o Carnaval, não irá ser injusta com a guarnição. O porto fica no Bairro do Recife, o primeiro da cidade. Este porto, apesar dos seus edifícios em ruínas e da ferrugem que grassa nas suas gruas, é autêntico, já é cidade. É o que é e não o esconde. Não é como os aeroportos das grandes cidades que, iguais em todo mundo, nos fazem acreditar que chegamos ao local de onde partimos. As mesmas hospedeiras nas mesmas fardas e lenços repletos de motivos, o mesmo ar condicionado, os mesmos dois toques que precedem avisos sonoros, o mesmo chão enorme que espelha luz. Locais pasteurizados, feitos com um sono anónimo, de passagem. De pressa ou de uma espera estúpida, que nos obriga a reparar que as plantas, as luzes, os luxos e os tectos são falsos e não souberam envelhecer. 16h30, saímos da Sagres, atravessamos o porto, de onde podemos entrever a arquitectura colonial do bairro antigo, e vamos a pé ao shopping mais perto. Passamos pelo Forte do Brum, que nos faz lembrar as lutas que no século XVII travámos com os holandeses pela posse da que, à época, era uma das mais prósperas capitanias hereditárias, e atravessamos muita pobreza para enfim tomar um chopinho no Shopping de Tacaruna. Há um sem-fim de empregados por loja, evidência de baixos salários.
- Oi - sinalizam que não perceberam o que dizemos para, uma vez entendida a mensagem, acrescentarem – Com certeza – vincando o “r”.
22h00, jantar de oficiais, todos menos o oficial de dia, num rodízio junto à praia da Boa Viagem, que fica na outra extrema da cidade, oposta àquela onde a Sagres está fundeada. O Sousa Luís, reparo agora, ainda me pede desculpa quando diz uma asneira (na minha presença). Acabamos o dia com um passeio na marginal da praia, onde podemos ver, a cada 150 metros, avisos que alertam para a existência de tubarões para lá da parede de recife que corre paralela à praia, e que explica o nome da cidade. 1h30, de regresso à Sagres. Com muitos dias de férias em atraso, 40, 50 e até mais de 60, este fim de dia soube a férias.

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