segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

05 de Fevereiro de 2010.



03º 56’.6S 029º 58.6W, dia 18, 23h40.

O dia nasce bonito. Quando saio para o convés, vejo as primeiras aves, albatrozes, sinal de que já não estamos longe de terra. As cabeças já estão no Brasil. Vagueio por ali, impaciente, do poço para o tombadilho, do poço para o castelo. Dois dedos de conversa, aqui e ali. Na padaria, na enfermaria. E na central L.A. Esta é um pequeno gabinete – aqui tudo é pequeno – com dois computadores. Lá dentro, o Almeida joga uma paciência e o Perfeito fuma um cigarro à porta.
- LA é de limitação de avarias, é uma equipa que está permanentemente de piquete para os casos de rombo, alagamento ou incêndio – diz-me o sargento Perfeito. E eu penso “este homem tem o nome certo para a sua função”.
- Na semana passada, vimos um frigorífico a boiar. Em função da velocidade ou do ângulo de embate, poderia ser o suficiente para abrir um buraco. Na viagem do ano passado, vimos um sofá. Vê-se muito lixo, muita tralha, coisas que não te passam pela cabeça – conclui, abrindo os braços.
Objectos que na Sagres nunca se pensou deitar ao mar, mesmo antes de ter conquistado a bandeira azul a 26 de Maio do ano passado, pelas suas boas práticas ecológicas. Aqui, todo o lixo é separado, como o fazemos (ou devíamos) em casa. Vidros para um lado, papel para outro. Plástico para um lado, pilhas para outro. Lixo que só sairá do navio no próximo porto, devidamente acondicionado para a reciclagem. Só os restos de comida vão para a água e apenas depois da autorização do oficial de quarto. Mas o compromisso que a Sagres firmou com a ABAE – Associação da Bandeira Azul da Europa – não se esgota na prosaica separação do lixo. Por exemplo, a Sagres “não pode adquirir ou usar objectos feitos a partir de espécies protegidas ou provenientes de achados arqueológicos”, lê-se na convenção assinada pelo comandante e os responsáveis da bandeira azul, que está exposta no corredor de acesso à câmara dos oficiais. Hora de almoço. O Oliveira, contente como sempre, oferece uma garrafa vinho à câmara para comemorar o aniversário da sua mulher. O Pinto Ferreira continua a dieta, em cujo resultado já só ele acredita, pelos comentários de todos os outros oficiais, sem excepção. Ele, que trouxe uma bicicleta de ginásio para o seu camarote, em relação à qual confessa com um sorriso de normalidade:
- Desde que partimos, já fiz mais de 15 minutos.
O Bruno vai passar a tarde no camarote a preparar a sua palestra para amanhã. Vai falar sobre Medicina do Viajante, dando a toda a guarnição conselhos práticos sobre os comportamentos de risco que se devem evitar no próximo porto. Vou jantar com os sargentos à sua câmara. É sempre bom jantar com os sargentos. O sargento Coelho trouxe do Alentejo uma peça de veado que foi confeccionada na cozinha para todos. No fim do jantar, à volta de uma Chancela, falamos de política, do país e do mundo. Se o Cavaco pode ou não mandar o governo abaixo e se, para o fazer, precisa de dissolver a Assembleia, se basta demitir o governo, e quando o poderá fazer, dúvidas prontamente esclarecidas pelo sargento enfermeiro que vai buscar um muito sublinhado Código Civil. Já no poço, no fim da noite, o cabo Leão chama-me à parte. Oferece-me o seu Zippo. De um lado, tem gravado o desenho da Sagres e do outro, o seu nome “Cabo L Leão” e a insígnia da sua especialidade – despenseiro -, um cavalo marinho dentro de um losango. Um Zippo que já fez muito mar. Sem muitas palavras, trocamos um abraço e ele vai-se deitar. Depois de esforços aturados do Dias Pinheiro, do Sousa Luís e do Rui Pedro ao longo de três noites consecutivas, já consigo distinguir com alguma facilidade o Cruzeiro do Sul. São quatros pontos luminosos que vão girando sobre si próprios à medida que cruzamos o mar e que antes eram imprescindíveis para navegar neste hemisfério. Agora, está lá em cima apenas para nosso deleite. Não é pouco.

1 comentário:

  1. Gostei de saber que se recicla a bordo, algo em que ainda não tinha pensado, mas que, logicamente, só assim podia acontecer... Triste é saber do lixo que se vai encontrando por esse mar fora, capaz até de provocar estragos importantes.
    A oferta do Zippo comoveu-me. É de momentos assim que é feita a vida a sério... E da partilha da memória dos que nos são queridos, como fez o Oliveira.

    beijos para todos

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