01º 39’.5N 025º 23.7W, dia 15, 23h55.
Acordo tarde. São 8h37. A mesa do pequeno-almoço na câmara já foi levantada e, lá fora, o dia de trabalho já começou. Todos são agora pintores. Todos têm uma trincha ou um pincel nas mãos. Pelo chão, há latas e latas, pequenas e grandes, de tinta branca, preta e verde anti-ferrugem, em cima de oleados e sarjas grossas. Já não se colocam avisos “Pintado de Fresco”. Não vale a pena. O convés foi pintado por inteiro. Vou até à messe dos praças onde bebo um café. Um café de máquina, o melhor a bordo. Entre os oficiais, há uma nova rotina que se intromete entre o pequeno-almoço e a formatura. Trata-se do briefing meteorológico e de navegação, que está agora a decorrer na sua câmara. Colada ao briefing, há uma nova reunião sobre a modernização da Sagres, para fazer após a viagem. Identificam-se os problemas mais prementes tendo em consideração a missão da Sagres, sem se perder de vista alguns dos princípios básicos de arquitectura naval e os constrangimentos e limitações próprios do navio, a saber: idade, dimensão, etc. Um quebra-cabeças. A câmara dos oficiais é agora uma sala de reuniões de hotel de aeroporto, que são iguais em todo o mundo. No plasma, corre um powerpoint com informações sobre o porto e país de destino. Ao lado, num quadro branco, está um diagrama do navio, com a planta dos seus cinco níveis. À volta da mesa, em vez de fatos, fardas, em vez de antracite, azul.
Ao almoço, na câmara dos oficiais, só há um assunto: a chegada a bordo do Rei dos Mares. Rimo-mos, mas há no ar uma mal disfarçada tensão. À tarde, os preparativos para logo à noite concorrem com as pinturas e restantes trabalhos. No poço, começa-se a montar uma improvisada piscina e na ponte colocam-se os espelhos nas balaustradas. Vai-se ao pormenor de passar a cabeça dos parafusos pelo berbequim da lixa. É de doidos. Há arrufadas ao lanche e um peixe cozido ao jantar. Às 22h27, cruzamos o Equador. 00º 00’.000 N/S, latitude zero, acusa o GPS na ponte. Mudámos de geografia, entramos no Verão. A Sagres apita variadíssimas vezes. Ousamos profanar as águas de Neptuno. O marinheiro mais marreta, o mais novo a bordo (tentei argumentar junto de todos que era eu, sem sucesso), é levado até à proa, onde, com uma enorme tesoura, corta a linha do Equador. Praticamente, toda a guarnição está agora na proa. Canta e salta. Abrem-se as mangueiras com que todos vamos ser regados. Aguarda-se a todo o instante a chegada a bordo do Rei dos Mares e de toda a sua corte. Esta é composta pela sua Ninfa, pelo Diabo, por um Almirante e o seu Ordenança, por um Cardeal e pelos Escravos, que, libertos do navio, provam que havia escravatura a bordo. Quando, uns instantes depois, Neptuno chega a bordo para tomar posse do navio, dá imediatamente ordem de prisão ao comandante. Todos os que nunca antes cruzaram por mar o Equador vão ser praxados, em especial, não é difícil imaginar, os oficiais (por mais vezes que atravessem a linha do Equador, serão sempre praxados). Cumpre-se uma das mais antigas - e carnavalescas - tradições navais. O que aconteceu neste navio na noite de hoje, morre neste navio na noite de hoje (se tivesse que levantar uma ponta do véu, seria apenas para dizer que também na praxe, o Oliveira voltou a concentrar as atenções).

Nuno,
ResponderEliminarAcho deliciosa essa cumplicidade que não deixa passar para fora o que deve permanecer só vosso.
Tentaste ser tu a "cortar o Equador", confessa!
(Também eu queria, deixa lá.) Como não pôde ser, é um facto que também não foste praxado, certo?
Cumprimentos ao Oliveira
e um beijo para ti
Certo, certissímo, nada há de mais certo,aliás! bjs, nuno
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