03º 38’.5N 025º 13.7W, dia 14, 23h50.
O tabuado do convés está molhado.
- Choveu toda a noite – dizem-me.
Irá secar muitas vezes durante a manhã. Estamos a aproximadamente 150 milhas do Equador. À nossa frente está um aguaceiro. Mudamos ligeiramente de direcção para o evitar. O azul do mar está mais escuro. Sobre o horizonte, há um céu claro que vai subindo até ficar chumbo. Almoço na câmara dos oficiais. Bacalhau, como é costume todas as segundas-feiras, ninguém sabe explicar, já ninguém se lembra porquê. Quando o Oliveira se cala, é o silêncio. Uma vez mais, monopoliza com graça toda a refeição. Fazemos um brinde ao guarda marinha Dias Pinheiro, que hoje de manhã foi certificado para poder conduzir o navio à noite como oficial de quarto. A messe dos praças foi hoje toda pintada. Enquanto lá bebo um café, penduram novamente os quadros e as crestas nas paredes. À tarde, os fuzileiros fazem uma plataforma de tiro. Três tábuas pregadas com um alvo na extremidade que irão amarrar ao barco para mais um exercício de tiro. Eles não param quietos. Não percebo se é disciplina, impaciência, ou as duas.
- Todas as pessoas da organização do Rei dos Mares devem dirigir-se à messe dos praças - pode ouvir-se nos altifalantes.
Levantou-se um pouco de vento. 16h40, Faina Geral de Mastros. É a vez do Oliveira, é ele o oficial de quarto que comanda as manobras. É a sua voz que se ouve nos altifalantes, são as suas ordens que o mestre Meireles vai transformar em apitos – por sua vez repetidos pelos mestres de cada um dos três mastros - que levarão os “manobras” a executar as manobras.
- Braços do traquete e do grande a estibordo - ouço no meu camarote.
Passados uns dez minutos, nova ordem:
- Adriças das gáveas altas. – E um minuto depois – Iça.
A cada nova ordem, ouço os homens e os cabos que correm por cima de mim.
- Safa cabos – continua.
A seguir à faina, os trabalhos continuam. Pinturas. Em regra, tudo o que possa sinalizar os acessos ao interior do navio – degraus e corrimãos das escadas, por exemplo - é pintado de verde, a estibordo e de encarnado a bombordo. Desce-se e entra-se pelo verde, sai-se e sobe-se pelo encarnado. Os fuzileiros continuam o seu treino, agora no castelo. Boxe e levantamento de pesos, fazendo lembrar o pátio de uma prisão das que vemos na televisão. Jantamos. O Gaspar diz-nos que a osmose produz quase mil litros por hora.
- A água do mar está um caldo, o que ajuda.
Cumpriu-se mais um dia. QRU 73 AR. “QRU” quer dizer “não tenho mais serviço para si” em código morse internacional, “73” significa “cumprimentos” e “AR”, “terminado”, em linguagem telegrafista, como me ensinou o Cabo CRO Cândido, o radiotelegrafista da Sagres. Haverá um número para “Um abraço”? 73 AR.

(Este post refere-se a 1 de Fevereiro, certo?)
ResponderEliminarAchei piada à hipótese de nos podermos desviar de um aguaceiro... (adorava experimentar) e à quantidade de sessões de pintura que por aí acontecem... Estou a precisar de umas pinturas cá em casa. Depois da viagem, arranjam-se pintores? LOL
73 AR
e beijos (como enviá-los em código?)
Muito obrigado pelas suas crónicas, uma visão muito interessante de um "paisano", que se apercebe por vezes de situações em que nós, na Marinha, habituados a certas regras e às rotinas de bordo, não reparamos.
ResponderEliminarSó agora li a crónica referente ao dia 1 de Janeiro. A questão da tradição do bacalhau à 2ª Feira tem, como quase todas as tradições na Marinha, uma origem prática, neste caso em terra. No fim-de-semana o pessoal normalmente está de folga, e à 2ª Feira antigamente, pelo menos, não havia praça - e os grandes supermercados não existiam. Pôr bacalhau de molho não é difícil, qualquer pessoa o faz. Assim, com o bacalhau consegue-se, com relativa facilidade e sem grandes preparativos anteriores, confeccionar em poucas horas o almoço de 2ªFeira.
Um abraço, continue com as suas crónicas.
No comentário anterior mencionei 1 de Janeiro, que é o que vem no post, mas de facto seria 1 de Fevereiro, conforme alertado no primeiro comentário.
ResponderEliminarMuito obrigado, caro Luís, pelo seu esclarecimento. Um abraço, nuno melo da silva
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