quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

31 de Janeiro de 2010.



06º 50’.8N 025º 12.8W, dia 13, 23h40.

Alvorada surda. Acordo tarde como grande parte da guarnição. Hoje, sou informado que o almoço dos oficiais vai ser na camarinha do comandante.
- É domingo e quis que nos pudéssemos reunir - apenas nós - antes das recepções oficiais que aqui neste espaço serão oferecidas. É também uma forma de retribuir e agradecer por me acolherem todos os dias na vossa câmara – diz-nos antes do almoço, para de seguida acrescentar - Evitando assim que o vosso comandante sofra de solidão.
Sai a baixela, os “f” e os “r”. A partir da copa da camarinha, o Carvalhosa, discreto como sempre, garante que nem no melhor pano cai a nódoa. A seguir ao almoço, vou à Padaria. Vou conhecer o homem que faz o pão que todos os dias comemos e, no meu caso, pecando por gula. Chama-se Cristo, abençoado seja. Terceiro jogo dos oficiais e primeira derrota no campeonato de futeconvés. Perdemos 2-0 com os taifas, os homens que nos servem à mesa. A perder com alguém, que fosse com eles. O Sané, que foi pai no decurso da última viagem, é o homem do jogo. Dedica a vitória à Mariana, que tem agora sete meses. Constatamos ser especialmente útil ter nestes jogos um médico na equipa. À noite, vou com o Pinto Ferreira jantar com a sua equipa dos despenseiros. É, a seguir aos “manobras”, a segunda maior a bordo. São eles que preparam, cozinham e servem as cinco refeições diárias aos 147 elementos da guarnição. A sua é uma tarefa ingrata. O seu trabalho deve ser invisível, só se nota quando algo falha. E quando se nota, toda a gente falha. Ninguém trabalha de barriga vazia. Para correr mal, basta um produto estar deteriorado, uma quebra num único mantimento ou um ligeiro atraso. Há na Marinha uma tradição de bem comer, sobretudo, quando se está embarcado, o que aumenta a exigência. E lembram-me:
- A Sagres é uma embaixada, aqui já servimos presidentes. Só nesta viagem vão ser mais de vinte recepções oficiais – conta-me com orgulho o cabo Cunha. O cabo Alves, o sargento Batista e o chefe de cozinha Ferreira assentem com a cabeça.
A seguir ao jantar, visitamos as três câmaras de frio. Explicam-me como fazem face à curta duração da fruta e dos verdes e como em espaços exíguos cumprem, ainda assim, todas as normas de segurança alimentar. Passamos aos paióis onde bebemos um whisky em cima de caixas de mantimentos. Falamos de tudo, da economia e da pouca-vergonha que aconteceu com os bancos, falamos do país e voltamos à alimentação. Contam-me como é cozinhar com o navio adornado. Contam-me como na regata do ano passado, de Halifax a Belfast, se trabalhou em condições particularmente difíceis. O navio chegou a estar adornado a 35º, fazendo as baleeiras (que estão à altura da ponte) tocar na água. Para não escorregar na cozinha, deitaram sal grosso no chão. E no final da viagem foi necessário colocar cunhas no fogão porque este simplesmente se soltou.
- Mas não foi por isso que alguém deixou de comer.

1 comentário:

  1. Ai, Nuno, nem imaginas como gosto de sentir a união de um grupo que enfrenta e ultrapassa sérias dificuldades...

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