sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Margem interior, um.
Hoje, tive uma recaída. Reincidi no seu uso. Fui dos últimos a abandoná-los, tenho disso perfeita consciência, até porque alguns amigos faziam questão em mo lembrar recorrentemente: “que era uma coisa de betos”, “que era uma coisa anacrónica”. Dizia-lhes que sim, várias vezes por dia, indiferente. Houve um primeiro afastamento quando comecei a trabalhar, mas sempre que podia, ao fim do dia ou de semana, regressava a eles. Quanto mais usados, melhor. Até que, um dia, acabaram por sair da minha vida. Não foi fácil, nada fácil. Davam com tudo, davam para tudo. Às tantas, já nem se pensa. Usa-se e ponto. Era uma coisa mecânica, o que dá um enorme conforto. A verdade é que não precisei de comprá-los para os trazer comigo nesta viagem, ainda tinha uns escondidos lá em casa. Colaram-se aos pés da minha geração. Viam-se muitos na Nauticampo, a Nauticampo da corrida desenfreada pelos autocolantes, de stand em stand. E daqueles chapéus de papel com pala, que eram oferecidos em plano, com estrias na nuca e que uma vez postos deixavam passar o cabelo. Estávamos em meados dos anos 80, antes do Cavaquismo e das Cetelemes. Podias não comprar a tenda, a mochila ou a prancha e muito menos o barco. Mas tinhas uns. E os autocolantes. Houve uma altura em que toda a gente os tinha. Era um tempo em que tudo era mais simples: éramos todos da mesma tribo e o bullying era apenas porrada que o “canina” dava no gordo. Desconfio que a maior parte nunca pisou o convés de um barco. Saíam da antiga FIL directamente para a calçada. Era um tempo em que os betos de Lisboa imitavam, com uns anos de atraso, a elite da costa este dos Estados Unidos, em que parecia que a Católica se tinha juntado à Ivy League, em que a “Linha” era um sucedâneo de Cape Cod. Era um tempo em que, política e socialmente, estávamos a sair do armário, pela segunda vez em poucos anos, e metade do país chorava ainda Sá Carneiro, como a América inteira tinha chorado Kennedy. Os meus são – sempre foram – de cabedal castanho, com pesponto em linha castanha e sola rasa castanha. E claro, com os atacadores a darem a volta ao calcanhar e a trespassarem ilhoses de latão. Era o tempo dos sapatos de vela.
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Que maravilha, dar-lhes uso ao fim de tanto tempo para aquilo que servem. E a bordo podem usar solas castanhas?? :))) Boa viagem.
ResponderEliminargrumete Nuno, tenho seguido a tua reportagem com muita atenção e inveja ... essa dos sapatos à beto certamente foi marcante, e para não passares humilhações, como estamos de 'Lais de Guia' ou na sua variante holandesa? sempre compensavas uma coisa com a outra :) grande abraço e vai dizendo, Luis
ResponderEliminarO meu marido é um dos marinheiros que faz parte da guarnição do navio. Por vezes estou mais de um dia sem falar com ele, o que nos dias de hoje é estranho com as formas de comunicação que existem. É bom saber que aqui posso ter noticias da viagem. Obrigado pelos vossos posts que são fantásticos.
ResponderEliminarBoa viagem
Marta Horta
Tambem o meu marido faz parte da guarnição do navio, criou um blog para partinhar a viagens com familia e amigos, e com muito gosto que tambem vos irei acompanhar.Boa viagem.Isabel vieira.http://narotadasagres.blogspot.com/
ResponderEliminarGrande Nuno, mar e terra duas realidades distintas mas que se complementam, pelo menos para quem tem alma portuguesa. Aqui em terra os dias de sempre aí no mar a minha inveja por essa viagem. Mais, pela hipótese de evasão, onde a dimensão e profundidade do oceano nos fazem sentir libertos. Vou seguindo a tua escrita. Gosto do estilo. Grande abraço terrestre.
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