sexta-feira, 16 de abril de 2010

E o feliz contemplado é...

...João Manuel de Sousa Pimentel, a quem endereçamos os nossos mais sinceros parabéns e votos de Bons Ventos!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Informação.

Na sequência dos trágicos acontecimentos que recentemente assolaram o Chile, as datas e o local de fruição do prémio da Promoção “Euromilhões - A Sorte Protege os Audazes” foram alterados. Desta forma, o prémio, que, inicialmente, consistia numa viagem ao Chile para participação numa das etapas da 3ª viagem de circum-navegação do navio-escola Sagres, no percurso “Talcahuano-Valparaiso”, foi alterado para uma viagem de 11 dias ao Peru e Equador*, incluindo, naturalmente, a navegação a bordo do Navio-escola Sagres ao longo da Costa do Pacífico, agora no percurso “Callao (Peru) – Guayaquil (Equador).
Em consequência, o prazo para concorrer à promoção foi igualmente alterado:
até 30 de Março ainda pode concorrer!
Para o fazer, já sabe: basta adquirir um bilhete do Euromilhões com um mínimo de 5 apostas + Joker nos pontos de venda habituais Jogos Santa Casa, juntar o talão de caixa comprovativo da compra ao cupão devidamente preenchido e habilita-se, assim, a esta Excêntrica viagem.
Por uma questão de agenda, Miguel Lacerda não embarcará na Sagres, no período entre 20 de Março e 15 de Abril, como estava previsto.

*
29 de Abril – estadia de 1 (uma) noite em Lisboa;
30 de Abril – transporte do hotel para o Aeroporto de Lisboa e partida com destino a Callao (Lima - Peru);
30 de Abril e 1 de Maio – estadia de 2 noites nesta cidade;
2 de Maio – embarque no Navio Escola Sagres, no Porto de Callao, para participação numa etapa do percurso do evento “3ª Viagem de circum-navegação do Navio Escola Sagres” a bordo do referido Navio, com chegada prevista a Guayaquil (Equador) no dia 07 de Maio de 2010;
07 de Maio – chegada do Navio Escola Sagres ao Porto de Guayaquil (Equador) e estadia de 1 (uma) noite nesta cidade;
08 de Maio – saída do Aeroporto de Guayaquil (Equador) com destino a Lisboa;
09 de Maio - chegada ao aeroporto de Lisboa (não inclui estadia nem transportes no dia de chegada).

Estas datas poderão, por motivo de força maior, ser sujeitas a qualquer modificação.

terça-feira, 16 de março de 2010

Recife, 12 de Fevereiro



Dia 25, o último dia.
São 19h50, véspera do Carnaval. Já é noite e a minha viagem está perto do fim. Apanho um táxi para o aeroporto. A deslocação demora mais do que seria normal. Por esta altura, calcula-se, mais de dois milhões de foliões estão rua, dirigindo-se para o centro da cidade. Dentro do táxi passa uma canção cujo refrão é, aqui e ali, gritado lá fora:
- Oi pessoal, oi moçada, aí vem o galo da madrugada!
O galo, um galo gigante que, ao entrar na cidade na próxima madrugada, dará início a uma festa que já começou há dias, que verdadeiramente começa na sua preparação.

São 16h10. É uma tarde de um Verão rigoroso, igual a tantas outras. A sombra do hotel e as dos outros prédios da marginal de Jaboatão dos Guararapes está no mar. E irá crescendo à medida que a tarde for avançando de encontro a essa sombra maior, a noite. Passo em revista alguns dos apontamentos dos últimos dias para este caderno de viagem. Sinto-me verdadeiramente agradecido. Fui recebido por todos, do comandante Proença Mendes ao capitão (alcunha pela qual é tratado o marinheiro mais novo) acima de toda e qualquer expectativa. Primeiro, com deferência e depois, muito rapidamente depois, com um genuíno carinho.

São 6h30. O sol já nasceu. Acordo cedo para evitar o trânsito ou qualquer contratempo que me possa fazer perder a partida da Sagres. Estou praticamente sem dormir. O hotel onde passei esta noite fica a 50 minutos de distância da Sagres, a andar bem. Quando chego a bordo, sou conduzido à camarinha onde o comandante e o imediato se despedem de mim, depois de, muito gentilmente, me oferecerem um presente do navio. Um por um, despeço-me de todos os elementos da guarnição. Tento, espero, não me esquecer de ninguém. Os pilotos brasileiros chegam a bordo para ajudarem o navio a sair do porto da cidade e a banda da Escola de Aprendizes Marinheiros de Pernambuco começa a tocar. A Sagres parte. Vai-se afastando. Deixo de conseguir reconhecer os rostos dos meus camaradas. Mordo os lábios para não chorar. Até sempre, camaradas.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Recife, 11 de Fevereiro.



Dia 24.
Parecem miúdos. Cansados, de calções e com as t-shirts sobre os ombros ou à volta do pescoço, regressam à Sagres em pequenos grupos, dois a dois, três a três, à conversa. Há um que traz uma bola debaixo do braço. Acabou o Sporting-Benfica, combinado ainda no mar. O clássico entre os rivais da Segunda Circular foi jogado no campo da capitania. Também no Recife, o primeiro milho foi dos pardais. Literalmente. E assim se passou uma manhã. À tarde, vou a Olinda na companhia do Bruno, do Eusébio e do Sousa Luís. Olinda é uma pequena e muito bonita cidade. Joaquim Cardoso, poeta e dramaturgo, que aqui teve a sua última residência, fixou-a assim: “Olinda / das perspectivas estranhas / dos imprevistos horizontes / das ladeiras / dos conventos e do mar / Olho as palmeiras do velho seminário / o horto dos jesuítas / E neste mar distante e verde, neste mar / numeroso e longo / ainda vejo as Caravelas”. Aqui, a visão sobrepõe-se a todos os outros sentidos. Ou, nas palavras do poeta pernambucano Carlos Pena Filho: “Olinda é só para os olhos / Não se apalpa, é só desejo / Ninguém diz: é lá que eu moro / Diz somente: é lá que eu vejo”. A sua beleza não ilude. É um conjunto arquitectónico único, envolto no verde da vegetação que cobre as encostas, debruçadas sobre um mar também verde e que está aos seus pés. Olinda ou Ó linda, como lhe chamou quem, pela primeira vez, viu aquele verde (da mesma forma que, numa versão popular, Queluz deve o nome a uns caçadores que, ao regressarem já de noite a Lisboa e avistando uma luz, perguntaram: “Que luz é aquela?” Que luz, Queluz.). A cidade, declarada Património da Humanidade pela Unesco em 1982, já está mascarada apesar de, oficialmente (?!?), o Carnaval só começar daqui por dois dias. E perde o receio do ridículo e da chacota, que no Carnaval caem exactamente em quem quer ou se deixa ficar sério. Por esta altura, tudo fica suspenso, as misérias, as dores e os problemas. A rotina dá lugar a um impulso, um transe, essa pulsão que empurra toda a gente, rua abaixo, rua acima, atrás do bloco carnavalesco do seu bairro, ao som do fevro. Basta ouvir, basta sentir o seu ritmo, deixá-lo entrar na cabeça para a esvaziar, permitir que tome conta dos sentidos, um a um, que contagie os membros dormentes do corpo até chegar ao pé. Aqui, dizem, é o Carnaval mais multicultural, mais democrático do mundo. Um Carnaval que não cabe nem se confina em sambódromos. Um Carnaval feito na rua, que é de toda a gente, que não é para ver, que é para pular e brincar. Até porque, como diz a canção do Chico Buarque, “não existe pecado do lado de baixo do Equador”. No fim da tarde, regressamos à Sagres e a um outro ritmo que também não pára, até porque a partida está prevista para amanhã de manhã. No navio, houve quem aproveitasse a tarde para falar para casa através do skipe, e juntaram-se novas caras à guarnição: marinheiros portugueses, que só agora puderam vir, cadetes brasileiros e o oficial por eles responsável, que vão fazer a próxima tirada. O camião cisterna com o combustível chegou, finalmente.
- É habitual só chegar em cima da partida. É truque. Pensam que ficamos tão à rasca que já não o podemos recusar mesmo que não seja de boa qualidade – diz o Oliveira e conclui – ‘Tão tão enganados!
Nessa noite, todos os oficiais menos o Oliveira, que está de serviço, vão jantar a uma esplanada em Boa Viagem. Será o meu último na sua companhia. Daqui por umas horas, o Comandante vai entrar em directo para uma rádio portuguesa.
- O que estamos a fazer aqui e à volta do mundo só existe se o dermos a conhecer a Lisboa – atira-nos o truísmo, não conseguindo esconder a vaidade que sente nos seus homens e na missão.
Vou passar a noite a um hotel na outra ponta da cidade, que o “doutor” partilha já o seu camarote com o oficial brasileiro. Um hotel de pilotos e hospedeiras. Pouso as malas e, acto reflexo, ligo a televisão. Clinton teve uma complicação cardíaca, Mandela celebrou o 20º aniversário da sua libertação e Arruda, governador do distrito federal, foi levado para uma delegacia. Eis os headlines da Nordeste, a cadeia da Globo para a região, e o princípio da bebedeira de informação que vou apanhar noite dentro. O mundo não parou nestas semanas que estivemos no mar. Continuou a rodar sobre si próprio, continua igual a si próprio. Apesar de o “Público” ter sido diariamente descarregado para o WISE, não o li uma única vez por opção, como aliás não toquei na meia dúzia de livros de que me muni para a viagem. Um retiro é um retiro é um retiro. Noite fora e à medida que o mundo me vai chegando pela televisão, procuro, ingenuamente, como se fosse possível, refazer-me de todas as emoções. Lembro-me do Oliveira a contar as manobras arriscadas - no limite - mas desenhadas na perfeição que a Sagres fez em Nova Iorque e pelas quais arrancou a maior saudação entre os mais consagrados navios da sua categoria.
- Os marinheiros estavam todos de branco alinhados nos braços dos mastros e ao apito – e grita como lá estivesse ainda - pipióiiii!, do mestre respondem com “vivo”, e não viva, pá, porque “vivo” é audível a uma distância maior. E acenam para terra.
Lembro-me o Castro e da sua canção preferida, Saudadito Marinero, que passa os dias a trautear. Vêm-me à cabeça os rostos do Rui Pedro, do Bruno, do Hugo, do Gaspar, do Leão, do Luís Lopes, dos Eusébios, do cabo e do tenente. Na vida, pouca coisa se compara a fazer camaradas, a fazer amigos.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Recife, 10 de Fevereiro.



Dia 23.
Hoje é um dia importante, o mais importante e solene da nossa estadia no Brasil. Hoje, apesar do grupo que já saiu para ir fazer novos e repetidos exercícios de homem ao mar em Porto de Galinhas, muito mais gente vai ficar de serviço a bordo. Ao almoço, o comandante e o imediato, aos quais se juntarão o embaixador de Portugal (que veio de Brasília) e o cônsul português na cidade, irão retribuir o acolhimento dado ao navio-escola nacional pelas autoridades locais. Prefeito, capitão do porto da cidade, provedor do Hospital Português, entre outros dignitários locais, estão quase a chegar. Quando o carro da prefeitura estaciona em frente à Sagres, saem do seu interior dois indivíduos, um de fato e gravata e outro de ténis e t-shirt e, por um breve momento, instala-se a dúvida: qual é o prefeito, qual é o seu segurança? Certo, não foi o segurança que veio de ténis. Os cozinheiros e restantes taifas passaram a manhã a preparar o almoço, que está a ser servido na camarinha, o que foi feito sem uma ponta de stress, com uma normalidade que me põe os nervos em franja. Ainda de manhã, houve uma operação de mergulho. Depois do seu habitual jogging matinal, que já chega aos 70 minutos de duração, um dos fuzileiros, equipado para o efeito, mergulhou junto à hélice. Foi verificar se os parafusos que fixam a hélice ao navio precisavam de massa de betão hidráulico.
- Só uma hélice bem fixa produz ao girar na água aquele efeito de cone que é fundamental para uma melhor hidrodinâmica – explica-me o imediato.
A seguir ao almoço, continua-se a preparação da recepção que terá lugar logo à noite. A primeira das recepções que faz da Sagres uma embaixada itinerante, e cujos convites partiram há dias para todas as representações diplomáticas, órgãos de comunicação social, destacados membros da comunidade de negócios, autoridades militares e civis e demais forças vivas da cidade, em nome do comandante e do embaixador. O tombadilho começa por ser baldeado para depois ser coberto com um toldo. Os amarelos são novamente areados e todos os cabos acertados. As balsas de salvamento são aproveitadas como suporte das mesas onde serão servidas as entradas. E imediatamente em frente à ponte, é montado um bar. Enquanto decorre toda a preparação da recepção, oito marinheiros, que foram destacados para o navio muito em cima da data da sua partida, vão ser vacinados contra a febre amarela e meningite no Hospital Português, através dos bons ofícios do seu provedor. E um pequeno grupo de oficiais sai do navio para uma tarde de compras no shopping. Havaianas de presente para a família, pilhas, protectores solares e outras compras de última hora para mais uma tirada. O Oliveira e o Gaspar vão comprar uma Nossa Senhora de Fátima para colocar junto à máquina da Sagres. E o Bruno aproveita para cortar o cabelo. Quando regressamos, ficamos a saber que houve um anormalmente elevado número de visitas ao navio, o que, por certo, se ficou a dever à reportagem sobre a Sagres que ontem passou na televisão local. 4253 em apenas quatro horas, não é um número elevado. É um número impossível. O counter, aventa-se, deve-se ter avariado. Trocava, de bom grado, a tarde que passei com a do cabo Eusébio. Diz-me que o que gosta é de sair daqui, escolher um boteco, sentar-se e conversar. Ou apenas ficar a ouvir. E foi o que hoje, finalmente, conseguiu fazer.
- Aprender alguma coisa com quem sabe mais do que eu ou que, pelo menos, sabe coisas que eu não sei, pá, isto é o que de melhor posso levar desta viagem – diz, encostando-se à balaustrada com uma sagres na mão. – Apanhámos um português, radicado no Brasil há anos, que é daquelas pessoas com conversa boa, ‘tás a ver? Com assunto, que por mais que fale, nós não-nos cansamos de o ouvir.
A Sagres está agora engalanada. Os marinheiros, de branco, são agora bar tenders, prontos para começar a receber os convidados. Uma recepção é isso mesmo, uma recepção. Uns quantos discursos, primeiro o comandante seguido do embaixador. Outras tantas conversas de circunstância. As bandejas com os aperitivos, as pessoas e as conversas circulam e procuram-se umas às outras.
- Está tudo bem, não está? – pergunta-me o cabo Alves buscando aprovação e com uma preocupação genuína na voz. - É que os olhos também comem – acrescenta.
Depois do brinde com Vinho do Porto, bandejas com pastéis de Belém feitos a bordo, começam a passear por entre nós. O Evandro tira um da primeira bandeja que passa e, mal o acaba, procura com o olhar outra bandeja. Segue-a e quando finalmente consegue tirar o segundo pastel, justifica-se com um ar de bom malandro.
- A este preço! – e ri-se.
No fim da noite, apesar do reduzido número de convidados presentes, fica uma certeza. A forma como sabemos receber pode encher-nos de orgulho.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Recife, 09 de Fevereiro.





Dia 22.
Calções de banho e bermudas. Camisas de alças e t-shirts. T-shirts da Gucci, de Fortaleza, de Porto Seguro e do Hard-Rock Café de uma qualquer outra cidade europeia, t-shirts da selecção ou simplesmente lisas. Apenas um ou dois ténis que pontuam no meio de imensos chinelos e havaianas de todas as cores e feitios. Outra farda, farda de praia, que despidas as outras, agora são eles mesmos. Sem disfarce. Metade da guarnição espera o mini-bus que a vai levar a Porto de Galinhas, enquanto a outra está ocupada com nova faina de material. Os oficiais irão lá ter a seguir ao almoço num carro alugado. Fomos pela marginal da Boa Viagem, marginal de Jabotão dos Guaranapes, até sermos forçados a perder o mar de vista. Uma hora e um quarto para perfazer os, praticamente, 70 e poucos quilómetros de um contínuo urbano. A Boa Viagem é, com a sua marginal de 7 km, a antítese dos bairros antigos que visitámos ontem. Não é mais do que um corredor, uma parede, um muro caótico de arranha-céus, cuja sombra, da parte da tarde, vai crescendo no mar. São de uma fealdade indizível – sobressai apenas um ou outro edifício elegante, jóias do modernismo - e acabam abruptamente três ruas atrás do mar, no preciso local onde começa uma favela a perder de vista. Se cada parte da cidade nos diz tudo sobre a sua época da sua construção, o parque automóvel é um retrato do presente. A abundância de VW pãos de forma e fuscas, a que nós chamamos carochas com ternura, com que nos cruzamos, atesta o mau do estado das estradas. Um zero quilómetros, um carro novo, é um convite ao assalto.
- Com o Lula e o seu programa fome zero a violência tem vindo a diminuir - todos dizem – para acrescentar de seguida – até aumentar outra vez.
A generalidade dos carros tem vidros ligeiramente fumados, por causa do sol, claro, mas também para fazer pensar aos bandidos na possibilidade de haver bandidos lá dentro. 70 km depois, o suficiente para ver muita pobreza e miséria, chegamos a Porto de Galinhas. 70 km depois, algumas lojas da cadeia “Achaqui” e muitos outdoors 8x3 que repetem a mesma mensagem: Obrigado Governador, obrigado Prefeito pelo novo e maravilhoso (sublinho, maravilhoso) hospital. Desconfiamos que os cartazes não terão sido pagos pelos cidadãos agradecidos e maravilhados. Porto de Galinhas, eleita a melhor praia do país pelo enésimo ano consecutivo, é uma desilusão mas só para quem sabe como não são as praias mais conhecidas do Brasil. Faz lembrar Búzios, faz temer por Tancoso junto a Arraial da Ajuda, na Baía, paraísos virgens que não aguentam a praga do turismo de massas. Com a maré-cheia, não vemos os recifes e as lagoas, não vemos Porto de Galinhas dos postais. Sobra uma frente corrida de cadeiras de plástico, que só a temperatura da água faz esquecer. À excepção de biquínis, pode-se comprar quase tudo. Óculos de sol e queijo frito, cangas e água de coco, toalhas de praia e ostras, protectores solares e maçarocas de milho. Saímos cedo da praia. O sol põe-se ao contrário, fazendo-nos sombra. De regresso à Sagres, ficamos a saber que o primeiro dia de vistas não foi famoso. Apenas 48 visitantes. À noite, novo rodízio. O Pinto Ferreira e o Eusébio, inamovíveis na sua dieta, decidem fazê-la apenas a bordo. O Rui Pedro, ocupado com a osmose e alguns outros com os seus afazeres, ainda não conseguiram descer à cidade.

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Recife, 08 de Fevereiro.



Dia 21.
Quando acordamos, já o sol vai alto. Não porque tenhamos acordado tarde, mas porque aqui amanhece e anoitece cedo para se evitar mais horas de calor. Em terra, há rotinas novas. Não há alvorada e às 8h00 da manhã, em vez da formatura, há o içar da bandeira, que só será arriada ao pôr-do-sol. Acaba a tirania do quarto e assim o oficial de quarto (e respectiva guarnição) passa a oficial de dia. A entrada ou saída dos oficiais da Sagres tem um breve cerimonial. Quem está de serviço à prancha bate a continência - e apresenta armas - que os oficiais devolvem, perfilados se estiverem em grupo, já a bordo, à entrada ou em terra, à saída, e que não os dispensa de, a meio da prancha, baixarem a cabeça na direcção da bandeira nacional, à ré. O comandante e o imediato têm, para além de tudo isto, direito a apito, mais longo para o primeiro. E, claro, com novas rotinas vêm novas praxes. Quem, por esquecimento, passar a prancha a fumar ou comer, já sabe. O comandante e o imediato saíram. Apito longo, apito curto. Foram apresentar cumprimentos às autoridades. Almoçaram na Capitania a convite do comandante militar do Nordeste e do capitão do porto da cidade. A manhã foi aproveitada para continuar a resolver os problemas surgidos no decurso da travessia do Atlântico. Desde ontem que se anda a tratar da osmose, que aqui é reversa e não inversa, se fazem contactos com o fornecedor dos radares, e que a equipa do costado está em acção. Empoleirados em escadas de cabos, que fazem o papel de andaime, vários marinheiros começam por retirar as várias e sobrepostas camadas de tinta para chegar à ferrugem, escondida em vários pontos do casco do navio, trabalho que só pode ser feito nos portos. O Pinto Ferreira negoceia o preço dos mini-bus que irão levar metade da guarnição amanhã e a outra metade depois de amanhã, ao sítio que ninguém quer perder, Porto de Galinhas. Quem não está de serviço e uma vez que complete o seu trabalho, aproveita para pôr os seus assuntos pessoais em ordem. O Bruno, sentado na secretária do camarote, descarrega um artigo do New England Journal of Medicine sobre cardiologia, a especialidade de que é interno. À tarde, o comandante, o imediato e eu saímos para nos perdermos no bairro que, não por acaso, tem o mesmo nome da cidade, o Bairro do Recife, e no Bairro de Santo António, contíguo ao primeiro. O primeiro é o bairro mais antigo do Recife e os dois bairros juntos constituem a parte antiga da quinta cidade brasileira. O Recife desenvolveu-se de nordeste –por causa de uma outra cidade, Olinda, património natural e cultural da humanidade, e decisiva na formação da jovem nação – para sudeste, sempre de frente para o Atlântico. É uma cidade de água. É formada por ilhas e seus diques, cortada por rios e seus canais, unida por pontes e banhada por um mar, que com a protecção dos recifes, chega tranquilo. A Veneza brasileira, como os Pernambucanos, fiéis à sua capital e sem medo do exagero, dizem ser. A água, único ponto de toque com a cidade dos Doges ou com Amesterdão, sempre foi decisiva na prosperidade da que em tempos idos foi a maior metrópole de toda a América Latina. Vamos passar a tarde a deambular pelo Bairro do Recife, um mercado a céu aberto que se estende através das pontes Maurício de Nassau e 12 de Setembro até Santo António. Na arquitectura revemos Portugal - os bairros estão polvilhados de igrejas portuguesas - mas as corres garridas que pintam os edifícios dão razão a Agostinho da Silva quando dizia que um brasileiro é um português à solta. Há no ar uma profusão de cheiros temperados pela humidade, de cores fortes e pregões gritados às portas das lojas que se diluem à passagem da multidão e dos vendedores ambulantes que, puxando os seus carros repletos de mercadorias, nos oferecem de tudo um pouco. Vendem-se objectos impossíveis, de encontrar e de descrever. Em frente a uma chapelaria, recusamos o caju de um vendedor e aceitamos a fruta-pinha de outro, fruta que, como o nome indica, por fora parece uma pinha e tem, no interior, gomos muito saborosos. No país dos shoppings e dos mega-shoppings – o Recife é servido por cinco – o comércio tradicional tem uma vitalidade incrível. A noite cai cedo, apanha-nos a beber cerveja num tasco de rua, e com ela vêm as luzes dos candeeiros públicos, das lojas, dos reclames, das decorações do Carnaval que se montam por todo lado e dos faróis de um tráfego, que é agora mais intenso. Encontramo-nos na Sagres com os restantes oficiais e com o Evandro, oficial de ligação da Marinha Brasileira, e jantamos juntos em Olinda. A noite vai acabar tarde e em grande na outra ponta da cidade do Recife, em Boa Viagem. Boa Viagem e boa noite.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Recife, 07 de Fevereiro de 2010. (continuação)



Finalmente, terra. O Recife não é Salvador da Baía, cidade para onde a Sagres e os nossos espíritos se dirigiam e que falhámos, por falta de lugar no porto. A cidade do Recife não é, por maioria de razão, o Rio de Janeiro, cidade que foi, a páginas tantas, pensada como alternativa a Salvador, e que é, apesar de tudo, a mais bonita que vi em toda a minha vida. Sem sombra de dúvida. A cidade que à noite é, como se diz, um presépio. A cidade que, mesmo quando a luz do dia põe a imensa miséria dos morros a descoberto, não deixa de ser, ainda assim, a “cidade maravilhosa”. Cidade-adjectivo. Uma geografia acidentada e vegetação luxuriante que se precipitam para o mar, para o recorte único das suas baías e ilhas, que a mão do homem não consegue perturbar (nunca faltaram lugares-comuns para um sítio tão invulgar). O Recife não é o Rio e não é também a cidade que os folhetos promocionais e turísticos, de produção fotográfica irrepreensível e completamente enganadores, como viemos mais tarde a descobrir, mostram. O Recife é a cidade que nos calhou em sorte e mais vale tirar todo o proveito de toda a cor, cheiros e alegria que nos tem para dar. Terra é terra e esta, que se prepara para o Carnaval, não irá ser injusta com a guarnição. O porto fica no Bairro do Recife, o primeiro da cidade. Este porto, apesar dos seus edifícios em ruínas e da ferrugem que grassa nas suas gruas, é autêntico, já é cidade. É o que é e não o esconde. Não é como os aeroportos das grandes cidades que, iguais em todo mundo, nos fazem acreditar que chegamos ao local de onde partimos. As mesmas hospedeiras nas mesmas fardas e lenços repletos de motivos, o mesmo ar condicionado, os mesmos dois toques que precedem avisos sonoros, o mesmo chão enorme que espelha luz. Locais pasteurizados, feitos com um sono anónimo, de passagem. De pressa ou de uma espera estúpida, que nos obriga a reparar que as plantas, as luzes, os luxos e os tectos são falsos e não souberam envelhecer. 16h30, saímos da Sagres, atravessamos o porto, de onde podemos entrever a arquitectura colonial do bairro antigo, e vamos a pé ao shopping mais perto. Passamos pelo Forte do Brum, que nos faz lembrar as lutas que no século XVII travámos com os holandeses pela posse da que, à época, era uma das mais prósperas capitanias hereditárias, e atravessamos muita pobreza para enfim tomar um chopinho no Shopping de Tacaruna. Há um sem-fim de empregados por loja, evidência de baixos salários.
- Oi - sinalizam que não perceberam o que dizemos para, uma vez entendida a mensagem, acrescentarem – Com certeza – vincando o “r”.
22h00, jantar de oficiais, todos menos o oficial de dia, num rodízio junto à praia da Boa Viagem, que fica na outra extrema da cidade, oposta àquela onde a Sagres está fundeada. O Sousa Luís, reparo agora, ainda me pede desculpa quando diz uma asneira (na minha presença). Acabamos o dia com um passeio na marginal da praia, onde podemos ver, a cada 150 metros, avisos que alertam para a existência de tubarões para lá da parede de recife que corre paralela à praia, e que explica o nome da cidade. 1h30, de regresso à Sagres. Com muitos dias de férias em atraso, 40, 50 e até mais de 60, este fim de dia soube a férias.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Recife, 07 de Fevereiro de 2010.





6º 30’.8S 021º 22.9W, dia 20.

Estamos há muitos dias num sítio chamado Atlântico. Um deserto de água, redondo até onde a vista alcança. Inabitado pelo homem. E que teve em nós, portugueses, os seus primeiros nómadas. Um sítio de aventureiros e de solitários. Um sítio onde os sonhos dos primeiros correm a par da loucura dos segundos. São 3h15, hora de bordo, mais duas que em Lisboa e menos uma que na cidade do Recife, que nos vai acolher. Estamos a 40 milhas de distância. Não vemos terra, vemos luz. É um clarão difuso que se estende sobre o horizonte. 4h20, já conseguimos distinguir pequenas luzes pousadas no mar, longe. Está um céu bonito, estrelado. Uma aguarela e guaches sobre papel azul, de Turner. Podemos ver o Cruzeiro do Sul, Marte e Saturno. 5h30, o dia chegou. Deixámos de ver as luzes do Recife e ainda não vemos terra. Só há mar outra vez. E um imenso trânsito que, à falta de terra, nos consola. Começamos a ver os navios que passam ao nosso lado e que há umas horas eram apenas uns pequenos pontos que se deslocavam no ecrã do radar. 6h22, “terra a vista” informa o vigia. A estibordo, começam-se a desenhar o que parecem ser uns quantos edifícios altos e que mais tarde vamos descobrir tratar-se da marginal da praia da Boa Viagem . 7h00, alvorada. Os primeiros rostos surgem no convés. Ensonados, alegres. Passa por mim alguém que canta “Os loucos de Lisboa” que vou dar por mim a trautear no resto da manhã. São os loucos de Lisboa / Que nos fazem duvidar / Qu’a terra gira ao contrário / E os rios nascem no mar. 8h00, pequeno-almoço, engolido. Ligar para casa faz sentido outra vez. Há muita gente a fazê-lo. 8h15 e já há outra vez marinheiros condignamente fardados de branco, na sua maioria à proa. A Sagres, que foi ficando mais pequena ao longo dos dias, fica de repente maior. Para logo a seguir ficar mais pequena, à medida que nos aproximamos de terra. 9h e picos, sobem a bordo os dois pilotos brasileiros que nos ajudaram a entrar no porto da cidade. Aparece um primeiro rebocador e um outro logo de seguida. São enormes. Toda a manobra demora muito tempo. 9h40 e começamos a distinguir em terra as primeiras caras. 10h15, a Sagres atraca. O porto fica junto ao Recife Antigo, o primeiro dos bairros da cidade fundada em 1537 por portugueses. Somos recebidos com Fevro, a música e a cor de Pernambuco. Cinco bailarinas, cinco sorrisos lindos, que fazem voar o chapelinho colorido de umas para as outras. 11h10, oficial de ligação da Marinha Brasileira, o capitão de corveta Evandro, sobe pela prancha e entra a bordo com a sua farda branca que é feita de uma sarja mais grossa que a nossa. Começa uma longa manhã de trabalho, seguramente uma das mais duras. Almoçamos já perto das 14h30. Apenas depois de uma faina de material – entrada e saída de vários materiais e géneros -, de uma limpeza geral, lá fora, e de uma prolongada reunião com o ship chandler – o fornecedor de fornecedores -, lá dentro, na câmara. Os fuzileiros regressam a bordo com uma máscara de suor no rosto. Meia hora antes, tinham pedido autorização ao imediato para o seu jogging. 15h50, são concedidas as licenças. Finalmente. (continua)

06 de Fevereiro de 2010.



05º 48’.2S 032º 05.1W, dia 19, 23h50.

Acordei cedo, às 5h00. O dia amanheceu devagar, que não sabe da nossa pressa e ânsia e vontade de chegar. Não sabe que um marinheiro, a quem todos tratam por Wally pelas notórias parecenças físicas e aros pretos dos óculos, pediu licença para se ir casar a Portugal lá para o Verão, o que motiva já que, qualquer um, quando quer saber dele, pergunte:
- Onde está o Wally?
O dia também não sabe ainda que o segundo marinheiro Manuel Monteiro tem o dom da música e que com o seu violino alegra as noites dos seus camaradas, que de outra forma seriam mais longas. O dia não sabe ainda que o cabo M. Santos vai ser pai daqui a sete meses. O dia amanheceu devagar. À tarde, avistamos golfinhos. Adivinhando a teimosia do mar que não acaba e a indiferença do dia que corre lento, sem se importar com cada uma das histórias que estes homens carregam, os golfinhos aparecem, sem aviso, de ambos os bordos da Sagres. Exibem-se, o que nos faz correr de um bordo ao outro e outra vez para o primeiro, procurando não perder nada. Não há como o trabalho para ir enganando o tempo, que demora a passar. Lá fora, desde a manhã que se continua a trabalhar para que o navio chegue ao Recife sem mácula. Lá dentro, a azáfama não é menor, em especial para o tenente Pinto Ferreira. O Pinto Ferreira é o oficial formado em administração naval, responsável por toda a logística da Sagres. Não há nada que entre no navio que não passe por ele. É ele o garante que a Sagres tenha uma autonomia de trinta dias consecutivos no mar, sem que nada falte a bordo, do combustível à farinha com que se faz o pão. Só o comandante, o imediato e o Oliveira, “seu escola”, usam a prerrogativa de o tratar por “tulha”. Uma rápida consulta ao dicionário diz-nos que “tulha” significa “celeiro”, “montão de cereais ou frutos secos” ou “casa ou compartimento onde se guardam cereais em grão”, e é esta a razão pela qual desde há muitos anos que a sua função ganhou esse nome, o que o Pinto Ferreira aceita com fleuma. O tulha não pára, é um corrupio de faxes e emails a negociar os preços e as condições de toda a sorte de mantimentos que serão embarcados no Recife. Toda a troca de emails e restante documentação fica imediatamente disponível no WISE - acrónimo de Web Information System Environement e, na prática, uma folha de rosto para todo o arquivo vivo do navio, o Facebook interno da Marinha - para o comandante aprovar. Às 14h00, metade da guarnição assiste à palestra sobre a cidade do Recife. Começa o tenente Eusébio, que dá alguns conselhos sobre segurança – andar em grupo, ter uma pequena quantia de dinheiro separada para dar sem oferecer resistência em caso de assalto,… prossegue o Sousa Luís, com indicações úteis sobre a cidade, o que há para ver e fazer. Juntos não demoram mais de dez minutos. Os restantes vinte são dedicados à Medicina do Viajante. O Bruno começa por referir que, nesta zona do globo, são cinco os grupos de doenças que recorrentemente afectam os turistas. As doenças resultantes da ingestão de alimentos ou águas contaminadas como as hepatites A, D e E ou a febre tifóide, que têm a diarreia como primeiro sintoma.
- Com os alimentos é mais difícil. Com a água, tudo é mais fácil: sempre que possível, bebam água engarrafada e evitem pedir gelo nas bebidas – explica.
Prossegue com as doenças transmitidas por vectores animais, designadamente, artrópodes (carraças, pulgas, mosquitos), que podem provocar malária, dengue ou febre amarela e cujos primeiros sintomas são febres altas e prostração.
- Um simples repelente pode fazer a diferença – continua.
Demora-se uns minutos com as doenças transmitidas por contacto pessoal próximo e por contacto sanguíneo ou sexual. Toda a gente presta atenção. Termina com a doença transmitidas por contacto da água com a pele, a Leptospirose.
- É uma bactéria que pode estar em águas estagnadas, fossas ou rios com um caudal pequeno, que coloniza o rim do rato e que faz com que este contamine tudo à sua volta quando urina – diz sem precisar de levantar a voz e continua, mantendo a audiência presa – É de diagnóstico difícil, confunde-se com tudo e fulmina o rim humano.
Às 14h30, a palestra é repetida à outra metade da guarnição. Depois do lanche, o comandante convida-me a sair no semi-rígido para fotografar a Sagres. Mal nos afastamos do navio, voltamos ao fim de muitos dias a vê-lo inteiro, em toda a sua beleza e imponência. Um postal. O céu está limpo, há apenas algumas nuvens para o compor. Vista daqui, do meio do mar, a Sagres deixa de ser uma sucessão de pequenos compartimentos ligados entre si por onde deambulam 147 almas. São quinze minutos aos solavancos sempre a pressionar o botão da máquina. Antes do jantar, há uma nova faina geral de mastros. É a mais dura de todas as que foram feitas até agora.
- Preciso de saber com o que posso contar dos meus homens – dirá o comandante mais tarde.
No fim da faina, o mestre Meireles está visivelmente contente.
- Foi um bom teste, ainda há aspectos a melhorar, mas foi um bom teste – diz o mestre que comandou todas as manobras com os assobios do seu apito.
Jantar. É a vez de o engenheiro Gaspar se apresentar à câmara dos oficiais. Voltam à farda branca que, nem à força do hábito de a ver, me parece bonita. Passamos a refeição a detalhar com graça todos os seus e nossos azares. Primeiro, a osmose, depois os radares, que continuam inoperacionais. O dia passou indiferente a tudo, sem pressa.

05 de Fevereiro de 2010.



03º 56’.6S 029º 58.6W, dia 18, 23h40.

O dia nasce bonito. Quando saio para o convés, vejo as primeiras aves, albatrozes, sinal de que já não estamos longe de terra. As cabeças já estão no Brasil. Vagueio por ali, impaciente, do poço para o tombadilho, do poço para o castelo. Dois dedos de conversa, aqui e ali. Na padaria, na enfermaria. E na central L.A. Esta é um pequeno gabinete – aqui tudo é pequeno – com dois computadores. Lá dentro, o Almeida joga uma paciência e o Perfeito fuma um cigarro à porta.
- LA é de limitação de avarias, é uma equipa que está permanentemente de piquete para os casos de rombo, alagamento ou incêndio – diz-me o sargento Perfeito. E eu penso “este homem tem o nome certo para a sua função”.
- Na semana passada, vimos um frigorífico a boiar. Em função da velocidade ou do ângulo de embate, poderia ser o suficiente para abrir um buraco. Na viagem do ano passado, vimos um sofá. Vê-se muito lixo, muita tralha, coisas que não te passam pela cabeça – conclui, abrindo os braços.
Objectos que na Sagres nunca se pensou deitar ao mar, mesmo antes de ter conquistado a bandeira azul a 26 de Maio do ano passado, pelas suas boas práticas ecológicas. Aqui, todo o lixo é separado, como o fazemos (ou devíamos) em casa. Vidros para um lado, papel para outro. Plástico para um lado, pilhas para outro. Lixo que só sairá do navio no próximo porto, devidamente acondicionado para a reciclagem. Só os restos de comida vão para a água e apenas depois da autorização do oficial de quarto. Mas o compromisso que a Sagres firmou com a ABAE – Associação da Bandeira Azul da Europa – não se esgota na prosaica separação do lixo. Por exemplo, a Sagres “não pode adquirir ou usar objectos feitos a partir de espécies protegidas ou provenientes de achados arqueológicos”, lê-se na convenção assinada pelo comandante e os responsáveis da bandeira azul, que está exposta no corredor de acesso à câmara dos oficiais. Hora de almoço. O Oliveira, contente como sempre, oferece uma garrafa vinho à câmara para comemorar o aniversário da sua mulher. O Pinto Ferreira continua a dieta, em cujo resultado já só ele acredita, pelos comentários de todos os outros oficiais, sem excepção. Ele, que trouxe uma bicicleta de ginásio para o seu camarote, em relação à qual confessa com um sorriso de normalidade:
- Desde que partimos, já fiz mais de 15 minutos.
O Bruno vai passar a tarde no camarote a preparar a sua palestra para amanhã. Vai falar sobre Medicina do Viajante, dando a toda a guarnição conselhos práticos sobre os comportamentos de risco que se devem evitar no próximo porto. Vou jantar com os sargentos à sua câmara. É sempre bom jantar com os sargentos. O sargento Coelho trouxe do Alentejo uma peça de veado que foi confeccionada na cozinha para todos. No fim do jantar, à volta de uma Chancela, falamos de política, do país e do mundo. Se o Cavaco pode ou não mandar o governo abaixo e se, para o fazer, precisa de dissolver a Assembleia, se basta demitir o governo, e quando o poderá fazer, dúvidas prontamente esclarecidas pelo sargento enfermeiro que vai buscar um muito sublinhado Código Civil. Já no poço, no fim da noite, o cabo Leão chama-me à parte. Oferece-me o seu Zippo. De um lado, tem gravado o desenho da Sagres e do outro, o seu nome “Cabo L Leão” e a insígnia da sua especialidade – despenseiro -, um cavalo marinho dentro de um losango. Um Zippo que já fez muito mar. Sem muitas palavras, trocamos um abraço e ele vai-se deitar. Depois de esforços aturados do Dias Pinheiro, do Sousa Luís e do Rui Pedro ao longo de três noites consecutivas, já consigo distinguir com alguma facilidade o Cruzeiro do Sul. São quatros pontos luminosos que vão girando sobre si próprios à medida que cruzamos o mar e que antes eram imprescindíveis para navegar neste hemisfério. Agora, está lá em cima apenas para nosso deleite. Não é pouco.

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

04 de Fevereiro de 2010.



02º 16’.9S 028º 18.0W, dia 17, 23h50.

Ainda é noite. Dormi sob as estrelas. Risquei, como aqui se diz, mas não foi preciso, desenhar a giz no tabuado do convés o espaço onde fui dormir, como antes se fazia. Acordo no banco do caixão de leme. É o banco corrido de madeira que fica no tombadilho junto ao leme de emergência. Não volto a dormir, com medo que as estrelas se vão embora. Penduradas no céu, frágeis, as estrelas baloiçam como um instante que logo acaba. São toda a companhia que tenho, agora que a guarnição dorme. Ao olhá-las, deixo-me levar por uma euforia que chega já temperada de serenidade. É um instante a que, por hábito, preguiça ou, não importa, por qualquer outra razão, costumamos chamar de felicidade. Sou, sempre fui, um privilegiado e se escrevo isto é para não o esquecer. Nunca consegui deixar de olhar para as estrelas. Pode ser uma forma de lhes agradecer. Não devem lá estar em cima por acaso. Lembram-me que, por mais longe que estejam as pessoas que amamos, a sua luz também lhes chega e que precisam de levantar a cabeça para as ver. Há aqui muita gente que chora e que não o esconde. Muita gente que não deixou os seus problemas em Lisboa. Liguei para casa dois dias seguidos. Foi um erro, fiquei com saudades. Aqui, nem sempre é fácil ligar para casa. Ligar para casa sem ver terra pode ser penoso. Mesmo em dias de calmaria, o mar é uma parede de vidro que separa e que se pode partir a qualquer momento. É uma parede que embriaga, que não acaba. Mas estes homens têm-se uns aos outros e às estrelas que, quando se escondem, os levam a mais um dia trabalho. Com uma bravura que não me lembro de ter visto antes.


Navegamos há já dezassete dias. Não passámos ao largo dos Penedos de S. Pedro e S. Paulo assim como do Arquipélago de Fernando Noronha para evitar os fortes aguaceiros - típicos dos climas inter-tropicais nesta altura do ano – que os instrumentos previam. O dia foi de trabalho. Ao almoço, houve gelado de morango, feito a bordo. E a noite foi de festa. Foi o jantar de despedida do Rei dos Mares. Toda a guarnição comeu junta no poço. Não faltaram iguarias. Não faltou música ao vivo, pela voz e órgão do marinheiro Magalhães que nos presenteou com o vastíssimo repertório com que costuma animar casamentos e baptizados. Não faltou animação. Uma festa popular. O poço todo iluminado. Fios de luzinhas por cima das nossas cabeças, uma verdadeira festa de aldeia. Só faltaram raparigas – não se dançou - sobrando cabelos rapados pente 3.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

03 de Janeiro de 2010.



00º 09’.3S 026º 51.4W, dia 16, 23h55.

Alvorada, pequeno-almoço, formatura. Esta parece uma manhã de trabalho igual a todas as outras. Mas não é. Quem já tinha cruzado o Equador, não consegue esconder um sorriso no canto dos lábios. Quem o fez ontem pela primeira vez, tenta disfarçar alguma apreensão. À enfermaria chegam mesmo algumas queixas, umas dores de cabeça, umas dores de barriga.
- É tudo psicológico. Não passa de nervos, são pseudo-cefaleias – diz o sargento enfermeiro – Logo à noite, já está tudo bom, vai ver.
Ninguém se esqueceu da noite anterior e toda a gente aguarda o julgamento de hoje à tarde. A seguir ao almoço, o julgamento tem finalmente início. Perante Neptuno e a sua corte, um juiz, acompanhado de um advogado de acusação e de um outro de defesa, declara aberta a sessão. Um a um, todos os oficiais e todos os membros da guarnição nunca antes julgados pelo tribunal do Rei dos Mares vão ouvir a sentença por terem ousado profanar as suas águas. Aqui a justiça é célere e a defesa leviana. Lida a sentença, esta é imediatamente cumprida. As penas variam naturalmente em função dos crimes em presença. Umas grades de cervejas e umas garrafas do mais puro malte como multa, umas idas ao barbeiro e ao engraxador, uns beijos no S. Hilário, no anel do Bispo e na coxa da ninfa, devidamente autorizada por Neptuno, e para remissão de todos os pecados, uma ida à piscina ou uma passagem sob a quilha do navio com este a 6 nós. Ou tudo isto de seguida. E uma vez mais, tudo o que esta tarde aconteceu a bordo da Sagres, morre…

02 de Janeiro de 2010.



01º 39’.5N 025º 23.7W, dia 15, 23h55.

Acordo tarde. São 8h37. A mesa do pequeno-almoço na câmara já foi levantada e, lá fora, o dia de trabalho já começou. Todos são agora pintores. Todos têm uma trincha ou um pincel nas mãos. Pelo chão, há latas e latas, pequenas e grandes, de tinta branca, preta e verde anti-ferrugem, em cima de oleados e sarjas grossas. Já não se colocam avisos “Pintado de Fresco”. Não vale a pena. O convés foi pintado por inteiro. Vou até à messe dos praças onde bebo um café. Um café de máquina, o melhor a bordo. Entre os oficiais, há uma nova rotina que se intromete entre o pequeno-almoço e a formatura. Trata-se do briefing meteorológico e de navegação, que está agora a decorrer na sua câmara. Colada ao briefing, há uma nova reunião sobre a modernização da Sagres, para fazer após a viagem. Identificam-se os problemas mais prementes tendo em consideração a missão da Sagres, sem se perder de vista alguns dos princípios básicos de arquitectura naval e os constrangimentos e limitações próprios do navio, a saber: idade, dimensão, etc. Um quebra-cabeças. A câmara dos oficiais é agora uma sala de reuniões de hotel de aeroporto, que são iguais em todo o mundo. No plasma, corre um powerpoint com informações sobre o porto e país de destino. Ao lado, num quadro branco, está um diagrama do navio, com a planta dos seus cinco níveis. À volta da mesa, em vez de fatos, fardas, em vez de antracite, azul.
Ao almoço, na câmara dos oficiais, só há um assunto: a chegada a bordo do Rei dos Mares. Rimo-mos, mas há no ar uma mal disfarçada tensão. À tarde, os preparativos para logo à noite concorrem com as pinturas e restantes trabalhos. No poço, começa-se a montar uma improvisada piscina e na ponte colocam-se os espelhos nas balaustradas. Vai-se ao pormenor de passar a cabeça dos parafusos pelo berbequim da lixa. É de doidos. Há arrufadas ao lanche e um peixe cozido ao jantar. Às 22h27, cruzamos o Equador. 00º 00’.000 N/S, latitude zero, acusa o GPS na ponte. Mudámos de geografia, entramos no Verão. A Sagres apita variadíssimas vezes. Ousamos profanar as águas de Neptuno. O marinheiro mais marreta, o mais novo a bordo (tentei argumentar junto de todos que era eu, sem sucesso), é levado até à proa, onde, com uma enorme tesoura, corta a linha do Equador. Praticamente, toda a guarnição está agora na proa. Canta e salta. Abrem-se as mangueiras com que todos vamos ser regados. Aguarda-se a todo o instante a chegada a bordo do Rei dos Mares e de toda a sua corte. Esta é composta pela sua Ninfa, pelo Diabo, por um Almirante e o seu Ordenança, por um Cardeal e pelos Escravos, que, libertos do navio, provam que havia escravatura a bordo. Quando, uns instantes depois, Neptuno chega a bordo para tomar posse do navio, dá imediatamente ordem de prisão ao comandante. Todos os que nunca antes cruzaram por mar o Equador vão ser praxados, em especial, não é difícil imaginar, os oficiais (por mais vezes que atravessem a linha do Equador, serão sempre praxados). Cumpre-se uma das mais antigas - e carnavalescas - tradições navais. O que aconteceu neste navio na noite de hoje, morre neste navio na noite de hoje (se tivesse que levantar uma ponta do véu, seria apenas para dizer que também na praxe, o Oliveira voltou a concentrar as atenções).

01 de Janeiro de 2010.



03º 38’.5N 025º 13.7W, dia 14, 23h50.

O tabuado do convés está molhado.
- Choveu toda a noite – dizem-me.
Irá secar muitas vezes durante a manhã. Estamos a aproximadamente 150 milhas do Equador. À nossa frente está um aguaceiro. Mudamos ligeiramente de direcção para o evitar. O azul do mar está mais escuro. Sobre o horizonte, há um céu claro que vai subindo até ficar chumbo. Almoço na câmara dos oficiais. Bacalhau, como é costume todas as segundas-feiras, ninguém sabe explicar, já ninguém se lembra porquê. Quando o Oliveira se cala, é o silêncio. Uma vez mais, monopoliza com graça toda a refeição. Fazemos um brinde ao guarda marinha Dias Pinheiro, que hoje de manhã foi certificado para poder conduzir o navio à noite como oficial de quarto. A messe dos praças foi hoje toda pintada. Enquanto lá bebo um café, penduram novamente os quadros e as crestas nas paredes. À tarde, os fuzileiros fazem uma plataforma de tiro. Três tábuas pregadas com um alvo na extremidade que irão amarrar ao barco para mais um exercício de tiro. Eles não param quietos. Não percebo se é disciplina, impaciência, ou as duas.
- Todas as pessoas da organização do Rei dos Mares devem dirigir-se à messe dos praças - pode ouvir-se nos altifalantes.
Levantou-se um pouco de vento. 16h40, Faina Geral de Mastros. É a vez do Oliveira, é ele o oficial de quarto que comanda as manobras. É a sua voz que se ouve nos altifalantes, são as suas ordens que o mestre Meireles vai transformar em apitos – por sua vez repetidos pelos mestres de cada um dos três mastros - que levarão os “manobras” a executar as manobras.
- Braços do traquete e do grande a estibordo - ouço no meu camarote.
Passados uns dez minutos, nova ordem:
- Adriças das gáveas altas. – E um minuto depois – Iça.
A cada nova ordem, ouço os homens e os cabos que correm por cima de mim.
- Safa cabos – continua.
A seguir à faina, os trabalhos continuam. Pinturas. Em regra, tudo o que possa sinalizar os acessos ao interior do navio – degraus e corrimãos das escadas, por exemplo - é pintado de verde, a estibordo e de encarnado a bombordo. Desce-se e entra-se pelo verde, sai-se e sobe-se pelo encarnado. Os fuzileiros continuam o seu treino, agora no castelo. Boxe e levantamento de pesos, fazendo lembrar o pátio de uma prisão das que vemos na televisão. Jantamos. O Gaspar diz-nos que a osmose produz quase mil litros por hora.
- A água do mar está um caldo, o que ajuda.
Cumpriu-se mais um dia. QRU 73 AR. “QRU” quer dizer “não tenho mais serviço para si” em código morse internacional, “73” significa “cumprimentos” e “AR”, “terminado”, em linguagem telegrafista, como me ensinou o Cabo CRO Cândido, o radiotelegrafista da Sagres. Haverá um número para “Um abraço”? 73 AR.

31 de Janeiro de 2010.



06º 50’.8N 025º 12.8W, dia 13, 23h40.

Alvorada surda. Acordo tarde como grande parte da guarnição. Hoje, sou informado que o almoço dos oficiais vai ser na camarinha do comandante.
- É domingo e quis que nos pudéssemos reunir - apenas nós - antes das recepções oficiais que aqui neste espaço serão oferecidas. É também uma forma de retribuir e agradecer por me acolherem todos os dias na vossa câmara – diz-nos antes do almoço, para de seguida acrescentar - Evitando assim que o vosso comandante sofra de solidão.
Sai a baixela, os “f” e os “r”. A partir da copa da camarinha, o Carvalhosa, discreto como sempre, garante que nem no melhor pano cai a nódoa. A seguir ao almoço, vou à Padaria. Vou conhecer o homem que faz o pão que todos os dias comemos e, no meu caso, pecando por gula. Chama-se Cristo, abençoado seja. Terceiro jogo dos oficiais e primeira derrota no campeonato de futeconvés. Perdemos 2-0 com os taifas, os homens que nos servem à mesa. A perder com alguém, que fosse com eles. O Sané, que foi pai no decurso da última viagem, é o homem do jogo. Dedica a vitória à Mariana, que tem agora sete meses. Constatamos ser especialmente útil ter nestes jogos um médico na equipa. À noite, vou com o Pinto Ferreira jantar com a sua equipa dos despenseiros. É, a seguir aos “manobras”, a segunda maior a bordo. São eles que preparam, cozinham e servem as cinco refeições diárias aos 147 elementos da guarnição. A sua é uma tarefa ingrata. O seu trabalho deve ser invisível, só se nota quando algo falha. E quando se nota, toda a gente falha. Ninguém trabalha de barriga vazia. Para correr mal, basta um produto estar deteriorado, uma quebra num único mantimento ou um ligeiro atraso. Há na Marinha uma tradição de bem comer, sobretudo, quando se está embarcado, o que aumenta a exigência. E lembram-me:
- A Sagres é uma embaixada, aqui já servimos presidentes. Só nesta viagem vão ser mais de vinte recepções oficiais – conta-me com orgulho o cabo Cunha. O cabo Alves, o sargento Batista e o chefe de cozinha Ferreira assentem com a cabeça.
A seguir ao jantar, visitamos as três câmaras de frio. Explicam-me como fazem face à curta duração da fruta e dos verdes e como em espaços exíguos cumprem, ainda assim, todas as normas de segurança alimentar. Passamos aos paióis onde bebemos um whisky em cima de caixas de mantimentos. Falamos de tudo, da economia e da pouca-vergonha que aconteceu com os bancos, falamos do país e voltamos à alimentação. Contam-me como é cozinhar com o navio adornado. Contam-me como na regata do ano passado, de Halifax a Belfast, se trabalhou em condições particularmente difíceis. O navio chegou a estar adornado a 35º, fazendo as baleeiras (que estão à altura da ponte) tocar na água. Para não escorregar na cozinha, deitaram sal grosso no chão. E no final da viagem foi necessário colocar cunhas no fogão porque este simplesmente se soltou.
- Mas não foi por isso que alguém deixou de comer.