sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Recife, 07 de Fevereiro de 2010. (continuação)



Finalmente, terra. O Recife não é Salvador da Baía, cidade para onde a Sagres e os nossos espíritos se dirigiam e que falhámos, por falta de lugar no porto. A cidade do Recife não é, por maioria de razão, o Rio de Janeiro, cidade que foi, a páginas tantas, pensada como alternativa a Salvador, e que é, apesar de tudo, a mais bonita que vi em toda a minha vida. Sem sombra de dúvida. A cidade que à noite é, como se diz, um presépio. A cidade que, mesmo quando a luz do dia põe a imensa miséria dos morros a descoberto, não deixa de ser, ainda assim, a “cidade maravilhosa”. Cidade-adjectivo. Uma geografia acidentada e vegetação luxuriante que se precipitam para o mar, para o recorte único das suas baías e ilhas, que a mão do homem não consegue perturbar (nunca faltaram lugares-comuns para um sítio tão invulgar). O Recife não é o Rio e não é também a cidade que os folhetos promocionais e turísticos, de produção fotográfica irrepreensível e completamente enganadores, como viemos mais tarde a descobrir, mostram. O Recife é a cidade que nos calhou em sorte e mais vale tirar todo o proveito de toda a cor, cheiros e alegria que nos tem para dar. Terra é terra e esta, que se prepara para o Carnaval, não irá ser injusta com a guarnição. O porto fica no Bairro do Recife, o primeiro da cidade. Este porto, apesar dos seus edifícios em ruínas e da ferrugem que grassa nas suas gruas, é autêntico, já é cidade. É o que é e não o esconde. Não é como os aeroportos das grandes cidades que, iguais em todo mundo, nos fazem acreditar que chegamos ao local de onde partimos. As mesmas hospedeiras nas mesmas fardas e lenços repletos de motivos, o mesmo ar condicionado, os mesmos dois toques que precedem avisos sonoros, o mesmo chão enorme que espelha luz. Locais pasteurizados, feitos com um sono anónimo, de passagem. De pressa ou de uma espera estúpida, que nos obriga a reparar que as plantas, as luzes, os luxos e os tectos são falsos e não souberam envelhecer. 16h30, saímos da Sagres, atravessamos o porto, de onde podemos entrever a arquitectura colonial do bairro antigo, e vamos a pé ao shopping mais perto. Passamos pelo Forte do Brum, que nos faz lembrar as lutas que no século XVII travámos com os holandeses pela posse da que, à época, era uma das mais prósperas capitanias hereditárias, e atravessamos muita pobreza para enfim tomar um chopinho no Shopping de Tacaruna. Há um sem-fim de empregados por loja, evidência de baixos salários.
- Oi - sinalizam que não perceberam o que dizemos para, uma vez entendida a mensagem, acrescentarem – Com certeza – vincando o “r”.
22h00, jantar de oficiais, todos menos o oficial de dia, num rodízio junto à praia da Boa Viagem, que fica na outra extrema da cidade, oposta àquela onde a Sagres está fundeada. O Sousa Luís, reparo agora, ainda me pede desculpa quando diz uma asneira (na minha presença). Acabamos o dia com um passeio na marginal da praia, onde podemos ver, a cada 150 metros, avisos que alertam para a existência de tubarões para lá da parede de recife que corre paralela à praia, e que explica o nome da cidade. 1h30, de regresso à Sagres. Com muitos dias de férias em atraso, 40, 50 e até mais de 60, este fim de dia soube a férias.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Recife, 07 de Fevereiro de 2010.





6º 30’.8S 021º 22.9W, dia 20.

Estamos há muitos dias num sítio chamado Atlântico. Um deserto de água, redondo até onde a vista alcança. Inabitado pelo homem. E que teve em nós, portugueses, os seus primeiros nómadas. Um sítio de aventureiros e de solitários. Um sítio onde os sonhos dos primeiros correm a par da loucura dos segundos. São 3h15, hora de bordo, mais duas que em Lisboa e menos uma que na cidade do Recife, que nos vai acolher. Estamos a 40 milhas de distância. Não vemos terra, vemos luz. É um clarão difuso que se estende sobre o horizonte. 4h20, já conseguimos distinguir pequenas luzes pousadas no mar, longe. Está um céu bonito, estrelado. Uma aguarela e guaches sobre papel azul, de Turner. Podemos ver o Cruzeiro do Sul, Marte e Saturno. 5h30, o dia chegou. Deixámos de ver as luzes do Recife e ainda não vemos terra. Só há mar outra vez. E um imenso trânsito que, à falta de terra, nos consola. Começamos a ver os navios que passam ao nosso lado e que há umas horas eram apenas uns pequenos pontos que se deslocavam no ecrã do radar. 6h22, “terra a vista” informa o vigia. A estibordo, começam-se a desenhar o que parecem ser uns quantos edifícios altos e que mais tarde vamos descobrir tratar-se da marginal da praia da Boa Viagem . 7h00, alvorada. Os primeiros rostos surgem no convés. Ensonados, alegres. Passa por mim alguém que canta “Os loucos de Lisboa” que vou dar por mim a trautear no resto da manhã. São os loucos de Lisboa / Que nos fazem duvidar / Qu’a terra gira ao contrário / E os rios nascem no mar. 8h00, pequeno-almoço, engolido. Ligar para casa faz sentido outra vez. Há muita gente a fazê-lo. 8h15 e já há outra vez marinheiros condignamente fardados de branco, na sua maioria à proa. A Sagres, que foi ficando mais pequena ao longo dos dias, fica de repente maior. Para logo a seguir ficar mais pequena, à medida que nos aproximamos de terra. 9h e picos, sobem a bordo os dois pilotos brasileiros que nos ajudaram a entrar no porto da cidade. Aparece um primeiro rebocador e um outro logo de seguida. São enormes. Toda a manobra demora muito tempo. 9h40 e começamos a distinguir em terra as primeiras caras. 10h15, a Sagres atraca. O porto fica junto ao Recife Antigo, o primeiro dos bairros da cidade fundada em 1537 por portugueses. Somos recebidos com Fevro, a música e a cor de Pernambuco. Cinco bailarinas, cinco sorrisos lindos, que fazem voar o chapelinho colorido de umas para as outras. 11h10, oficial de ligação da Marinha Brasileira, o capitão de corveta Evandro, sobe pela prancha e entra a bordo com a sua farda branca que é feita de uma sarja mais grossa que a nossa. Começa uma longa manhã de trabalho, seguramente uma das mais duras. Almoçamos já perto das 14h30. Apenas depois de uma faina de material – entrada e saída de vários materiais e géneros -, de uma limpeza geral, lá fora, e de uma prolongada reunião com o ship chandler – o fornecedor de fornecedores -, lá dentro, na câmara. Os fuzileiros regressam a bordo com uma máscara de suor no rosto. Meia hora antes, tinham pedido autorização ao imediato para o seu jogging. 15h50, são concedidas as licenças. Finalmente. (continua)

06 de Fevereiro de 2010.



05º 48’.2S 032º 05.1W, dia 19, 23h50.

Acordei cedo, às 5h00. O dia amanheceu devagar, que não sabe da nossa pressa e ânsia e vontade de chegar. Não sabe que um marinheiro, a quem todos tratam por Wally pelas notórias parecenças físicas e aros pretos dos óculos, pediu licença para se ir casar a Portugal lá para o Verão, o que motiva já que, qualquer um, quando quer saber dele, pergunte:
- Onde está o Wally?
O dia também não sabe ainda que o segundo marinheiro Manuel Monteiro tem o dom da música e que com o seu violino alegra as noites dos seus camaradas, que de outra forma seriam mais longas. O dia não sabe ainda que o cabo M. Santos vai ser pai daqui a sete meses. O dia amanheceu devagar. À tarde, avistamos golfinhos. Adivinhando a teimosia do mar que não acaba e a indiferença do dia que corre lento, sem se importar com cada uma das histórias que estes homens carregam, os golfinhos aparecem, sem aviso, de ambos os bordos da Sagres. Exibem-se, o que nos faz correr de um bordo ao outro e outra vez para o primeiro, procurando não perder nada. Não há como o trabalho para ir enganando o tempo, que demora a passar. Lá fora, desde a manhã que se continua a trabalhar para que o navio chegue ao Recife sem mácula. Lá dentro, a azáfama não é menor, em especial para o tenente Pinto Ferreira. O Pinto Ferreira é o oficial formado em administração naval, responsável por toda a logística da Sagres. Não há nada que entre no navio que não passe por ele. É ele o garante que a Sagres tenha uma autonomia de trinta dias consecutivos no mar, sem que nada falte a bordo, do combustível à farinha com que se faz o pão. Só o comandante, o imediato e o Oliveira, “seu escola”, usam a prerrogativa de o tratar por “tulha”. Uma rápida consulta ao dicionário diz-nos que “tulha” significa “celeiro”, “montão de cereais ou frutos secos” ou “casa ou compartimento onde se guardam cereais em grão”, e é esta a razão pela qual desde há muitos anos que a sua função ganhou esse nome, o que o Pinto Ferreira aceita com fleuma. O tulha não pára, é um corrupio de faxes e emails a negociar os preços e as condições de toda a sorte de mantimentos que serão embarcados no Recife. Toda a troca de emails e restante documentação fica imediatamente disponível no WISE - acrónimo de Web Information System Environement e, na prática, uma folha de rosto para todo o arquivo vivo do navio, o Facebook interno da Marinha - para o comandante aprovar. Às 14h00, metade da guarnição assiste à palestra sobre a cidade do Recife. Começa o tenente Eusébio, que dá alguns conselhos sobre segurança – andar em grupo, ter uma pequena quantia de dinheiro separada para dar sem oferecer resistência em caso de assalto,… prossegue o Sousa Luís, com indicações úteis sobre a cidade, o que há para ver e fazer. Juntos não demoram mais de dez minutos. Os restantes vinte são dedicados à Medicina do Viajante. O Bruno começa por referir que, nesta zona do globo, são cinco os grupos de doenças que recorrentemente afectam os turistas. As doenças resultantes da ingestão de alimentos ou águas contaminadas como as hepatites A, D e E ou a febre tifóide, que têm a diarreia como primeiro sintoma.
- Com os alimentos é mais difícil. Com a água, tudo é mais fácil: sempre que possível, bebam água engarrafada e evitem pedir gelo nas bebidas – explica.
Prossegue com as doenças transmitidas por vectores animais, designadamente, artrópodes (carraças, pulgas, mosquitos), que podem provocar malária, dengue ou febre amarela e cujos primeiros sintomas são febres altas e prostração.
- Um simples repelente pode fazer a diferença – continua.
Demora-se uns minutos com as doenças transmitidas por contacto pessoal próximo e por contacto sanguíneo ou sexual. Toda a gente presta atenção. Termina com a doença transmitidas por contacto da água com a pele, a Leptospirose.
- É uma bactéria que pode estar em águas estagnadas, fossas ou rios com um caudal pequeno, que coloniza o rim do rato e que faz com que este contamine tudo à sua volta quando urina – diz sem precisar de levantar a voz e continua, mantendo a audiência presa – É de diagnóstico difícil, confunde-se com tudo e fulmina o rim humano.
Às 14h30, a palestra é repetida à outra metade da guarnição. Depois do lanche, o comandante convida-me a sair no semi-rígido para fotografar a Sagres. Mal nos afastamos do navio, voltamos ao fim de muitos dias a vê-lo inteiro, em toda a sua beleza e imponência. Um postal. O céu está limpo, há apenas algumas nuvens para o compor. Vista daqui, do meio do mar, a Sagres deixa de ser uma sucessão de pequenos compartimentos ligados entre si por onde deambulam 147 almas. São quinze minutos aos solavancos sempre a pressionar o botão da máquina. Antes do jantar, há uma nova faina geral de mastros. É a mais dura de todas as que foram feitas até agora.
- Preciso de saber com o que posso contar dos meus homens – dirá o comandante mais tarde.
No fim da faina, o mestre Meireles está visivelmente contente.
- Foi um bom teste, ainda há aspectos a melhorar, mas foi um bom teste – diz o mestre que comandou todas as manobras com os assobios do seu apito.
Jantar. É a vez de o engenheiro Gaspar se apresentar à câmara dos oficiais. Voltam à farda branca que, nem à força do hábito de a ver, me parece bonita. Passamos a refeição a detalhar com graça todos os seus e nossos azares. Primeiro, a osmose, depois os radares, que continuam inoperacionais. O dia passou indiferente a tudo, sem pressa.

05 de Fevereiro de 2010.



03º 56’.6S 029º 58.6W, dia 18, 23h40.

O dia nasce bonito. Quando saio para o convés, vejo as primeiras aves, albatrozes, sinal de que já não estamos longe de terra. As cabeças já estão no Brasil. Vagueio por ali, impaciente, do poço para o tombadilho, do poço para o castelo. Dois dedos de conversa, aqui e ali. Na padaria, na enfermaria. E na central L.A. Esta é um pequeno gabinete – aqui tudo é pequeno – com dois computadores. Lá dentro, o Almeida joga uma paciência e o Perfeito fuma um cigarro à porta.
- LA é de limitação de avarias, é uma equipa que está permanentemente de piquete para os casos de rombo, alagamento ou incêndio – diz-me o sargento Perfeito. E eu penso “este homem tem o nome certo para a sua função”.
- Na semana passada, vimos um frigorífico a boiar. Em função da velocidade ou do ângulo de embate, poderia ser o suficiente para abrir um buraco. Na viagem do ano passado, vimos um sofá. Vê-se muito lixo, muita tralha, coisas que não te passam pela cabeça – conclui, abrindo os braços.
Objectos que na Sagres nunca se pensou deitar ao mar, mesmo antes de ter conquistado a bandeira azul a 26 de Maio do ano passado, pelas suas boas práticas ecológicas. Aqui, todo o lixo é separado, como o fazemos (ou devíamos) em casa. Vidros para um lado, papel para outro. Plástico para um lado, pilhas para outro. Lixo que só sairá do navio no próximo porto, devidamente acondicionado para a reciclagem. Só os restos de comida vão para a água e apenas depois da autorização do oficial de quarto. Mas o compromisso que a Sagres firmou com a ABAE – Associação da Bandeira Azul da Europa – não se esgota na prosaica separação do lixo. Por exemplo, a Sagres “não pode adquirir ou usar objectos feitos a partir de espécies protegidas ou provenientes de achados arqueológicos”, lê-se na convenção assinada pelo comandante e os responsáveis da bandeira azul, que está exposta no corredor de acesso à câmara dos oficiais. Hora de almoço. O Oliveira, contente como sempre, oferece uma garrafa vinho à câmara para comemorar o aniversário da sua mulher. O Pinto Ferreira continua a dieta, em cujo resultado já só ele acredita, pelos comentários de todos os outros oficiais, sem excepção. Ele, que trouxe uma bicicleta de ginásio para o seu camarote, em relação à qual confessa com um sorriso de normalidade:
- Desde que partimos, já fiz mais de 15 minutos.
O Bruno vai passar a tarde no camarote a preparar a sua palestra para amanhã. Vai falar sobre Medicina do Viajante, dando a toda a guarnição conselhos práticos sobre os comportamentos de risco que se devem evitar no próximo porto. Vou jantar com os sargentos à sua câmara. É sempre bom jantar com os sargentos. O sargento Coelho trouxe do Alentejo uma peça de veado que foi confeccionada na cozinha para todos. No fim do jantar, à volta de uma Chancela, falamos de política, do país e do mundo. Se o Cavaco pode ou não mandar o governo abaixo e se, para o fazer, precisa de dissolver a Assembleia, se basta demitir o governo, e quando o poderá fazer, dúvidas prontamente esclarecidas pelo sargento enfermeiro que vai buscar um muito sublinhado Código Civil. Já no poço, no fim da noite, o cabo Leão chama-me à parte. Oferece-me o seu Zippo. De um lado, tem gravado o desenho da Sagres e do outro, o seu nome “Cabo L Leão” e a insígnia da sua especialidade – despenseiro -, um cavalo marinho dentro de um losango. Um Zippo que já fez muito mar. Sem muitas palavras, trocamos um abraço e ele vai-se deitar. Depois de esforços aturados do Dias Pinheiro, do Sousa Luís e do Rui Pedro ao longo de três noites consecutivas, já consigo distinguir com alguma facilidade o Cruzeiro do Sul. São quatros pontos luminosos que vão girando sobre si próprios à medida que cruzamos o mar e que antes eram imprescindíveis para navegar neste hemisfério. Agora, está lá em cima apenas para nosso deleite. Não é pouco.

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

04 de Fevereiro de 2010.



02º 16’.9S 028º 18.0W, dia 17, 23h50.

Ainda é noite. Dormi sob as estrelas. Risquei, como aqui se diz, mas não foi preciso, desenhar a giz no tabuado do convés o espaço onde fui dormir, como antes se fazia. Acordo no banco do caixão de leme. É o banco corrido de madeira que fica no tombadilho junto ao leme de emergência. Não volto a dormir, com medo que as estrelas se vão embora. Penduradas no céu, frágeis, as estrelas baloiçam como um instante que logo acaba. São toda a companhia que tenho, agora que a guarnição dorme. Ao olhá-las, deixo-me levar por uma euforia que chega já temperada de serenidade. É um instante a que, por hábito, preguiça ou, não importa, por qualquer outra razão, costumamos chamar de felicidade. Sou, sempre fui, um privilegiado e se escrevo isto é para não o esquecer. Nunca consegui deixar de olhar para as estrelas. Pode ser uma forma de lhes agradecer. Não devem lá estar em cima por acaso. Lembram-me que, por mais longe que estejam as pessoas que amamos, a sua luz também lhes chega e que precisam de levantar a cabeça para as ver. Há aqui muita gente que chora e que não o esconde. Muita gente que não deixou os seus problemas em Lisboa. Liguei para casa dois dias seguidos. Foi um erro, fiquei com saudades. Aqui, nem sempre é fácil ligar para casa. Ligar para casa sem ver terra pode ser penoso. Mesmo em dias de calmaria, o mar é uma parede de vidro que separa e que se pode partir a qualquer momento. É uma parede que embriaga, que não acaba. Mas estes homens têm-se uns aos outros e às estrelas que, quando se escondem, os levam a mais um dia trabalho. Com uma bravura que não me lembro de ter visto antes.


Navegamos há já dezassete dias. Não passámos ao largo dos Penedos de S. Pedro e S. Paulo assim como do Arquipélago de Fernando Noronha para evitar os fortes aguaceiros - típicos dos climas inter-tropicais nesta altura do ano – que os instrumentos previam. O dia foi de trabalho. Ao almoço, houve gelado de morango, feito a bordo. E a noite foi de festa. Foi o jantar de despedida do Rei dos Mares. Toda a guarnição comeu junta no poço. Não faltaram iguarias. Não faltou música ao vivo, pela voz e órgão do marinheiro Magalhães que nos presenteou com o vastíssimo repertório com que costuma animar casamentos e baptizados. Não faltou animação. Uma festa popular. O poço todo iluminado. Fios de luzinhas por cima das nossas cabeças, uma verdadeira festa de aldeia. Só faltaram raparigas – não se dançou - sobrando cabelos rapados pente 3.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

03 de Janeiro de 2010.



00º 09’.3S 026º 51.4W, dia 16, 23h55.

Alvorada, pequeno-almoço, formatura. Esta parece uma manhã de trabalho igual a todas as outras. Mas não é. Quem já tinha cruzado o Equador, não consegue esconder um sorriso no canto dos lábios. Quem o fez ontem pela primeira vez, tenta disfarçar alguma apreensão. À enfermaria chegam mesmo algumas queixas, umas dores de cabeça, umas dores de barriga.
- É tudo psicológico. Não passa de nervos, são pseudo-cefaleias – diz o sargento enfermeiro – Logo à noite, já está tudo bom, vai ver.
Ninguém se esqueceu da noite anterior e toda a gente aguarda o julgamento de hoje à tarde. A seguir ao almoço, o julgamento tem finalmente início. Perante Neptuno e a sua corte, um juiz, acompanhado de um advogado de acusação e de um outro de defesa, declara aberta a sessão. Um a um, todos os oficiais e todos os membros da guarnição nunca antes julgados pelo tribunal do Rei dos Mares vão ouvir a sentença por terem ousado profanar as suas águas. Aqui a justiça é célere e a defesa leviana. Lida a sentença, esta é imediatamente cumprida. As penas variam naturalmente em função dos crimes em presença. Umas grades de cervejas e umas garrafas do mais puro malte como multa, umas idas ao barbeiro e ao engraxador, uns beijos no S. Hilário, no anel do Bispo e na coxa da ninfa, devidamente autorizada por Neptuno, e para remissão de todos os pecados, uma ida à piscina ou uma passagem sob a quilha do navio com este a 6 nós. Ou tudo isto de seguida. E uma vez mais, tudo o que esta tarde aconteceu a bordo da Sagres, morre…

02 de Janeiro de 2010.



01º 39’.5N 025º 23.7W, dia 15, 23h55.

Acordo tarde. São 8h37. A mesa do pequeno-almoço na câmara já foi levantada e, lá fora, o dia de trabalho já começou. Todos são agora pintores. Todos têm uma trincha ou um pincel nas mãos. Pelo chão, há latas e latas, pequenas e grandes, de tinta branca, preta e verde anti-ferrugem, em cima de oleados e sarjas grossas. Já não se colocam avisos “Pintado de Fresco”. Não vale a pena. O convés foi pintado por inteiro. Vou até à messe dos praças onde bebo um café. Um café de máquina, o melhor a bordo. Entre os oficiais, há uma nova rotina que se intromete entre o pequeno-almoço e a formatura. Trata-se do briefing meteorológico e de navegação, que está agora a decorrer na sua câmara. Colada ao briefing, há uma nova reunião sobre a modernização da Sagres, para fazer após a viagem. Identificam-se os problemas mais prementes tendo em consideração a missão da Sagres, sem se perder de vista alguns dos princípios básicos de arquitectura naval e os constrangimentos e limitações próprios do navio, a saber: idade, dimensão, etc. Um quebra-cabeças. A câmara dos oficiais é agora uma sala de reuniões de hotel de aeroporto, que são iguais em todo o mundo. No plasma, corre um powerpoint com informações sobre o porto e país de destino. Ao lado, num quadro branco, está um diagrama do navio, com a planta dos seus cinco níveis. À volta da mesa, em vez de fatos, fardas, em vez de antracite, azul.
Ao almoço, na câmara dos oficiais, só há um assunto: a chegada a bordo do Rei dos Mares. Rimo-mos, mas há no ar uma mal disfarçada tensão. À tarde, os preparativos para logo à noite concorrem com as pinturas e restantes trabalhos. No poço, começa-se a montar uma improvisada piscina e na ponte colocam-se os espelhos nas balaustradas. Vai-se ao pormenor de passar a cabeça dos parafusos pelo berbequim da lixa. É de doidos. Há arrufadas ao lanche e um peixe cozido ao jantar. Às 22h27, cruzamos o Equador. 00º 00’.000 N/S, latitude zero, acusa o GPS na ponte. Mudámos de geografia, entramos no Verão. A Sagres apita variadíssimas vezes. Ousamos profanar as águas de Neptuno. O marinheiro mais marreta, o mais novo a bordo (tentei argumentar junto de todos que era eu, sem sucesso), é levado até à proa, onde, com uma enorme tesoura, corta a linha do Equador. Praticamente, toda a guarnição está agora na proa. Canta e salta. Abrem-se as mangueiras com que todos vamos ser regados. Aguarda-se a todo o instante a chegada a bordo do Rei dos Mares e de toda a sua corte. Esta é composta pela sua Ninfa, pelo Diabo, por um Almirante e o seu Ordenança, por um Cardeal e pelos Escravos, que, libertos do navio, provam que havia escravatura a bordo. Quando, uns instantes depois, Neptuno chega a bordo para tomar posse do navio, dá imediatamente ordem de prisão ao comandante. Todos os que nunca antes cruzaram por mar o Equador vão ser praxados, em especial, não é difícil imaginar, os oficiais (por mais vezes que atravessem a linha do Equador, serão sempre praxados). Cumpre-se uma das mais antigas - e carnavalescas - tradições navais. O que aconteceu neste navio na noite de hoje, morre neste navio na noite de hoje (se tivesse que levantar uma ponta do véu, seria apenas para dizer que também na praxe, o Oliveira voltou a concentrar as atenções).

01 de Janeiro de 2010.



03º 38’.5N 025º 13.7W, dia 14, 23h50.

O tabuado do convés está molhado.
- Choveu toda a noite – dizem-me.
Irá secar muitas vezes durante a manhã. Estamos a aproximadamente 150 milhas do Equador. À nossa frente está um aguaceiro. Mudamos ligeiramente de direcção para o evitar. O azul do mar está mais escuro. Sobre o horizonte, há um céu claro que vai subindo até ficar chumbo. Almoço na câmara dos oficiais. Bacalhau, como é costume todas as segundas-feiras, ninguém sabe explicar, já ninguém se lembra porquê. Quando o Oliveira se cala, é o silêncio. Uma vez mais, monopoliza com graça toda a refeição. Fazemos um brinde ao guarda marinha Dias Pinheiro, que hoje de manhã foi certificado para poder conduzir o navio à noite como oficial de quarto. A messe dos praças foi hoje toda pintada. Enquanto lá bebo um café, penduram novamente os quadros e as crestas nas paredes. À tarde, os fuzileiros fazem uma plataforma de tiro. Três tábuas pregadas com um alvo na extremidade que irão amarrar ao barco para mais um exercício de tiro. Eles não param quietos. Não percebo se é disciplina, impaciência, ou as duas.
- Todas as pessoas da organização do Rei dos Mares devem dirigir-se à messe dos praças - pode ouvir-se nos altifalantes.
Levantou-se um pouco de vento. 16h40, Faina Geral de Mastros. É a vez do Oliveira, é ele o oficial de quarto que comanda as manobras. É a sua voz que se ouve nos altifalantes, são as suas ordens que o mestre Meireles vai transformar em apitos – por sua vez repetidos pelos mestres de cada um dos três mastros - que levarão os “manobras” a executar as manobras.
- Braços do traquete e do grande a estibordo - ouço no meu camarote.
Passados uns dez minutos, nova ordem:
- Adriças das gáveas altas. – E um minuto depois – Iça.
A cada nova ordem, ouço os homens e os cabos que correm por cima de mim.
- Safa cabos – continua.
A seguir à faina, os trabalhos continuam. Pinturas. Em regra, tudo o que possa sinalizar os acessos ao interior do navio – degraus e corrimãos das escadas, por exemplo - é pintado de verde, a estibordo e de encarnado a bombordo. Desce-se e entra-se pelo verde, sai-se e sobe-se pelo encarnado. Os fuzileiros continuam o seu treino, agora no castelo. Boxe e levantamento de pesos, fazendo lembrar o pátio de uma prisão das que vemos na televisão. Jantamos. O Gaspar diz-nos que a osmose produz quase mil litros por hora.
- A água do mar está um caldo, o que ajuda.
Cumpriu-se mais um dia. QRU 73 AR. “QRU” quer dizer “não tenho mais serviço para si” em código morse internacional, “73” significa “cumprimentos” e “AR”, “terminado”, em linguagem telegrafista, como me ensinou o Cabo CRO Cândido, o radiotelegrafista da Sagres. Haverá um número para “Um abraço”? 73 AR.

31 de Janeiro de 2010.



06º 50’.8N 025º 12.8W, dia 13, 23h40.

Alvorada surda. Acordo tarde como grande parte da guarnição. Hoje, sou informado que o almoço dos oficiais vai ser na camarinha do comandante.
- É domingo e quis que nos pudéssemos reunir - apenas nós - antes das recepções oficiais que aqui neste espaço serão oferecidas. É também uma forma de retribuir e agradecer por me acolherem todos os dias na vossa câmara – diz-nos antes do almoço, para de seguida acrescentar - Evitando assim que o vosso comandante sofra de solidão.
Sai a baixela, os “f” e os “r”. A partir da copa da camarinha, o Carvalhosa, discreto como sempre, garante que nem no melhor pano cai a nódoa. A seguir ao almoço, vou à Padaria. Vou conhecer o homem que faz o pão que todos os dias comemos e, no meu caso, pecando por gula. Chama-se Cristo, abençoado seja. Terceiro jogo dos oficiais e primeira derrota no campeonato de futeconvés. Perdemos 2-0 com os taifas, os homens que nos servem à mesa. A perder com alguém, que fosse com eles. O Sané, que foi pai no decurso da última viagem, é o homem do jogo. Dedica a vitória à Mariana, que tem agora sete meses. Constatamos ser especialmente útil ter nestes jogos um médico na equipa. À noite, vou com o Pinto Ferreira jantar com a sua equipa dos despenseiros. É, a seguir aos “manobras”, a segunda maior a bordo. São eles que preparam, cozinham e servem as cinco refeições diárias aos 147 elementos da guarnição. A sua é uma tarefa ingrata. O seu trabalho deve ser invisível, só se nota quando algo falha. E quando se nota, toda a gente falha. Ninguém trabalha de barriga vazia. Para correr mal, basta um produto estar deteriorado, uma quebra num único mantimento ou um ligeiro atraso. Há na Marinha uma tradição de bem comer, sobretudo, quando se está embarcado, o que aumenta a exigência. E lembram-me:
- A Sagres é uma embaixada, aqui já servimos presidentes. Só nesta viagem vão ser mais de vinte recepções oficiais – conta-me com orgulho o cabo Cunha. O cabo Alves, o sargento Batista e o chefe de cozinha Ferreira assentem com a cabeça.
A seguir ao jantar, visitamos as três câmaras de frio. Explicam-me como fazem face à curta duração da fruta e dos verdes e como em espaços exíguos cumprem, ainda assim, todas as normas de segurança alimentar. Passamos aos paióis onde bebemos um whisky em cima de caixas de mantimentos. Falamos de tudo, da economia e da pouca-vergonha que aconteceu com os bancos, falamos do país e voltamos à alimentação. Contam-me como é cozinhar com o navio adornado. Contam-me como na regata do ano passado, de Halifax a Belfast, se trabalhou em condições particularmente difíceis. O navio chegou a estar adornado a 35º, fazendo as baleeiras (que estão à altura da ponte) tocar na água. Para não escorregar na cozinha, deitaram sal grosso no chão. E no final da viagem foi necessário colocar cunhas no fogão porque este simplesmente se soltou.
- Mas não foi por isso que alguém deixou de comer.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

30 de Janeiro de 2010.



10º 16’.2N 024º 37.2W, dia 12, 23h55.

O sino que está na ponte diz-nos quanto falta para o fim do quarto. Um toque simples à primeira meia hora do quarto. Um conjunto de dois toques simples à primeira hora. O tempo demora-se. Dois conjuntos de toques com uma breve pausa no meio à segunda hora até à quarta e última hora de cada quarto. Não abandonar os camaradas é também rendê-los à hora certa, por muito que se tenha bebido na noite anterior.
– Exercício, exercício, exercício, homem ao mar a estibordo – fala o altifalante.
A meio da manhã há um novo exercício de homem ao mar.
– Tempo de sobrevivência: 15 horas – ouve-se uns minutos depois.
A água está quente. O calor veio para ficar. Felizmente, o ar condicionado já está a funcionar em pleno. Os radares, não. Almoço na câmara. O Oliveira conta que ontem, enquanto estava de quarto na ponte, teve de entrar em contacto com um cargueiro que aparecia para logo desaparecer na consola do ecrã do radar.
– Era um russo e já devia estar entornado, mas resolveu-se.
Fala-se na dependência em relação à tecnologia, que há não muitos anos atrás tudo se fazia com metade dos instrumentos, que quanto mais evoluímos, mais desaprendemos.
À tarde, na ponte, um marinheiro que enverniza as balaustradas chama a atenção para uma enorme tartaruga que passa a poucos metros do navio. Hoje, há um novo jantar de apresentação de um oficial à câmara. É a vez do Dias Pinheiro, do Miguel. O jantar é servido no tombadilho. Tapas, frutos secos, tâmaras com bacon, rissóis, croquetes e pastéis de bacalhau e gin tónico, seguidos de uma tábua de queijos e enchidos, de um cocktail de camarão e de um pudim Abade de Priscos, tudo regado com um Alvarinho Branco de 2008. Acabado o jantar, os oficiais circulam novamente com a sua farda branca pelo navio e entre a guarnição. Agora, que a maior parte anda de tronco nu, o contraste dificilmente podia ser maior. Vou beber um café à messe dos praças, mais conhecido como “O Bar do Traquete”, que assim se chama por estar imediatamente por baixo do mastro com o mesmo nome, junto à proa. O Bar do Traquete é ao mesmo tempo, e em função das horas do dia ou da noite, um refeitório, uma sala de convívio, um salão de jogos ou uma discoteca. Tem mesas e bancos corridos, fixos ao chão. A esta hora, há em cima das mesas dezenas de PC portáteis. Os jogos são jogados em rede, uns com os outros. Toda a gente veio prevenida com terabytes de filmes e séries. Por toda a guarnição já só se fala de uma coisa – a vinda a bordo de Neptuno, o Rei dos Mares.

29 de Janeiro de 2010.



13º 25’.1N 022º 58.4W, dia 11, 23h50.

Está um mar de azeite. Há dois dias que não temos vento. É a máquina que nos leva. O Rui Pedro acaba o seu quarto. Esteve lá em baixo desde as 4h00. Sai da casa da máquina e atravessa lentamente o poço. Não tem pressa, não tem para onde ir. Tem os ombros caídos, sinal de cansaço. O dia acaba de nascer. Fica por ali a apanhar os primeiros raios de sol enquanto espera pela formatura. Vista da ponte, a formatura é uma mancha azul apenas quebrada por uns quantos panamás brancos, que acompanha o balanço do mar. Começam os trabalhos do dia. Faz muito calor. Quase todos estão em tronco nu, fazendo descobrir as muitas tatuagens que a Marinha não permite que se vejam, quando se está uniformizado. Os calções azuis andam propositadamente descaídos, dando a ver os boxers Os sapatos de vela, utilizados como sandálias, mostram os calcanhares que os calcam. Há muitas fitinhas nos tornozelos. Ainda antes do almoço, há um novo exercício de homem ao mar. Os tempos de resposta de cada fase ainda não batem com o que está nos livros. A caixa dos pirotécnicos e a rádio-baliza são fixas na balaustrada da ponte junto à escada de acesso ao poço. Esta última emite um sinal com a posição do navio em caso de naufrágio.
– Lagarto, lagarto, lagarto – bate o Sousa Luís na madeira enquanto me mostra como funciona.
– São três os pirotécnicos mais utilizados que estão nesta caixa metálica e em outras mais pequenas espalhadas pelo navio. Há um que faz fumo e é atirado para junto de um homem que cai ao mar, como você já viu, marcando a sua posição e os dois outros são very lights, um de luz encarnada para sinalizar que o navio está em apuros e um outro que tem um pára-quedas e ilumina à noite – explica-me o Pinto Ferreira.
A meio da tarde, ficamos a saber que o problema da osmose está parcialmente resolvido. Há uma sensação generalizada de alívio.
– Somos um país de jeitosos – brinca o Oliveira. – Somos ou não somos?
Acaba o dia mais longo do Oliveira e do Gaspar. E faz com que os jogos de futeconvés previstos para hoje à tarde se possam realizar. Segundo jogo dos oficiais e nova vitória, desta feita contra a equipa dos cabos. Vitória suada, o cabo das tormentas. A pressão exercida sobre o árbitro cada vez que ele apita a favor dos oficiais é enorme e faz-se sentir por todo o navio. Mais velhos e mais pesados, os cabos não correm, mas fazem a bola correr.
– O Diabo sabe muito não é por ser Diabo, é por ser velho – diz o Gaspar. O cabo Leão, possuidor de um grande drible, é, apesar do resultado, unanimemente considerado o homem do jogo pela forma como é saudado pelas enxárcias. Findo o jogo, ainda a osmose não está completamente resolvida e já os radares e o ar condicionado estão a dar problemas. Vou ao primeiro jantar da Associação “Os Tachadas” para o qual tinha sido convidado há dois dias. Jantamos na messe das praças. Vai-se comer um belo arroz de polvo, apanhado nas águas do Algarve por um pescador, que calha ser o pai do marinheiro Lucas, e que foi entregue na cozinha para ser preparado especialmente para a ocasião.
– Aqui não há disso, aqui a gente é tudo igual, não há cá cabo, nem grumete, nem o car… – diz-me o cabo Eusébio, que preside à associação.
O seu nome vem do enorme tacho onde “o comer” é feito. Mas “Os Tachadas” não são uma associação qualquer. Não fosse o RDM, abreviatura de Regulamento de Disciplina Militar, seriam uma confraria. Por brincadeira, para levantar o moral, redigiram um credo próprio, impraticável para quem navega a quartos. Reza assim: “Creio no álcool a 36º todo-poderoso e criador de formidáveis carraspanas, creio na aguardente, sua filha e minha esposa predilecta a qual foi concebida por obra e graça do alambique…” E os seus estatutos não deixam dúvidas. Na cláusula primeira, referente às obrigações e deveres entre camaradas”, número quatro, pode-se ler: “é expressamente proibido comer uvas”. No número oito, está escrito que: “Todos os sócios são obrigados a beber só bebidas nacionais ou estrangeiras”. Ainda antes do jantar sou feito confrade, sendo-me colocado um colar com uma rolha à volta do pescoço e é-me atribuída uma alcunha. Entre irmãos, sou agora “o Joker”, por causa do boneco com o mesmo nome do Jogo da Santa Casa que faz a viagem connosco. Não é confrade quem quer. E, mais uma vez, está tudo estatutariamente definido. É confrade quem pode. É preciso possuir ou ganhar muito rapidamente, e passo a citar, “olhos remelados, um rosto cor de camarão e nariz em forma de torneira”. Acabado o jantar, continua-se a beber. Canta-se e bebe-se. No plasma da messe passam telediscos. Toda a gente canta. Há um marinheiro que passa a mão nos olhos para evitar uma lágrima perdida. A música que passa é um variado sortido pimba. Há um teledisco impossível de esquecer. Foi integralmente filmado no “Kikas”, uma casa de alterne no Vale de Santarém. Umas raparigas, cujo branco dos vestidos é realçado pela luz, a cirandarem de um lado para o outro no interior do bar. Fora isto, há apenas mais um plano da placa que está na estrada à entrada do Vale de Santarém, que entra por corte no refrão. Saímos da messe e vamos para lá para fora, para a proa. Vamos ter com o Belo, que está de vigia. Corre um vento quente. Entra uma viola. Canta-se música portuguesa. Palma, Zeca, Xutos, música de intervenção, rock português dos 80 e jingles, músicas de reclames com as letras levemente adaptadas. O Eusébio, o grão-mestre, oferece mais uma grade.
– Viva gente! – grita o Castro. – Ba-da-mer-da-pa-ra-a-gen-te! – respondem todos.
Canta-se o hino da Sagres. “Nos somos a escola Sagres / Somos grandes marinheiros / Viajamos pelo mar / Viajamos pelo mar / Conhecemos o mundo inteiro.” Toda a gente começa uma canção. Canto a “Olhos Negros”. Mais uma grade de canções. Mágoas afogadas. Há aqui um espírito bravo e muitas histórias. A do Belo, surfista do Estoril, 24 anos, há cinco na Sagres e que já foi evacuado por duas vezes. Da primeira vez, ia o Sagres para o Brasil e logo em Sesimbra magoou-se com gravidade nas mãos ao prender um cabo. Da segunda, andava o Sagres por África e, quando estava de licença em terra, foi cuspido do interior de um carro, perto do Lobito. E ele resiste. Não abandona o navio porque não se abandonam camaradas. Vamo-nos deitar. Alguns vão dormir ali, à proa do navio, ao luar.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

28 de Janeiro de 2010.



13º 25’.1N 022º 58.4W, dia 10, 23h45.

Acordo alagado. É muito cedo. A temperatura tem vindo a subir de forma gradual. Mas a humidade chegou de uma só vez. É uma fina película de suor, a que nos cobre o corpo mesmo na ausência de movimento. Entranha-se e só depois se estranha. Vou passar a dois duches por dia. Este navio produz água. Se pensarmos, só poderia ser assim. A guarnição é composta por 147 elementos aos quais se irão juntar no Recife mais quatro que, por razões diversas, ficaram em terra. Na América do Sul, a Sagres vai ainda, no âmbito de programas de intercâmbio, receber alguns cadetes de outras Marinhas. E, por fim, em Agosto, vão chegar os nossos cadetes, aproximadamente mais 35 elementos, dos quais 11 são MIF, militares femininos. Não é uma população inferior à de muitas aldeias esquecidas do interior, onde ainda é lembrado o dia em que lá chegou o saneamento básico. Desde que saímos de Lisboa, os 147 homens que aqui vivem consomem, em média, 18 toneladas de água por dia. No Inverno e contrariamente ao que se poderia pensar, o consumo de água é maior, apenas pelo compasso de espera que no duche se faz até a água começar a correr quente. Num navio como a Sagres e numa tirada com a dimensão da travessia do Atlântico que agora fazemos, o vento é muito importante, o gasóleo pode fazer a diferença entre chegar a um porto no dia previsto ou não, mas a água doce é decisiva. Sempre assim foi. Desde sempre que a água potável é um bem de primeira necessidade a bordo e, na medida em que condiciona a autonomia dos navios, sujeita a racionamento. Antes navegava-se até haver água armazenada. Ou navegava-se de porto em porto onde fosse possível armazená-la para uma nova tirada. Hoje em dia, são raros os navios de médio e grande porte – e até mesmo alguns veleiros de recreio – que não têm equipamentos de produção de água doce. A Sagres produz água por osmose inversa. Resumidamente, passa-se assim. Quando duas substâncias, neste caso água doce e salgada, entram em contacto e entre estas existe um diferencial de substâncias dissolvidas (sal, minérios e impurezas várias), dá-se uma migração da solução com menor concentração de substâncias dissolvidas para a solução oposta, de forma a reduzir ou igualar o diferencial das respectivas concentrações. Fornecendo ao sistema uma força, gerada electricamente, que contrarie a pressão osmótica (e mediante a utilização de filtros) é possível obter o efeito contrário, fazendo da água salgada e impura água doce e potável, uma água que satisfaz os parâmetros da Organização Mundial de Saúde. A osmose inversa é, a par da destilação, um processo já usado em zonas que se debatem com falta de água crónica, como Porto Santo e Cabo Verde, por onde passámos há dias. É o que nos tem permitido até agora produzir mais água do que a muita que temos vindo a consumir. Até agora. O sistema de osmose inversa acaba de avariar. Corre-se o risco de entrar no “regime de água fechada” que consiste em abrir da torneira apenas uns minutos por dia. Os engenheiros Oliveira e Gaspar estão há já algumas horas na casa da máquina, lá em baixo, de volta do aparelho de osmose inversa. Não participam no exercício de homem ao mar, em que o padeiro Ramalho faz o salvamento do Óscar, um boneco feito com um impermeável cheio de trapos e com uma bola de futebol no lugar da cabeça que antes foi atirado ao mar, e que termina com o altifalante a dizer:
- O 1º sargento CM (seguido do nome de um conhecido dirigente desportivo) foi salvo e encontra-se bem de saúde.
Os engenheiros falham o almoço, que à quinta-feira é rancho reforçado (com doce no lugar da fruta), por tradicionalmente se proceder à revisão do aparelho dos navios. E falham ainda o exercício de tiro dos fuzileiros para o qual o sargento Alves me convidou. Começa por me explicar o funcionamento da arma. É uma G36. Assim está trancada, assim não está. Dispara tiro a tiro e de rajada. Lança granadas e tem visão nocturna. É de plástico reforçado, muito leve e não dá coice no disparo. É o seu brinquedo, o seu objecto de transição. E depois mostra-me como se faz. Um balão laranja com água é atirado por um outro fuzileiro, ele encosta o cabo da arma ao ombro e olha para mim, sorri, o balão continua a afastar-se, coça a barba no cabo, o balão está já a 150 metros, acompanha o movimento do mar, ele continua a olhar para mim e eu penso que “este gajo está-se a esticar”. Precisou de um tiro. Ele é em si mesmo uma arma, tem o curso de sniper e entre a guarnição há quem diga que gostava que fôssemos abordados por piratas ao largo da Somália só para o ver em acção. O Oliveira, o Gaspar, o primeiro-sargento Rui Pedro o cabo Eusébio, o Imperial dos Santos (grande nome, mesmo), o sargento Perfeito (outro grande nome), o Lopes, o fotógrafo, o César Martins e os dois grumetes Ferreira (espero sinceramente não me estar a esquecer de ninguém) continuam lá em baixo de volta da osmose. Até agora, nada. Já ligaram para Lisboa. Já se tinham lembrado e feito tudo o que de lá partiu como recomendação, o que constitui uma satisfação, não o escondem, mas o problema não fica resolvido. Vou até lá. A casa da máquina está no segundo dos cinco pisos do navio, imediatamente por cima do porão, onde estão os reservatórios de água e combustível. É uma descida ao inferno. Abro a porta, ponho uns protectores nos ouvidos e desço dois lances de escadas para lá chegar. É um inferno que fica abaixo da linha de água. O barulho da máquina a que os nossos ouvidos já se habituaram no convés é agora ensurdecedor e compete com o calor no desconforto que causa. Lá em baixo, ninguém fala. É impossível fazerem-se ouvir. Falam por gestos. O Oliveira abre e fecha as duas mãos três vezes. Faz uma roda no ar com o indicador e acaba afastando subitamente as duas mãos, na horizontal. Disse:
- Vamos ver o que acontece nos próximos 30 minutos, e depois, corta a ligação.
As caras estão cobertas de gotículas de suor. Transpira-se muito. O Rui Pedro está sem os protectores nos ouvidos. Já não os aguenta. De cabeças inclinadas, estão todos de volta dos filtros da osmose. O Oliveira e o Gaspar e todos os seus homens voltam a falhar o jantar. Falham o dia.

27 de Janeiro de 2010.



16º 30’.8N 021º 22.9W, dia 09, 23h50.

O dia nasce com a Sagres a 100 milhas de Cabo Verde. Não há vento. O pano vai ser carregado de tacada, isto é, recolhido de uma só vez, o que requer muito trabalho e coordenação. E não pode ser feito sem a coragem física daqueles homens – muitos são ainda miúdos de pouco mais de vinte anos – que vão diminuindo de tamanho à medida que galgam as enxárcias e se equilibram nos braços dos mastros. De manhã, continua-se a lixar as madeiras da balaustrada e a fazer pinturas. O barulho do berbequim chega a todo o lado. Há um ou outro aviso de “pintado de fresco”. Ao almoço, os oficiais recordam os tempos da Escola Naval. “Escola”, “meu escola”, “escolinha”, “meu velho”. É assim que se referem aos camaradas do mesmo ano. É assim que o Oliveira se dirige ao Pinto Ferreira, é assim que sargentos falam com sargentos, e praças com praças. Entre oficiais de cursos de diferentes anos, podem os mais velhos optar por “dar a volta” aos mais novos. “Dar a volta” não é mais do que permitir um tratamento por tu, nunca antes de praxar condignamente o subalterno. “Dar a volta” é diferente de “dar volta”, que é o que se diz quando, depois de marear as velas se prende o cabo (e não a corda) à volta do cunho. “Malagueiro” é sinónimo de mar alteroso, e podia continuar. Aqui, fala-se uma língua própria, cuja riqueza não se resume à mera junção dos muitos termos náuticos existentes com alguns acrónimos da organização (serviços, funções,…) militar. Não. Esta é uma língua viva que é entretecida com a participação de todos e que todos os dias é levada para casa e posta em contacto com as famílias dos marinheiros, dialogando assim com o “português civil.” De forma semelhante à da expressão “ir ao maneta”, surgida aquando das Invasões Francesas – como explicou o Vasco Pulido Valente no seu livro com o mesmo título – também o “meu”, forma reduzida de “meu sargento”, “meu capitão”, “meu coronel, dá licença”, veio da guerra colonial para Lisboa. Eu, por exemplo, já não vou largar o verbo “enfegar”. “Enfega” é todo aquele que obstrui de uma forma maçadora, que mói o juízo ou a “pinha” sem aparentemente precisar de uma razão para o fazer, e “enfegar” é o verbo correspondente. Todos conhecemos pessoas que esta palavra, e só esta, descreve na totalidade. Durante a refeição, continua a picardia saudável entre os oficiais de classe marinha, os navegadores, e os auxiliares, todos os outros, em especial, o Gaspar e o Oliveira, engenheiros e o Pinto Ferreira, da administração naval, para quem os navegadores enfegam as suas carreiras. Mal comparado, porque não acontece de uma forma tão vincada, os navegadores estão para a Marinha como os pilotos estão para a Força Aérea. Às 16h00, futeconvés. Os oficiais ganham aos fuzileiros a sua primeira partida do campeonato, 5-3, da manha sobre a força. Os oficiais jogam sempre fora de casa. Pendurados nas enxárcias, de pé no castelo, por todo o lado, a guarnição desforra-se, apoiando invariável e ruidosamente a outra equipa, qualquer que ela seja. Marco um golo, casualmente (o que eu fui fazer). Novo duche. Subo ao tombadilho. Alguém chama a atenção, apontando para o mar. Vemos peixes-voadores a 30 metros do navio. O Sousa Luís brinca perguntando se em relação a um grupo destes se deve dizer:
- Cardume ou bando?
No fim do dia, há o jantar de apresentação do Sousa Luís à Câmara dos Oficiais. O Sousa Luís é novo na Sagres. Como todos os oficiais que fazem o seu primeiro embarque no navio, oferece um jantar aos que já cá estavam. No tombadilho é servido um aperitivo acompanhado de uns canapés. Todos os oficiais estão presentes, excepção feita ao Gaspar que está de quarto. Estão fardados de branco, literalmente, dos pés à cabeça. Sapato, meia alta, calção, camisa e boné, brancos. Apesar da impressão que dizem causar no sexo oposto, não é bonito de se ver. É a sua farda para climas tropicais, que em Lisboa não se usa e que, imagino, é ainda um resquício dos tempos das colónias. Brindamos e esperamos pelo raio verde, o último raio do Sol. Comecei por pensar que se tratava de uma brincadeira. Vejo-o. Quando o céu está completamente limpo, a luz emitida pelo Sol, amarela no momento imediatamente antes de desaparecer, é refractada pelo azul do mar. Da forma igual à que a água da chuva quando atravessada pela mesma luz do Sol nos faz ver o arco-íris. É um breve instante, um único raio, verde. À noite e depois de uma faina de quarto, vou para os copos com os praças. Com o Belo, com o Castro, com tantos outros. Verdadeiros heróis que, acabada a faina, estão prontos para a festa. Verdadeiros Cortos Malteses, de carne e osso.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

26 de Janeiro de 2010.



18º 17’.3N 020º 39.1W, dia 08, 23h50.

Tomo o pequeno-almoço com o Bruno e com o Dias Pinheiro, que vai entrar de quarto às 8h00. O Bruno diz-me que não há nada de monta a registar na enfermaria, agora que a vacinação se vai completando. Ainda não são 11h00 da manhã e já o cabo Leão me está a oferecer um gin. Agradeço, vou recusar e desisto. De manhã, é tempo de trabalho. É muito trabalho. Em Lisboa, não houve tempo para se fazer muito. A esta hora, a Sagres é um estaleiro que balança. Já se está a trabalhar para a chegada ao Brasil. Todos me dizem que nenhum outro tall ship se compara à Sagres. Em esmero, primor e apuro. Não vai haver uma ponta de ferrugem que não seja picada, um cabo enrolado que não esteja à altura dos outros, “amarelo” sem o brilho puxado, não vai haver madeira sem ser envernizada. Por todo lado se pode ouvir o berbequim que vai lixando as madeiras. Antes de ser uma embaixada, a Sagres é uma oficina manual. Fazem-se mais lanudos. No tombadilho, está-se a engaiar, percintar e a forrar cabos de aço. O trabalho só se completa com a baldeação. Os fuzileiros já fazem quartos como toda a gente e estão perfeitamente integrados no resto da guarnição. Quando não estão de quarto, estão a fazer exercício físico. “Um quarto” é a unidade de tempo da vida a bordo. “Estar de quarto” significa, na prática, estar de serviço. “Um quarto” é um turno de quatro horas para oito de descanso. É um descanso relativo, porque pode incluir as refeições, a formatura, uma faina geral de mastros ou exercícios de segurança ou tudo isto. Muita coisa, portanto. Mas a razão por que se diz “quarto” é que um quarto do total de efectivos da guarnição está de serviço. Mais duro ainda é a bordada, seis horas de turno para seis de descanso, o que significa que metade da guarnição está de turno. É frequente quando está mau tempo ou se entra numa regata. Lá fora, planeamos a nossa vida ao dia, à semana, ao mês ou ao ano. Aqui, o quarto organiza a vida por eles. Almoçamos pela primeira vez na câmara dos oficiais com o sistema de fixação de pratos e copos. Ontem, ia havendo “jorda” – a expressão não é minha – tal foi o balanço. Há também uma flâmula para o oficial que provoca no seu quarto a jorda maior numa refeição na câmara. Fala-se abundantemente dos oficiais da Marinha como condutores de homens. Suspeito que a expressão e o conceito que encerra, a liderança, originariamente militar, tenha passado para o universo empresarial nos anos 80, para agora regressar em força às forças armadas, na companhia de uma outra expressão de uso corrente entre oficiais: “visão estratégica”. Já na ponte, tenho um ataque de tosse.
- Tens que largar isso, diz-me o Eusébio do tabaco.
É fácil gostarmos do Eusébio. É grande e corpulento. Lá dentro bate um coração de manteiga. Passou a tarde a estudar a poesia de Cesário Verde para ajudar o Imperial dos Santos (grande nome) no seu exame de 11º ano. Ao lanche, pergunto ao comandante se ele não se cansa dos elogios do Oliveira. O Oliveira apressa-se a dizer que, em relação ao chefe, novo elogio, todos os elogios são poucos. Hoje foram distribuídas sandálias a toda a guarnição. A toda não, o cabo Farinha calça 47 e foi autorizado a comprar fora umas parecidas, no primeiro porto. À tarde, há um merecido descanso e jogos. Faço equipa com o Oliveira no Jogo do Burro, a malha da Sagres. Seis malhas de borracha e um tabuleiro inclinado, dividido em doze quadrículas, dentro das quais números abrem a branco sob um fundo preto. Chama-se assim porque há duas quadrículas diferentes de todas as outras. Em vez de números, uma tem a figura de um cavalo e a outra a de um burro. Quando a malha cai no cavalo, perdem-se os pontos da jogada, quando a malha cai no burro, perdem-se todos os pontos conquistados até então. A outra equipa foi duas vezes ao burro. Ganhámos apenas por isso. Jantar, beliche.

25 de Janeiro de 2010.



24º 22’.7N 018º 00.9W, dia 07, 23h50.

Ontem fui convidado pelo Rui Pedro, o mais antigo dos sargentos, para ir hoje jantar à Câmara dos Sargentos. De manhã, na formatura, há um praça com a cabeça descoberta que irá, sem demora, ser praxado. Mal esta acaba, o altifalante grita: “condição geral 17”. Toda a gente sem excepção se deve dirigir para a sua balsa salva-vidas. Estou na décima quinta balsa. Há quem refile por estar na décima terceira. Todos colocam o colete amarelo. O Comandante surge com um pequeno rádio a pilhas numa mão e um anzol na outra, mesmo tratando-se de um mero exercício. As manhãs são, como sempre, de trabalho. Hoje, entre inúmeras outras tarefas, fazem-se lanudos – um simples cabo onde são passados cabos desfiados – que é içado nas enxárcias para proteger as velas quando batem nos cabos. Um cabo pede a um grumete para ir buscar a caixa dos pentes dos lanudos, que este vai rapidamente descobrir não existir. Nova praxadela, o mar está cheio de gambozinos. Dentro da caixa dos pentes, está, afinal, S. Hilário, que não me parece necessário explicar o que é. Desço à cantina com o cabo Leão, que é lagarto. São paióis e paióis de toda a sorte de géneros alimentícios, bebidas, tabaco, material alfandegado a um preço mais económico, mas que só pode ser comprado e consumido pela guarnição a bordo e para além das 12 milhas das águas territoriais portuguesas. Até a barbearia está cheia com caixas e caixas de cartão.
- Que nesta viagem não há barbeiro na guarnição e todo o espaço é pouco – diz o Leão.
Na cantina, há também t-shirts, pólos, bonés, canivetes, fitas com os símbolos do Sagres que, para além de garantirem alguma uniformidade no vestir a bordo, são vendidos aos visitantes. A cantina abastece ainda as messes dos praças – o bar do traquete – e a dos sargentos, assim como a copa dos oficiais. Não há dinheiro a bordo. A Sagres tem uma economia própria. Todas as compras feitas por qualquer membro da guarnição são descontadas pelo cabo Leão no suplemento de embarque individual. O produto da cantina vai para a Comissão de Bem-estar. Esta, como o seu nome indica, paga a assinatura do satélite da TV Cabo para todas as messes, as novas máquinas de lavar e secar roupa dos praças, o aluguer de uma carrinha para uma visita quando se chega a um porto, pequenos confortos que em casa damos por adquiridos e ajudam a ultrapassar a dura vida de trabalho a bordo. Ao almoço, o Oliveira continua a alastrar-se, que é, como aqui se diz, continua a distribuir comentários pelos seus camaradas. À tarde, antes do início do primeiro de muitos torneios de futconvés – um por oceano –, ainda se trabalha. Às 18h50, somos avisados pelo imediato de que vamos para o Recife e não para Salvador, como estava previsto, por falta de lugar no porto daquela cidade. Vamos chegar a 7 e a Sagres voltará a partir a 12 de Fevereiro. A flâmula azul passou entretanto para o tenente Pinto Ferreira. Às 20h00 em ponto, hora combinada, dirijo-me à messe dos sargentos. Aqui não há formalidades.
- Há um mínimo de regras que nos permitem viver em conjunto, mas é tudo na boa. É diferente dali – e apontam-me para a ré, onde ficam os oficiais. – Fazemos a ponte entre aqueles e aqueles – dizem referindo-se a praças e oficiais – e às vezes não é fácil.
A messe dos sargentos faz lembrar a sala de convívio de um grupo desportivo. Tecto baixo, uma televisão sempre ligada, por baixo, uma aparelhagem, as paredes carregam crestas, pratos e galhardetes, ofertas e souvenirs dos vários países com fortes comunidades portuguesas pelos quais o navio tem passado, de Nova Jersey ao Rio de Janeiro. A guarnição tem dezasseis sargentos a que se juntaram nesta viagem, por razões de segurança, dois dos fuzileiros. Jantamos um bife com esparguete e batata frita. A ementa é a mesma que está a ser servida a esta hora a praças e oficiais – a “aqueles e aqueles”. Aqui, não há uma mesa mas várias, com cinco lugares cada. Aqui, basta a barca adornar levemente para as duas vigias da messe ficarem abaixo da linha d’água. Os sargentos são mais velhos que os praças. E, com uma ou outra excepção, os primeiros-sargentos são também mais velhos que os oficiais. Há muitos que, aos quarenta e poucos anos, já atingiram o topo de carreira. Aqui, não se fala em devoção ou brio mas em profissionalismo. Falamos da viagem. Fala-se já da ânsia de chegar.
- É muito tempo, quem tem filhos pequenos, com três ou quatro anos, é complicado, já vai vê-los com mais um, estás a ver? E depois quando chegamos, andamos à vontade duas ou três semanas, à toa, somos estranhos na nossa casa.
Fala-se da família com o coração apertado. E depois, do nada, sai uma “boca” e outra, e todos rimos. Ninguém perde uma oportunidade para rir. É o melhor remédio. No fim do jantar, passamos ao whisky, enquanto vemos um DVD de um concerto ao vivo da Jennifer Lopes. Baixam-se as luzes. Há uma bola de espelhos com um projector a um canto e uma luz strobe no canto oposto. E sai outra “boca” e mais um copo. A messe é agora um bar da periferia. Animado é pouco. Só falta o fumo. Subimos ao poço para fumar um cigarro, que lá em baixo – ou em qualquer outra parte interior do navio – não é permitido. Antes de regressarmos à messe para um último copo, mostram-me a sua camarata. Não é o big brother da TVI, do Zé Maria e do Marco e não é, obviamente também, o big brother original, do Orwell. Mas há uma coisa em comum: não há intimidade. Estes homens choram juntos, riem juntos. Atravesso o poço para me deitar, atravesso uma linha que não se vê. Há muitas Sagres.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

24 de Janeiro de 2010.



27º 55’.2N 016º 21.6W, dia 06, 23h45.

Alvorada surda. O convés está deserto. Um navio fantasma. Também aqui a bordo da Sagres é Domingo, lembram-me mais tarde. O Oliveira vai perguntando a todos, em momentos diferentes, se já fomos à missa. Passa a manhã nisto. Almoçamos com a televisão ligada. Houve mais uma criança salva dos destroços, no Haiti. Fala-se de religião. Conta-se a história de um oficial mais antigo, evangélico, que tinha por hábito num outro navio passar uma gravação da missa da sua igreja quando estava de quarto à ponte. Rimos com vontade. No passado havia um capelão nas viagens da Sagres. Discute-se a homossexualidade nas Forças Armadas e, em especial, na Marinha. Fala-se abertamente e sem preconceitos. Referem-se experiências de outras Marinhas, e em particular, a dos Estados Unidos. Sinal dos tempos. A Marinha não pode ser uma ilha e vai reflectindo a sociedade, ainda que com algum atraso. Apesar do convívio descontraído às refeições, só muito raramente se conversa para o lado. Quando se fala, olha-se para a mesa. Quase não se repara, mas faz diferença – os mais novos praticamente só falam quando lhes é feita alguma pergunta. Afirmativo. À tarde, Faina Geral de Mastros. É a primeira do engenheiro Gaspar, enquanto oficial de quarto. O sol brilha nos seus óculos. Abre um sorriso. Vai olhando para cima, para os mastros. Os outros oficiais estão imediatamente atrás dele. Começa por bracear o grande e o traquete, isto é, mudar a direcção das vergas (ou braços) dos mastros grande e do que está à proa. Dirá mais tarde que a sua voz fica estranha no altifalante que encostava à boca para dar as ordens, que as suas pernas iam ganhando firmeza à medida que as velas iam sendo içadas, uma a uma, à força de braços. Até à hora do jantar, cruzamo-nos com dois veleiros de médio porte e um cargueiro. Este último, ao longe, lembra um castelo com a ponte levantada. Já na câmara dos oficiais, a flâmula azul é regada a champanhe pela primeira vez. Triangular, relativamente pequena e muito comprida, esta bandeira azul será içada amanhã na adriça de sinais da mezena, a bombordo. Recompensa o oficial que fez a barca percorrer mais milhas à vela durante um quarto de serviço na ponte, no caso o Sousa Luís. Coisas que, vou-me apercebendo, passam completamente ao lado da guarnição. Começamos a jantar e vamos vendo a bola na televisão, aos bochechos. Quando adornamos, a imagem pára no ecrã. Toda a gente fica contente. A custo, Sporting e Benfica ganham. Nos sofás, prolonga-se a discussão que começou à mesa, já sob a forma de aposta. Diz-se “trasfega” ou “transfega”? Apesar de dois dicionários de língua portuguesa e de três dicionários de termos náuticos que o Oliveira vai buscar em seu socorro, parece já claro que deve uma garrafa de aguardente “Chancela” ao Dias Pinheiro. Findo o jantar, joga-se wii. Primeiro bowling e depois golfe, que seduz o imediato Fonte Domingues a jogar pela primeira vez. Reforço, a última refeição do dia. Como sozinho. O almoço e jantar são de presença obrigatória, a não ser que se esteja de quarto, e há alguma cerimónia. Comandante ao centro da mesa, o convidado à sua direita e o imediato à sua frente.
- Senhor Comandante, estamos todos (servidos) – diz baixinho o imediato.
- Bom apetite – responde o comandante.
O pequeno-almoço, lanche e reforço são mais informais. Penso que, entre os oficiais, sou o único que faz as cinco refeições por dia. Vou ganhar uns quilos.

23 de Janeiro de 2010.



31º 08’.1N 016º 39.7W, dia 05, 23h55.

A Madeira ficou para trás, já não há regresso. As grandes tiradas, como esta que agora começa, “é que é o pior”. Se contada a partir de Lisboa, vai ser , uma das maiores da viagem em milhas percorridas. Acordamos a cem milhas das Canárias, sem vento. A máquina está a funcionar há já algumas horas.
- O vento foi-se embora sem pedir autorização ao imediato, foi vento de pouca dura – não resiste o Oliveira. A alvorada ainda não foi dada e já os fuzileiros treinam no convés. As Selvagens estão onde nasce o sol. Um farol, uma casa onde vivem dois vigilantes da reserva natural. E um marco de correio. A isto se resume a presença portuguesa no rochedo. É o suficiente para aumentar consideravelmente o mar português, de onde só agora começamos a sair. Toda a guarnição está no convés, à excepção dos TFD, os taifas despenseiros, o Carvalhosa, despenseiro do comandante, o Belo, responsável pela câmara dos oficiais, o Duarte e o Mendes, que se ocupam da copa de apoio à câmara. Lá fora, o silêncio, é a hora da formatura. Cá dentro, hard-rock que vem da copa. Subo à ponte. O guarda-marinha Dias Pinheiro é o oficial de quarto. Fumo um cigarro na sua companhia. Fico a saber que o seu pai foi comandante da “barca”, como ele faz questão de dizer, ao mesmo tempo que um tio foi comandante do Creoula. Tem ainda um irmão na Marinha.
- A minha irmã também teve ideia de vir para a Marinha, mas na altura as mulheres não embarcavam, desistiu.
O gosto pelo mar passou de geração, mas não é por isso que o apelido “Dias Pinheiro” não me é estranho. Pergunto-lhe se não tem um tio que trabalha em publicidade.
- Afirmativo - Há vários dias na sua companhia e ainda não lhe ouvi um sim ou um não. Afirmativo, negativo. O guarda-marinha tem apenas 23 anos.
À tarde, foi dado o aliviar do uniforme. Aparecem os primeiros calções azuis da farda no convés e é distribuído a cada membro da guarnição um par de sapatos de vela azuis. Às 16h00 começa o primeiro jogo de futeconvés. Oficiais contra a equipa vencedora do último torneio. Uma bola de meias – várias, na verdade, porque muitas saem borda fora. “A equipa que for responsável pela queda da bola de jogo ao mar será punida com um livre no local mais perto onde se desenrolou a acção que provocou a perda de bola”, pode-se ler nas regras distribuídas por todos em papel. E entra outra em campo. A bola não é muito maior do que uma de ténis e não pode ser levantada acima do joelho, como no futebol de salão. As áreas das balizas são marcadas a giz no tabuado. Os jogadores de campo não se podem agarrar a nada. Hilariante. Quarenta minutos e algumas nódoas negras depois, o jogo acaba empatado a um golo. Na segunda parte, faço o gosto ao pé. Antes do jantar, e enquanto os fuzileiros treinam boxe, o Dias Pinheiro faz a sua primeira corrida no convés à volta do mastro grande. Às 20h00 avistamos Tenerife a estibordo e a Gran Canária a bombordo. Passamos entre as duas depois de se ter pedido autorização à entrada das lanes, as estradas do mar, tecnicamente designadas como EST- Esquemas de Separação de Tráfego. O Bruno mostra-me o seu pedido de autorização de mudança de talhe – para deixar crescer barba e bigode – assinado pelo imediato Fontes Domingues. Durante o jantar, o sargento Alves dos Fuzileiros, baptizado a bordo como “Termonuclear” por querer resolver à bomba os problemas do mundo, manda entregar na câmara dos oficiais uma garrafa de Jameson 12 anos. Faz anos e cumpre uma tradição. Antes de se deitar, o comandante vai à ponte escrever as suas orientações para a navegação da noite.

22 de Janeiro de 2010.



35º 019’.4N 013º 04’.5W, dia 04, 23h57.

Às 11h00 de dia 21, avistamos Porto Santo (será que já caiaram os muros à volta das casas?) E hora e meia depois, a Ilha da Madeira. A sete milhas de distância, as luzes do Funchal são rios de lava que descem para o mar. Já temos rede. Por todo o convés vemos as pequenas luzes dos telemóveis. Ligo novamente para casa. Passo a noite acordado na ponte. O vento que corre já não é frio. Faço companhia ao Eusébio que está de quarto. Gostava de abrir uma livraria em Sintra. Cigarros. A cidade acorda com uma humidade que lhe tira a cor. Vou dormir. A Sagres vai ficar a pairar ao largo por umas horas. Quando acordo, às 11h30, já os jornalistas e o Comando de Zona Marítima, que vieram a bordo, tinham partido. A reparação do olhal ficou completa, o que enche a guarnição de orgulho, porque a parte mais difícil do trabalho foi feita a bordo. E o Vinho da Madeira já foi embarcado. Está na proa e vai acompanhar o Moscatel nesta viagem a caminho de se tornarem Vinho da Roda, o primeiro, e torna-viagem, o segundo, ganhando ambos propriedades únicas que resultam deste invulgar amadurecimento a bordo, para só então serem comercializados. Almoço. Falamos sobre o H1N1, sobre o que foi feito para prevenir a guarnição e sobre o número residual de marinheiros a bordo que se recusou a tomar a vacina.
- Guarnição, está previsto apitar a faina geral de mastros às 14h50, repito…
A voz do oficial de quarto ecoa nos altifalantes. O seu som metálico não disfarça a felicidade que o engenheiro Oliveira sente. Ao quarto dia de mar, o Sagres vai finalmente levantar pano. A Madeira ficou para trás. A bombordo, as Desertas. Parecem ter sido desenhadas com uma mão trémula sobre o fio do horizonte e vão presenciar toda a manobra. Começam os apitos, que só vão parar uma hora e dez minutos mais tarde.
- O meu recorde é de exactamente 22 minutos – diz o comandante.
Sobe-se pela escada de rede, a enxárcia. Em baixo, puxam-se os cabos.
- Ai vai um! Ai vai um! Ai vai um! Larga, larga!
O navio começa a adornar para bombordo, fazendo uma vénia às Desertas. No convés, os cabos serpenteiam o tabuado, um labirinto que rapidamente é desfeito e arrumado.
- Já estamos a andar mais rápido do que com a máquina – solta o Oliveira para o comandante. As velas enfunam ao vento. É o seu presente de anos. Jantar de aniversário. Uniforme nº 3, aliviado, isto é, sem casaco. Camisas brancas, gravata preta com o respectivo alfinete. O engenheiro Oliveira está visivelmente contente. Brinca com quase tudo, menos com o orgulho que sente em ser oficial da Marinha, comemorar o aniversário entre camaradas e, muito importante, a bordo do Sagres. É-lhe oferecido um livro da Sagres, que todos assinam, e aberta uma Royal Salut. São feitos tantos brindes quanto o número de presentes, do mais novo ao mais “antigo”. Invariavelmente, todos terminam com um:
- Ao Tenente Oliveira, à Barca e a Portugal.